Este sexto livro da minha série, caro leitor, é como um tesouro escondido, envolto em um certo mistério…
“Uma Ética Ecológica e Evolutiva”, escrito por Daniel Kozlovsky em 1974, é um livro pouco conhecido, mas admirável. Não se iluda com o título árido: é um livro intenso, criativo na forma, uma verdadeira obra de arte para ler – literatura pura. É também um livro para quem quiser ir fundo. Argumenta – em 1974! – que todas as nossas adaptações paliativas à crise ambiental só adiam e aumentam os problemas, e que a única solução está em mudanças profundas na maneira com vemos o mundo e a nós mesmos. Lembro que gostei muito deste pequeno volume (128 páginas) quando o li, mas depois cheguei a pensar que devia ser o único a achar isso, pois nunca mais tinha ouvido falar dele. Alguns anos atrás, porém, descobri, pela forma mais surpreendente, que não estava só…
Meu amigo argentino Adrian Monjeau estava aqui no Rio de Janeiro quando lhe mostrei o livro de Kozlovsky – na verdade, a fotocópia dele que tenho desde estudante. Adrian imediatamente se apaixonou pelo livro e, como a Amazon naquela época não entregava na Argentina, me pediu para comprar um para ele, e ele me reembolsaria. Entramos então na Amazon, ordenamos os vendedores pelos mais baratos e lá estava o livro, bem baratinho, 1 dólar e 99 cents. Cliquei no “buy now”. Então, para nosso desapontamento, apareceu a mensagem “Este vendedor não faz entregas internacionais”.
Tranquilo, pensamos, vamos ver no segundo mais barato. E então vimos, para nosso choque, que era trezentos dólares! E o terceiro mais barato, uns quinhentos dólares! Só havia uma explicação óbvia: estávamos tratando de um livro “cult”, e o primeiro vendedor não sabia disso (hoje você consegue alguns preços mais baratos, embora preços bizarros ainda apareçam).
Enquanto Adrian voltava para Bariloche com o xerox do xerox, fiquei lembrando daquele livro e do que o fazia tão especial. Fiquei também curioso, como sempre fico, de saber mais sobre o autor de uma obra tão marcante. Mas tive pouco resultado. As únicas coisas que consegui saber foram que Daniel G. Kozlovsky nasceu em 1937, era um autodidata, que nunca se formou em biologia – o que é quase incrível, dado seu livro – mas trabalhou do Departamento de Zoologia da Universidade de Wisconsin e publicou um par de bons artigos de ecologia no final da década de 1960. Depois disso, é tudo mistério: ele desaparece, e encontrei citações dos artigos e do livro, mas nenhuma outra menção a quem foi a pessoa.
Uma liberdade desconcertante de tema e forma

“An Ecological and Evolutionary Ethic” (no original, nunca traduzido para o português que eu saiba) tem uma forma incrivelmente moderna. É composto por sessenta e cinco textos curtos, na verdade crônicas independentes agrupadas em cinco seções: Evolução, Ecologia, Animismo, Humanismo e Naturalismo. Quase todas as crônicas são precedidas por uma epígrafe: uma citação de um pequeno texto inspirador ou trecho que de uma poesia. A maioria também tem seu “fecho” com uma citação de outro texto assim. A escolha desses textinhos literários para dar contexto à crônica é quase sempre surpreendente e inspirada, e foi através deles que fui apresentado a dois autores que vim a admirar muito, o escritor e ambientalista do século XIX Henry Thoreau e o poeta Walt Whitman. Aliás, nunca tinha pensado nisso antes de escrever essas linhas, mas a similaridade com a estrutura do meu próprio livro “Os Mastodontes de Barriga Cheia e Outras Histórias” é tão óbvia que alguma influência inconsciente do livro de Kozlovsky certamente aconteceu, pode apostar.
Fora isso, a liberdade de tema e forma das crônicas é absoluta e desconcertante! A maioria são escritas em texto corrido, mas algumas em diálogo (!). Algumas discutem evolução, ecologia, filosofia ou ética; outras são pequenas histórias inspiradoras. Algumas são um pouco mais longas, enquanto outras são curtíssimas, como “Earth contact” (“Contato com a Terra”), uma crônica de uma única frase: “Talvez amanhã chova e possa ficar em casa e ler” Precisa dizer mais alguma coisa? Kozlovsky tem um ponto em sua crítica (e olhe que naquela época ainda não tinham sido inventados os celulares), e consegue fazê-lo com perfeição em uma única frase.
Um dos aspectos do livro que mais me marcou foi a compreensão da nossa origem evolutiva como base para a filosofia das relações homem-natureza. Somos produtos do mesmo e maravilhoso processo evolutivo que deu origem a todos os restantes animais e plantas, na escala espacial de todo o planeta e na escala de tempo de milhões de anos. Nossa relação com os demais seres vivos, portanto, é de parentesco. Isso desmonta qualquer noção de que nós tenhamos propriedade dos outros seres vivos ou de que eles tenham sido feitos para nós. É também a base mais profunda, clara, baseada em evidências e poderosa para desenvolvermos uma relação melhor com os demais seres vivos, e para apreciarmos melhor a beleza da vida e do mundo: “(…) porque a beleza vem de saber quem você é e de onde você veio e como / porque você se tornou o que é, criança da Terra”.
