Análises

Valorização econômica da soja convencional

A relevância econômica desta discussão reside no tamanho do mercado brasileiro da oleaginosa e na diferença de preços apontada entre os grãos tradicional e geneticamente modificado.

Frederico Glitz ·
4 de junho de 2009 · 17 anos atrás

Com a proliferação das culturas transgênicas, interessante questão contratual surgiu: a valorização econômica da soja convencional. O chamado “prêmio” ou “bônus” é a diferença – a maior – paga por determinados países importadores aos produtores que lhes forneçam soja tradicional. Tal bonificação representaria verdadeiro incentivo à manutenção das culturas não transgênicas e ao desenvolvimento de mecanismos de segregação e rastreabilidade dos grãos. Toda uma nova complexidade se instaura na comercialização da soja e seus subprodutos, vez que ao lado das necessidades logísticas – colheita, transporte e armazenagem diferenciados – é indispensável a adoção de instrumentos de certificação.

A relevância econômica da discussão reside no tamanho do mercado brasileiro da soja e na diferença de preços apontadas entre os dois tipos de grãos.

Segundo informações da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), até o mês de maio de 2009, a complexa cadeia de contratos que envolve o sistema agroindustrial da soja movimentou o montante equivalente a US$ 13 milhões em receitas com exportações. Sendo que nos últimos meses o “prêmio” por tonelada não-transgênica variou entre US$ 26,70 (janeiro) e US$ 14,61 (abril). Tal valor é significativo quando se leva em conta que o valor da saca de soja (cotação Chicago) variou entre US$ 360,59 e US$ 378,18 nos mesmos meses.

Outro dado relevante é o custo de produção. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) os custos de produção de soja não-transgênica na Safra de 2008, utilizando-se o estado de Mato Grosso como referência, foram de: R$ 1.885,09/ha (Primavera do Leste); R$ 1.982,18/ha (Sapezal); R$ 1.750,52/ha (Sorriso). Enquanto que os custos de produção da soja transgênica foram de: R$ 1.858,44/ha (Sorriso) e R$ 1.959,04/ha (Primavera do Leste). Note-se, portanto, a majoração dos custos dessa em relação àquela.

O mercado consumidor europeu parece, igualmente, dar indícios de valorização dos grãos tradicionais, neste sentido vide a recente proibição alemã de cultivo do Milho MON810. Deve-se ter em mente, contudo, que atrás desta questão pode estar verdadeira batalha mercadológica. Por outro lado, há resistência de certos traders europeus quanto ao pagamento do referido prêmio. Segundo sua argumentação, não haveria motivo para se pagar adicional ao preço do produto quando este produto é o único a ser comprado, em referência às barreiras para entrada de produtos transgênicos americanos.

Ao produtor, no entanto, resta a questão dos custos assumidos com a infra-estrutura necessária para garantir a distinção entre os respectivos grãos. A responsabilidade pelo manejo, neste sentido, recai sobre ele. Além da perda da bonificação, o contágio pode representar, eventualmente, inadimplemento contratual e, portanto, dever de pagamento de cláusula penal, e necessidade de pagamento de royalties para a detentora da patente e responsabilidade pelos demais danos causados à cadeia produtiva.

A grande verdade é que ao produtor brasileiro se oferece uma alternativa à massificação comercial das grandes companhias vendedoras de sementes. Resta saber se esta opção continuará sendo economicamente viável.

  • Frederico Glitz

    Frederico Glitz é advogado e membro do Co-Extra,  grupo de estudos para coexistência e rastreabilidade de organismos genetica...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
13 de março de 2026

Quem são os atingidos por desastres?

Há mais de dez anos desde o rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais (MG), faltam informações e sobram consequências

Notícias
13 de março de 2026

Nascimento de filhote de harpia em reserva da Bahia é comemorado pela Ciência

Desde 2018 não eram registrados nascimentos na unidade. Filhote ativo no Corredor Central da Mata Atlântica é passo importante para evitar extinção

Salada Verde
13 de março de 2026

Em homenagem ao cão Orelha, governo aumenta multa para quem maltrata animais

Novo decreto amplia de R$500 para R$ 1.500 valor da multa mínima em caso de maus tratos aos animais. Governo também estabeleceu a criação da Conferência Nacional de Direitos Animais

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.