Análises

A esperada queda da SELIC e o maior ativo do século XXI

Nos territórios, onde as veias seguem abertas e pulsam o sangue e a alma das cidades e de seus habitantes, milhares de pessoas sofrem os efeitos das decisões sobre investimentos

Alberto Calil Elias Junior · Celso Sánchez ·
27 de fevereiro de 2026

Acompanhar as notícias nos primeiros meses de 2026 têm exigido algum esforço, dado o volume, a velocidade e a gravidade dos acontecimentos. É notável uma certa aceleração do tempo e uma sensação de que a qualquer momento, outro país será bombardeado e o dólar vai derreter ou disparar. Assim como o noticiário sobre geopolítica e sobre economia, os eventos climáticos seguem esta montanha russa, confirmando a afirmação do Secretário Geral da ONU, em um dos seus discursos sobre o tema, proferido em junho de 2023, de que  “a era do aquecimento global acabou; a era da ‘ebulição global’ chegou”, expressão que tem se atualizado quase que diariamente, não apenas pela ocorrência de eventos climáticos extremos, cada vez mais intensos e frequentes, mas também pelas movimentações na conjuntura político-econômica, tanto nacional quanto internacionalmente.

O discurso de Guterres, naquele junho de 2023, fazia menção direta aos dados científicos sobre mudanças climáticas, apontando, uma vez mais, para a realidade dos alertas da comunidade de cientistas  em relação à essa crise, materializados nos dados dos relatórios sobre o clima no planeta. Contudo, a utilização do termo ebulição tem feito muito sentido ainda na geopolítica mundial e nas análises das múltiplas crises do capitalismo, que tornam-se mais agudas na segunda metade do século XX e estendem-se ao século XXI. Exemplo disso é a circulação de estudos e pesquisas que apontam para determinados momentos históricos como sendo de “ebulição global”[1]

E, no caldeirão de acontecimentos do início de 2026, no caso brasileiro, estão pequenos, médios e grandes investidores e, em alguma medida, não investidores também, na espera pela queda da SELIC, que é a taxa básica de juros no Brasil, taxa discutida em uma reunião de “cavaleiros da távola redonda” que decidem quanto você vai pagar na prestação da sua geladeira. O Comitê de Política  Monetária, que apesar do nome, pretende ser um órgão independente do governo e do jogo de interesses político-partidários, mas vinculado ao Banco Central que é, por sua vez, a gosto do mercado, um órgão independente e autônomo no país desde 24 fevereiro de 2021.

É neste contexto que nos tornamos espectadores, através dos portais de notícias e das plataformas de mídias sociais, do alvoroço da bolsa de valores na expectativa de queda da SELIC. Expectativa que, aliada ao cenário geopolítico internacional dos meses iniciais de 2026, foi alimentada por um aumento significativo do fluxo de investimentos internacionais no mercado brasileiro, além de recordes na bolsa e também no preço do ouro, configurando uma nova corrida do ouro como jamais vista nos últimos tempos.

Apesar da circulação diária de informações sobre a bolsa de valores nos noticiários, poucos sabem que a participação de investidores estrangeiros no volume financeiro negociado na B3 (a Bolsa de Valores do Brasil) tem sido dominante. No primeiro semestre de 2025, o capital estrangeiro respondeu por cerca de 58,7% do volume negociado, um dos maiores percentuais desde o início da série histórica em 2019. Cenário que se repete com as negociações em torno do ouro e outros metais, que aumentaram vertiginosamente, emulando outros momentos, em que há uma “corrida para ouro” de investidores, certeiras como “balas de prata” que disparam para matar lobisomens em alguns mundos da ficção.

Para além das planilhas de lucros dos empresários e rentistas, é importante refletir sobre os sentidos e os efeitos da circulação entre nós desse alto índice de capital estrangeiro. Não nos deteremos aqui nas implicações das teorias econômicas sobre fluxos de capital, mas destacamos a alienação entre os detentores desse capital internacional e o cotidiano da população brasileira. Qual a preocupação deste investidor no nível de contaminação de mercúrio em um longínquo e idílico igarapé amazônico? Qual a contabilidade dos rendimentos e dividendos desse investidor na derrubada de um naco de cerrado para expandir a fronteira agrícola de um Fundo de Investimento Agro? Pare para pensar e chore sozinho num cantinho da bolsa on-line.

Essa alienação estrutural de quem especula no país reforça a perspectiva de que as decisões em torno dos investimentos e, em geral, o discurso dos “influencers” e consultores dos aportes e retiradas de capital, pautam-se no lucro individual e não em parâmetros minimamente éticos ou solidários. Exemplos são os tutoriais e cursos de como fazer o primeiro milhão, espalhados pelas plataformas de mídias sociais. Nesse mercado de oferta de auxílio financeiro online, juntos, os 10 maiores influencers de finanças têm mais de 30 milhões de pessoas inscritas, sendo que existem apenas pouco mais de 5 milhões que investem na bolsa. Não importa se o investimento da vez é em uma empresa que comete crimes ambientais que levam ao afundamento de vários bairros em uma cidade ou ao rompimento de barragens de minérios que levam a destruição de biomas inteiros, o que vale – nesse vale tudo – é o retorno financeiro, o lucro ao final do dia. E tudo isso se chama hoje de “ educação financeira”. Uma sutil e útil confusão conceitual entre aprender a cuidar de suas suadas economias e servir de massa de volume financeiro para atrair bons negócios em alta escala da Faria Lima.

