Uma conversa sobre transporte público é sempre uma conversa poderosa.
Ela pode começar de forma despretensiosa entre trabalhadores e estudantes no ponto de ônibus e chegar até o congresso. Há quase treze anos uma conversa sobre transporte desencadeou protestos que mexeram na política nacional. A discussão sobre mobilidade no país não se iniciou nas manifestações contra o aumento de passagens, mas certamente elas mostraram o quanto essa agenda é cara para os brasileiros, em especial, para os fluminenses que foram às ruas dias e dias durante aquele junho de 2013. Da luta pelos 20 centavos até o debate da tarifa zero, uma conversa sobre preço da passagem sempre termina com a sensação de que essa conta nunca fechou para o passageiro.
Dados da Casa Fluminense apontam que os moradores do Rio chegam a comprometer 10% da renda familiar só com a passagem de ônibus, além disso o modal é o motivo pelo qual o transporte rodoviário de passageiros é há dez anos a categoria do setor de energia que mais emite carbono no estado. Ou seja, o passageiro corre risco na roleta, mas também fora dela. E não tem para onde fugir, apesar do transporte ferroviário e hidroviário emitirem menos que os ônibus, o custo da tarifa, falta de ofertas e o sucateamento afasta os passageiros desses modais. Temos o trem e o metrô mais caros do país e se nada mudar, esse ano vamos continuar vencendo nessa competição de alargar as desigualdades. Um novo aumento está previsto para o trem, metrô e barcas, além disso já está em vigor outra mudança que inflaciona ainda mais a situação: o valor da integração do Bilhete Único também subiu nas últimas semanas de dezembro, passando de R$ 8,55 para R$ 9,40. A conta que nunca fechou corre o risco de ficar negativa para os fluminenses.
A resposta é o triplo zero: zero mortes, zero tarifa, zero emissões
Como revelou a nova edição do relatório De Olho No Transporte, na Região Metropolitana do Rio, os moradores de 19 dos 22 municípios estão em risco aumentado à saúde pela poluição atmosférica, especialmente para pessoas com doenças respiratórias, idosos e crianças. Na corrida pela descarbonização, reduzir a dependência do transporte individual e valorizar o transporte público é premissa. Países como a Índia, por exemplo, entenderam que a implementação de políticas de transporte público gratuito são urgentes e estruturantes no combate à poluição atmosférica. Os anúncios de aumentos de passagens no início de todo ano vão na contramão do que se espera de estados e cidades que querem se tornar a vitrine de um novo futuro possível para o Brasil. Pulamos do ano em que fomos sede da maior conferência de clima do mundo para mais um ano eleitoral, e os discursos de cidades resilientes e verdes já estão ficando para o passado.
Não é abstrato dizer hoje que a tarifa zero pode salvar vidas, tornar as cidades respiráveis novamente e incluir na agenda deste ano o futuro que discutimos na COP 30. Mas ela é uma escolha política. No Brasil já são 170 cidades que adotaram essa política, municípios de diversas regiões com realidades populacionais, econômicas e políticas diferentes entre si. Ano passado, Belo Horizonte poderia ter se tornado a primeira capital a aderir a gratuidade universal, mas apesar da forte movimentação da sociedade civil – de parceiros como NOSSAS – somada ao engajamento da população, no final o contexto político determinou o não acesso a esse que é um direito constitucional.
Ainda está em jogo o posto de primeira capital a aderir à Tarifa Zero, uma disputa que pode ter uma virada de mesa interessante a nível nacional, já que desde o ano passado a pauta tem sido estudada pelo governo e pode ser uma das peças chaves das eleições. A verdade é que não tem mais espaço para adiar essa conversa.
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Leia também
A metrópole que nunca chega: como o deslocamento consome a vida dos fluminenses
Para muitos trabalhadores, as horas gastas dentro de ônibus, trens, barcas, metrô ou vans acabam sendo maiores do que o próprio tempo passado no destino final →
O clima dos dados: desafios de monitorar os territórios
Em um estado tão desigual como o Rio, como as gestões públicas vão elaborar seus planos de adaptação e mitigação sem os critérios de raças, gênero e áreas mais afetadas? →
O transporte público como desafio e caminho para cidades mais justas e limpas
Investir em transporte público bom, gratuito, seguro e limpo é por si só uma política pública eficaz de desincentivo ao carro e diminuição das emissões de gases de efeito estufa →





