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Leão XIV no cenário climático

Ambientalistas dentro e fora da Igreja Católica são otimistas ao observarem a trajetória do cardeal Robert Francis Prevost, frade agostiniano e primeiro sucessor norte-americano de São Pedro

13 de maio de 2025
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

O mundo experimentou respiro otimista com a escolha do novo Papa, Leão XIV, que surge no cenário de esfacelamento do multilateralismo na geopolítica global.  O mundo retrocedeu aos primórdios da conjuntura que marcou o início da Segunda Guerra Mundial. 

Felizmente, o mercantilismo agressivo e oportunista de Donald Trump encontra firme contraposição na encíclica ecológica “Laudato Si”, a grande realização literária e ambiental do Papa Francisco.  

São realidades antagônicas. A casa comum, visão global ecossistêmica e solidária da obra de Francisco, continuará a fazer frente à política unilateral e predadora de Donald Trump.   

Mas isso ocorre em cenário espinhoso. O ex-embaixador Rubens Barbosa afirmou, em live promovida pelo instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), que os retrocessos nas relações multilaterais nos levaram de volta 80 anos. 

De fato, o cenário é de perda de influência dos organismos supranacionais como Nações Unidas (ONU) e Organização Mundial da Saúde (OMS). E é neste contexto que o mundo está conhecendo o Papa Leão XIV. Isso significa forte expectativa sobre seu posicionamento em relação a questões ambientais, como a mudança climática. 

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Os desafios estão também concentrados na falta da paz global, em função de crescentes tendências armamentistas e a continuidade dos conflitos localizados que não contam com ações eficazes do Conselho de Segurança da ONU, cada vez mais fragilizado pelo estado de falência do multilateralismo global.  

Ambientalistas dentro e fora da Igreja Católica são otimistas ao observarem a trajetória do cardeal Robert Francis Prevost, frade agostiniano e primeiro sucessor norte-americano de São Pedro. Os depoimentos dos que o conheceram demonstram sua sensibilidade para com os mais vulneráveis. 

Ronald Moreno, líder de movimento ambiental católico do Peru, acredita no protagonismo ambiental de Leão XIV e afirma: “Sua liderança nos inspirará a continuar trabalhando pela justiça e pelo cuidado de nossa casa comum.” 

Ativistas ambientais católicos aplaudiram a escolha do nome Leão XIV pelo novo Papa, pois isso sinaliza proximidade com a linha desenvolvida por Leão XIII, que lançou as bases para a doutrina social católica moderna com sua encíclica de 1891, Rerum Novarum.

Leão XIII capturou o espírito de transformações de seu tempo. O texto da Rerum Renovarum nunca foi tão atual. Versa sobre inquietude e insegurança gerada pela ganância de poucos e o abandono dos muitos vulneráveis: “Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o gênio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano”.

De forma similar, em Laudato Si, o Papa Francisco afirma: “Esta irmã (a Terra) clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.

No pensamento dos líderes que ocuparam o Vaticano nos últimos 50 anos sempre houve espaço para reflexões sobre os descaminhos ecológicos do planeta, como relata a Laudato Si; com a expectativa pacifista de João XXIII com sua Pacen in Terris; nos pronunciamento de Paulo VI, que declarou que “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação”; na percepção de João Paulo II, ao observar o comportamento humano de “não dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural, para além daqueles que servem somente para os fins de um uso ou consumo imediatos”; tudo isso coroado pelas expectativas de Bento XVI, que afirmou a necessidade de “eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente”.

Em nossos tempos Francisco foi a voz da clareza moral, falando e escrevendo sobre as consequências sociais da influência humana no planeta. Neste mundo de emergência climática e de geopolítica individualizada e oportunista, Leão XIV surge como esperança para a humanidade, em defesa de temas relevantes como imigração e mudanças climáticas.

O cardeal Blase Cupid, de Chicago, afirmou que Leão XIV será uma voz para temas como imigração e meio ambiente, como os papas da idade moderna o fizeram: “Simplesmente porque estamos falando, de muitas maneiras, sobre a sobrevivência da raça humana”.

O que se espera é que, sob a gestão de Leão XIV, a influência e capacidade articuladora da Igreja Católica estejam voltadas para a superação desses tempos difíceis, direcionando para a sustentabilidade os caminhos da humanidade.

Afinal, por mais lúcida que possa ser a voz da razão, não se trata mais apenas de escolha, justiça ou ideologia. Como dizia Charles Darwin, “não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive, mas sim aquele que se adapta”.

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