Nos territórios, onde as veias seguem abertas e pulsam o sangue e a alma das cidades e de seus habitantes, milhares de pessoas sofrem os efeitos das decisões sobre investimentos.

Na Tijuca, por exemplo, bairro de classe média na Zona Norte do Rio de Janeiro em que as primeiras linhas desse texto surgem, pessoas trabalhadoras, envolvidas em suas atividades diárias, enfrentam as mazelas de uma grande cidade, marcada pelas desigualdades, circulando em transportes públicos lotados, paradas em engarrafamentos, sofrendo os efeitos das chuvas, que alagam ruas ou das ondas de calor que castigam pedestres de paisagens em que árvores são constantemente substituídas pelos concretos da especulação imobiliária. Esse cotidiano, a vida real do trabalhador, pouco aparece nos relatórios de investimentos, esse drama humano não entra nas planilhas dos fundos internacionais. De fato, o que domina as negociações e o sobe e desce das bolsas é a lógica do lucro global e a especulação.

Uma prova visceral disso aconteceu há poucas semanas: um incêndio de grandes proporções atingiu o Shopping Tijuca, na noite de 2 de janeiro de 2026. O fogo começou no subsolo e acabou deixando duas pessoas mortas e outras feridas, enquanto partes do shopping tiveram de ser isoladas depois do combate às chamas. Um mês após o incêndio, os visitantes do Shopping, que foi reaberto duas semanas após o “incidente”, eram recebidos não por promoções, mas pelo cheiro de fuligem e da fumaça de plástico queimado; lembranças físicas de um trauma coletivo que ainda se reflete nas paredes e na atmosfera do lugar, mesmo após a reabertura.

Em um tempo histórico marcado pela globalização e pela produção de um mundo pasteurizado, os Shoppings Centers são um dos signos do progresso no imaginário dessas cidades monocromáticas, e na Tijuca não é diferente, a despeito da presença de tantos outros signos, constantemente invisibilizados, como por exemplo, a Floresta da Tijuca ou o Rio Maracanã. Em tempos em que o consumo povoa o nosso imaginário, esse episódio brutal marcou de forma profunda a história do bairro.  Trabalhadores, moradores e frequentadores hoje carregam na pele, no cabelo com cheiro de shampoo e fumaça, na nublada e esfumaçada memória, a experiência de um desastre que, longe de ser um fato isolado, revela algo maior: a invisibilidade dos impactos humanos diante dos juros, mercados e interesses internacionais. Afinal, como foi dito pelos que governavam o país durante a pandemia de COVID, “a economia não pode parar”

No mundo dos números financeiros, nada disso aparece nas planilhas: a SELIC permanece alta, alimentando rentabilidades em renda fixa e atraindo capital estrangeiro em busca de juros maiores; enquanto isso, o investidor local, muitas vezes pessoa física, é empurrado para ativos de menor ganho, perdendo espaço no mercado acionário. E, a grande massa trabalhadora, é colocada às margens desse mundo dos lucros e dividendos, sendo alijados de sua humanidade e transformados apenas em consumidores e consumidoras, necessários ao funcionamento da máquina de fazer lucros do atual rentismo.

O Brasil tem se mostrado um dos países mais atrativos para investidores estrangeiros em busca de rentabilidade elevada justamente por causa da taxa de juros. Mesmo sem cair ainda de forma significativa, a expectativa de redução da SELIC já tem sido motivo suficiente para movimentar esses fluxos de capital. No entanto, o que os gráficos e os relatórios não capturam, mas e que é possível sentir circulando pelos espaços urbanos, é o preço humano dessa dinâmica. A SELIC pode ser a taxa que move mercados, mas o verdadeiro ativo do século XXI não são números, índices ou capitais internacionais: é a vida das pessoas invisibilizadas por esses mesmos mercados, a terra e seus minérios, os rios e a água, as florestas e o próprio ar que respiramos. Isso que alguns economistas chamam de externalidades, são os ativos não contabilizados de valor incalculável, sobretudo a médio e longo prazo.

Enquanto as taxas de juros e as expectativas de corte ditam onde o dinheiro vai entrar ou sair, o cotidiano de milhares de brasileiros – trabalhadores, moradores de bairros como a Tijuca e outros subúrbios ou outras periferias – continua a ser atravessado pelas  decisões de uma elite político-econômica que valoriza o capital acima da vida, seja humana ou nao humana, como rios, florestas, ou como o próprio ar. Essa contradição entre os dados frios das planilhas e as vidas quentes que se desenrolam, com múltiplos sons, cores e cheiros, que muitas vezes escapam aos nossos sentidos, vêm se constituindo como uma das marcas do neoliberalismo financeiro contemporâneo, um sistema que transforma tudo, inclusive a vida das pessoas que o sustentam no dia a dia, em mercadoria.

