Colunas

Por que eu?

Há um desequilíbrio enorme entre os exércitos dos predadores e as forças da preservação. Mas sou evolucionista.

21 de julho de 2004 · 22 anos atrás
  • Sérgio Abranches

    Mestre em Sociologia pela UnB e PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell

Aqueles que me lêem em outras páginas – ou telas – devem estar se perguntando por que inicio uma coluna sobre questões ambientais e ecológicas. Foi o que me perguntei, quando o Marcos Sá Corrêa me propôs criarmos O Eco. Fora estar com o Marcos na redação e nas trilhas da ecologia brasileira e, ainda conquistar, de quebra, a parceira do Kiko, não via muita razão para ser eu a terceira margem dessa aventura. Levei algumas semanas para encontrar uma justificativa pessoal e, várias outras, para achar um provável caminho no colunismo ambiental.

Sou otimista em relação à espécie humana. Mesmo admitindo variações de índole, são as relações sociais, as carências de valores e educação, que produzem os desvios comportamentais mais graves. Há instintos predatórios e de sobrevivência que não são intrinsecamente maus. Podemos nos educar para manter sob controle nosso instinto de predador. Os piores impulsos são adquiridos na convivência social defeituosa.

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Sou evolucionário. Vejo a vida como um processo evolutivo, de fortalecimento das espécies. Sei que esta hipótese tem um componente de competição “darwinista”, que favorece os mais fortes. Hobbes já havia demonstrado, por isso, no seu clássico Leviatã, a necessidade de uma ordem política e legal, democrática, que coíba as manifestações violentas e destrutivas desse darwinismo no plano social. A hipótese evolucionária não supõe avanços sem custo e sem destruição. Há muito trauma, catástrofe e violência na evolução.

Compartilho a visão de Richard Dawkins de que todos os seres vivos são vencedores. Herdam seus genes de ancestrais, que tiveram sucesso biológico e social: escaparam da mortalidade infantil, das doenças infecto-contagiosas, dos ataques de seus inimigos. São, portanto, a elite bem sucedida de cada geração. Mesmo sendo muito desiguais entre si, todos se mostraram aptos a sobreviver às distintas instâncias da vida, que dizimaram a maioria de seus contemporâneos. As espécies avançam para patamares mais elevados de organização, habilidades e autopreservação.

Ao mesmo tempo, porém, se fossemos pura cópia de nossos antepassados, não haveria tanta diversidade. Essa cópia, através das gerações, tem “erros ocasionais mínimos, apenas suficientes para introduzir variedade”, diz Dawkins. Parte desses erros é fatal. Outra parte leva à evolução: permite o surgimento de novas habilidades e capacidades adaptativas. A própria diversidade, nascida desse erro divino, é o principal recurso para a marcha rumo a patamares de maior complexidade e adaptabilidade.

Dawkins, explica a razão do sucesso desses ancestrais vitoriosos na reprodução de suas espécies, dizendo que “para sobreviver, no longo prazo, um gene tem que ser um bom companheiro”. Tem que cooperar com os do mesmo rio genético.

Karl Marx, gênio da mesma espécie intelectual de Darwin, sustentava que o capitalismo seria um extraordinário avanço civilizatório para a humanidade. E que nenhuma ordem social desaparece antes que toda sua força produtiva tenha se desenvolvido completamente. Concluía que a humanidade sempre enfrenta os problemas que pode resolver, porque “o problema em si, só emerge quando as condições materiais para sua solução já existem ou estão em processo de formação”.

A mesma capacidade tecnológica que, hoje, ameaça o macro-ambiente planetário, contém todo o conhecimento necessário para estancar e reverter esse processo autodestrutivo. Uma noção essencial à idéia de sustentabilidade. A humanidade não se impõe um limite autodestrutivo: quando ela cria ameaças à própria sobrevivência da espécie, esse movimento já contém o seu antídoto em formação. As capacidades de destruir e reconstruir, o risco e a prevenção do risco, estão contidos no mesmo movimento. As formas sociais que se esgotam – e o padrão de desenvolvimento que seguimos, até agora, está se exaurindo – já trazem suas sucessoras na bagagem. A ordem em esgotamento foi bem sucedida. A nova tem uma grande probabilidade de sê-lo, também.