Da mesma forma, Kozlovsky pensa como as descobertas de ecologia acadêmica – na época em espetacular florescimento com Robert MacArthur e seus sucessores – podem guiar nossa maneira de nos relacionarmos melhor com o mundo natural. Num brilhante exemplo, “Body atoms” (“Átomos corporais”), Kozlovsky fala da ciclagem de matéria e energia nos ecossistemas de forma quase poética, para mostrar como nossos destinos estão interligados aos de outros seres: “Quando você come uma banana você come átomos que uma vez foram vegetação tropical, antes disso beija-flor, antes disso néctar em uma flor, antes disso cipó em uma árvore tropical, antes disso defecação de um índio, antes disso sementes de milho, antes disso humus apodrecido no chão da floresta, antes disso macaco, antes disso fruto vermelho brilhante, antes disso orquídea, antes disso… e assim por diante desde que esses átomos foram formados no coração de um sol inimaginavelmente antigo.”
Indo mais fundo que a mera adaptação paliativa
A receita proposta por Kozlovsky para lidar com os problemas ambientais, então, é revolucionária, muito mais que adaptativa. Ela vem de mudanças filosóficas profundas, em linha com a corrente conhecida na época como “deep ecology” – que inspira, conscientemente ou não, muitos dos ecofilósofos atuais. A compreensão de quem nós somos e de nossas relações com os ecossistemas seria a chave para mudanças profundas em nosso comportamento, indo muito além da mera adaptação paliativa: “(…) é difícil, muito difícil mesmo, para um indivíduo mudar seu comportamento e procurar uma ecologia pessoal mais sã e menos destrutiva (isso significa mudar muitas coisas, incluindo o trabalho que você faz, seu jeito de viver e as coisas que você acredita); é ainda mais difícil convencer um grande número de pessoas a considerar as consequências de seu comportamento total e modificar este comportamento de forma a aliviar seus resultados destrutivos”. Num comentário cínico, é bem possível que o radicalismo das ideias de Kozlovsky tenha contribuído para seu esquecimento na época. Mas agora que a situação é muito mais grave do que na época dele – inclusive por causa da mudança climática – essas palavras escritas em 1974 soam mais atuais do que nunca.
Alguém pode dizer – como já me disseram – que o livro do Kozlovsky é “muito anos 70”, fruto daquela época apaixonada, experimental, revolucionária e um tanto ingênua. Pode ser; este espírito certamente está no livro. E claro, muita coisa nova, que não se sabia na época, foi descoberta de lá para cá em evolução e ecologia. Mas os básicos já estão lá e são o suficiente para fornecer uma base científica sólida à ética que ele propõe. E quanto a seu espírito “anos 70”, parafraseando a sabedoria rubro-negra de Fernando Calazans (“se Zico não ganhou uma Copa do Mundo, pior para a Copa do Mundo”), se o mundo de hoje não tem tanto de anos 70, pior para o mundo de hoje.
Como parte desse espírito, eu diria, o livro de Kozlovsky é no mínimo raro por misturar de forma tão natural – e artística – ciência, filosofia, ética e amor pelos bichos, visceral, verdadeiro, que ele não faz nenhuma questão de esconder. Como costumo dizer, esta é a receita que precisamos: conservação começa com amor e precisa de conhecimento. Quero fechar, então, mostrando em sua quase totalidade uma das minhas crônicas favoritas de Kozlovsky, sobre o sentimento que mais faz falta em conservação da biodiversidade, assim como em tantas outras coisas no mundo atual. Aí vai então “Empatia” (em tradução livre, texto um pouco “enxugado” para maior agilidade):
“Meu amigo Mendelson tem um guaxinim de estimação que domina sua casa; ele aterroriza seus gatos, morde seus filhos de brincadeira, come tudo o que encontra, defeca na caixinha de areia e se sente mais seguro (…) no colo de Jon.
É fascinante observar o guaxinim explorando seus arredores. Pois os guaxinins, você sabe, têm uma inteligência surpreendente e uma capacidade de manipulação muito delicada e gentil; observá-lo ao procurar objetos, manuseá-los, tentar entendê-los e brincar com eles é uma lição incrível (…).
Tê-lo exercitando suas gentis manipulações em você, ver o genuíno prazer dele quando você coça suas costas, esses são exercícios da nossa capacidade ilimitada de empatia com os animais.
Uma noite, voltando tarde para casa, ao fazer uma curva fechada na estrada, me deparei com cinco guaxinins jovens do mesmo tamanho que o de Jon – alguns deles bem no meu caminho – desviei bruscamente e não os atropelei por pouco! Quase deixei um lá, um corpo ensanguentado estendido na estrada.
E a perda? Bom, o que é que tem a perda? Centenas de guaxinins são atropelados todos os dias. E então, lentamente, a mente se lembra daquele lindo, fascinante guaxinim de Jon, inteligente, curioso, delicado, amigável, e a mente percebe que todos eles são assim.”
Vá ser brilhante assim lá na minha estante! Amamos nossos pets, mas não percebemos que os outros animais lá fora, os tais “animais selvagens”, também são assim, igualmente fascinantes, igualmente merecedores do nosso afeto e da nossa consideração. Hoje em dia, nenhum sentimento faz tanta falta – e não só na conservação – quanto a empatia. E ela vem de saber quem nós somos e qual nossa relação com todo o resto. Nunca cheguei a saber direito a pessoa que você foi, meu caro Daniel Kozlovzky, mas sua mente fala muito de perto à minha, e acho que este mundo seria um lugar bem melhor se, através desta sua pequena obra-prima, ela falasse às de muito mais gente.
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