O que não podemos perder de vista é que a reabertura do Shopping Tijuca, com parte dos trabalhadores e trabalhadoras das lojas revivendo o uso das máscaras, que deixou marcas profundas na população em virtude da gestão criminosa da Pandemia de COVID-19,  se conecta diretamente com a centralidade dada na mídia hegemônica aos juros e a SELIC, que se constituem em dispositivos de exploração, de exclusão e de desumanização do outro. Enquanto os juros seguem em alta nas timelines e jornais diários, alguns fatos deste início de 2026 são praticamente ignorados, quase sem repercussão nos canais de notícias ou nas redes.

Povos indígenas e ribeirinhos, tal qual os invisíveis trabalhadores que sentem o cheiro da fuligem do shopping na Tijuca ou os moradores de ruas cujas árvores são substituídas por concreto, vivem exatamente o mesmo processo de sufocamento que os pescadores e quilombolas que habitam a Foz do Amazonas, amaldiçoada pela descoberta de petróleo, cujas ações de empresas responsáveis pela extração do “ouro negro” costumam pagar bons dividendos. Configuram-se velhas e novas “zonas de sacrifício”.

Todas essas notícias, tornadas invisíveis, se conectam diretamente com o destaque dado aos juros e a SELIC, pois tem como pano de fundo uma lógica desenvolvimentista, que reflete e conforma os processos de exclusão em curso e que são sustentados pela desinformação socioambiental. Emergem discursos que, em alguma medida, não negam a necessidade de ações em prol do “Meio Ambiente“ e da “Natureza“, mas que atualizam as estratégias do negacionismo socioambiental. São os novos “Mercadores da dúvida”[2]. Diante da dificuldade, cada vez maior, de negação do colapso ambiental, busca-se destacar os benefícios para a economia e para o desenvolvimento econômico, da continuidade de determinadas práticas, como por exemplo, a extração de petróleo, que seria indispensável para financiar e garantir uma suposta transição energética, conforme a justificativa corrente. No entanto, os já constatados danos ambientais destas atividades extrativistas são totalmente ocultados.

Apesar da passagem do tempo no calendário, não estamos longe do ano de 1492 ou do mais próximo 1992, em que Enrique Dussel, por ocasião da efeméride que marcou a invasão dos europeus ao continente americano, nos alertou que mais que descobrimento, deveríamos atentar para a permanência do “encobrimento do outro” e da materialização da colonialidade, em que as notícias e pautas escolhidas como centrais nada mais são do que a expressão de uma matriz colonial do poder, em que a natureza, e as relações com ela estabelecidas são vistas como “recurso” e como “mercadoria”.

Em tempos de ebulição global, quando nossa atenção é constantemente capturada pela avalanche de conteúdo, de tal modo que ficamos sufocados e embotados, torna-se urgente a retomada da autonomia na escolha das direções em que focamos os nossos olhares. Construir ecossistemas de informação que convergem para os interesses das comunidades, dialogando com interlocutores de nossa escolha, sem a intermediação dos algoritmos ou da inteligência artificial, constitui-se um passo necessário. Nesta perspectiva, em um planeta já em colapso ambiental, é preciso construir estratégias de mitigação ao embotamento produzido pela atual economia da atenção. E, nesse sentido, voltar nossos sentidos para os territórios, constitui-se em passo essencial.

O ar fresco a água pura e terra para todos é a melhor aposta de rendimentos futuros e de longo prazo. E é essa realidade que precisamos visibilizar, porque não há gráfico ou planilha que substitua a experiência real de quem vive, trabalha e sente cada decisão econômica na pele.


Notas

[1] Como exemplos citamos o estudo de Brans, Hal, intitulado Third World Politics in an Age of Global Turmoil: The Latin American Challenge to U.S. and Western Hegemony, 1965–1975 (https://doi.org/10.1111/j.1467-7709.2007.00669.x) que aponta a década de 1960 e de 1970 como um desses momentos de ebulição global no cenário geopolítico ou o artigo de Liz Shchepetylnykova and Sevgi Kaya-Kaşıkcı, intitulado Embracing Complexities: Transformations of International Student Mobility amid Global Turmoil, que analisam aspectos relacionados à mobilidade internacional de estudantes em tempos de ebulição global após as crises da década de 2020, no período pós-pandemia de COVID (https://ihe.bc.edu/pub/nv29of05/release/1)

[9] Título de estudo realizado por Naomi Oreskes e Erik M. Conway, em que demonstram as estratégias de desinformação adotadas para descredibilizar os consensos científicos em torno do malefícios do tabagismo e das mudanças climáticas. ORESKES, Naomi; CONWY, Erik M. Mercadores da dúvida. São Paulo : Quina, 2025.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Alberto Calil Elias Junior

    Professor Associado IV do Departamebto de Biblioteconomia e do PPB/Unirio. Pesquisador do Observatório de Educação Ambiental de Base Comunitária do Rio de Janeiro

  • Celso Sánchez

    Biólogo, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Coordenador do Grupo de Estudos em Educação Ambiental Desde El Sur GEASur

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