Daí minha confiança de que faz sentido se debruçar sobre a questão ecológica. É possível encarar a ameaça ambiental por um prisma positivo e superar o ecoceticismo dominante. Não acredito que a humanidade vá se autodestruir. Ela enfrenta, hoje, um tremendo desafio, e tem, ao mesmo tempo, as condições técnicas, gerenciais e organizacionais para enfrentá-lo e resolvê-lo. É, como alerta Dawkins, um desafio hercúleo, no qual está envolvida a sobrevivência das espécies e do próprio planeta. Só pode ser, portanto, enfrentado coletivamente.

Há um desequilíbrio enorme entre os exércitos dos predadores e as forças da preservação. Existe uma guerra surda de idéias entre duas posições fundamentalistas, radicalmente polarizadas. Uma, “desenvolvimentista”, contrapõe os objetivos de preservação e defesa ambientais ao combate à pobreza e à fome. Falácia poderosa, que tem apelo e fácil trânsito. A outra, “sóciocética”, diz que a sustentabilidade só é possível revertendo a padrões demográficos e sociológicos ambientalmente menos agressivos e que imponham menor demanda sobre os recursos disponíveis da sociedade global. Tese política, econômica e socialmente insustentável.

Nenhuma das duas linhas leva a bom futuro. A polarização radicalizada realimenta falácias e preconceitos de parte a parte e esteriliza a controvérsia. Cria contrariedades, não contradições criativas. Impede que surja uma síntese, reunindo a melhor capacidade intelectual, técnica e científica que a humanidade acumulou, para dar origem a uma nova ordem, sustentável, que permita outro salto civilizatório. União, orgânica entre a preservação do ambiente e o enfrentamento dos hiatos sociais, que persistem como uma nódoa, mais grave e profunda que as chagas ambientais. Ambas desfiguram o processo civilizatório extraordinário, dos primeiros hominídeos até a prole de Einstein. Utopia? Talvez, mas não conheço nenhuma utopia, que não tenha sido evolucionista, que não tenha prometido um futuro de mais e não de menos progresso material e humano.

Há, no momento presente, uma escolha moral a fazer, no campo ambiental. Somar-se ao lado mais fraco é a escolha moral. A causa da recuperação e preservação do ecossistema é uma causa moral de primeira grandeza. Soma-se à outra, que não conseguimos fazer vitoriosa no Século XX, do combate à desigualdade e à pobreza, para constituir o grande desafio do Século XXI.

Existe um impasse a ser vencido, intelectual, cultural, econômico e político em torno da idéia da sustentabilidade. Também não superamos as deficiências de diagnóstico e enfrentamento das causas da pobreza e da desigualdade extrema. Suspeito que as duas avançam melhor juntas, que separadamente, são parte do mesmo desafio e não objetivos antagônicos.

A sustentabilidade não será uma idéia-força viável, enquanto for vista como limitação adicional à redução da pobreza ou ao crescimento econômico. O desenvolvimento sustentável é tecnicamente viável e, mais que isto, é o único padrão factível, capaz de evitar o amadurecimento terminal das contradições entre o progresso e os recursos disponíveis do planeta.

Quem chegou até aqui, percebeu minha inclinação multi e interdisciplinar. É o recurso que posso trazer como contribuição ao debate. Se estiver certo, esta coluna fará algum sentido. Muito do raciocínio acima é objeto de acesa controvérsia. Faz parte. É da controvérsia democrática, que nascem as boas idéias.

Escrevi uma versão um pouco mais elaborada dessa coluna, com tamanho impublicável no espaço de colunas, “Darwinismo ecológico”.

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