Para mostrar o que a Amazônia está perdendo, o fotógrafo Pedro Martinelli nem precisa da fauna ou da flora. Ele não trabalha com índices de desmatamento, listas de espécies em extinção ou “araras coloridas”. Seu assunto é gente. E gente, para suas Leicas, é antes de mais nada o caboclo amazônico, esse brasileiro inimitável que as ONGs e os programas do governo preferem chamar pelo codinome genérico de populações tradicionais.
Caboclo, preto no branco, é outra conversa. Desde que, há uma década e meia, Martinelli trocou o emprego em São Paulo por um barco na Amazônia, o rio e a selva nunca ocuparam o primeiro plano de suas fotografias. São indispensáveis só como cenário.
Epidemias fatais
O chato é que o Brasil está estragando seu pano de fundo muito depressa. Martinelli o conhece de perto há 35 anos. No começo da década de 1970, ele cobriu passo a passo, em início de carreira, os trinta e tantos meses da expedição que tirou os krenhakarore da idade da pedra para a era das epidemias fatais, para abrir caminho à Cuiabá-Santarém, a rodovia da desintegração nacional.
De lá para cá, a cada surto desenvolvimentista na Amazônia, Martinelli estava no front, de máquina fotográfica em punho. Viu a floresta povoar-se rapidamente de chaminés fumegantes, tratores de esteira e meninas ribeirinhas que se vestem na adolescência como vedetes decaídas da televisão. Tudo o que era inimitável ficou mais escasso e difícil, até para ele, que raramente fotografa animais selvagens – pelo menos, vivos.
Nem por isso deixou de flagrar a destruição da Amazônia. Ao contrário, tornou-os mais eloqüentes, fotografando-os em escala humana. E os estragos estão mais nítidos do que nunca em Mata x Gente, o terceiro livro de fotografias que, além de ilustrar, ele mesmo edita, publica e até distribui pessoalmente.
Bahia e Amazônia
Martinelli nunca faz pose de ambientalista. Sabe, desde menino, o que é caçar e pescar para comer. E sua editora se chama Jaraqui, nome ambíguo, tirado de um peixe que, frito, batiza um dos pratos mais típicos da cozinha regional. Sem a figura humana, a selva em suas fotografias não vira sequer paisagem.
É com gente que ele vem medindo em seus livros a degradação vertiginosa da Amazônia. E o sintoma definitivo ele encontra na cara dos caboclos que, nas páginas, fitam a posteridade, o leitor ou o fotógrafo com uma expressão que ultrapassa a altivez, porque dispensa o menor travo de vaidade ou soberba. O olhar dos caboclos de Martinelli é o mesmo que Marcel Gautherot fotogravafa há meio século nas jangadas e saveiros dos cais de Salvador.
Na Bahia como na Amazônia, esse olhar perdeu até os acessórios, como o chapéu de palha e a roupa branco de algodão grosseiro, em que só agora, em retrospectiva, dá para reconhecer um modelo de elegância na pobreza. De boné e bermuda, todo mundo parece que veio de um morro no Rio de Janeiro. Os caboclos de Martinelli são troféus de um Brasil quase atual, mas já perdido.
Eles nos encaram do fundo das páginas com a confiança de quem cercou sua identidade com uma sólida barreira territorial. E a barreira está ruindo. Parecem à vontade diante do fotógrafo peso-pesado, louro, à primeira vista mais exótico num igarapé da Amazônia do que um viking nas praias da Normandia.
São “olhares de anjo da guarda” que, em Mata x Gente, falam da Amazônia que vai ficando para trás rapidamente. Com eles, sem uma linha de retórica ambiental, Martinelli crava um argumento inédito no debate da conservação com o desenvolvimento. Se é em favor desses brasileiros que estamos acabando com a floresta, está na hora de lhes dizer isso olho no olho.
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