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Publicado originalmente por The Revelator
Se você mora nos Estados Unidos, sabe qual é o pássaro “oficial” do seu estado? Caso saiba, é um pássaro que você consegue encontrar facilmente no seu bairro? Se isso mudasse, como isso afetaria sua relação com o lugar onde você vive?
Biólogos e conservacionistas da vida selvagem vêm alertando há anos sobre a forma com que as áreas de ocorrência das espécies devem se deslocar devido às mudanças climáticas. No entanto, pouca atenção tem sido dada a como isso pode prejudicar a relação das pessoas com os ecossistemas que chamamos de lar. Um novo estudo publicado em dezembro na revista Biology Conservation examina essa questão a partir da perspectiva dos pássaros representantes de cada estado nos EUA, e conclui que dezenas de milhões de americanos podem perder a chance de encontrar seus pássaros regionais nas próximas décadas.
O projeto começou como a tese de conclusão de curso da estudante Abby Luna, na Universidade Estadual do Oregon. Enquanto procurava por um tema para sua monografia, ela entrou em contato com Tyler McFadden, professor da OSU (Universidade Estadual de Oregon), seu orientador, e futuro co-autor que buscava alunos interessados em pesquisa com aves. “Eu pensei: ok, pássaros parecem interessantes”, conta Luna.
A sugestão original de McFadden era escolher uma única espécie de ave e analisar se alteraçõesem sua distribuição causadas pelas mudanças climáticas afetaria a capacidade com que pessoas pudessem observá-los na natureza. A pesquisa também se propôs a observar essa questão sob recortes demográficos de raça e etnia dos avistadores. No entanto, a ideia do projeto se ampliou quando Luna leu uma reportagem do New York Times descrevendo oito pássaros estaduais oficiais que poderiam desaparecer completamente de seus estados no futuro.
Luna e McFadden decidiram ir além e analisar o país inteiro – ou quase todo.
O resultado final da investigação examina as dificuldades para os estadunidenses encontrarem seus pássaros regionais em 47 estados [Há 50]. Delaware e Rhode Island não foram incluídos porque seus representantes com penas são raças domésticas de galinha, enquanto o Havaí também ficou de fora porque não havia projeções disponíveis sobre mudanças na distribuição das aves naquele estado.
Luna e McFadden se basearam em estudos anteriores que projetam mudanças na distribuição das aves sob três cenários de aquecimento global: 1,5, 2 e 3 graus Celsius. Eles cruzaram esses dados com informações do censo para calcular quantas pessoas vivem atualmente dentro da área de ocorrência de cada ave e como isso deve mudar no futuro.
Alguns pássaros estaduais – como o cardeal e o sabiá, que juntos representam nada menos que 12 estados – são aves comuns e fáceis de observar pelos parques e quintais em grande parte do país. Outros, como o tico-tico alvinegro(Calamospiza melanocorys) do Colorado, dependem de habitats específicos, muitas vezes afastados dos grandes centros.
A maioria dos estados registrou apenas pequenas mudanças no acesso às aves quando foram analisadas as diferenças entre grupos raciais e étnicos. Mas os números totais contam uma história mais preocupante.
Atualmente, cerca de 86% da população dos Estados Unidos considerada no estudo tem acesso ao seu pássaro estadual. Esse número cai para 79% com o aumento de temperatura para 1 grau de aquecimento, 75% com 2 graus e 71% com 3 graus de aquecimento.
Estima-se que 43 milhões de pessoas perderiam a chance de ver seu pássaro estadual no cenário mais extremo.
Se o planeta atingir 3 graus de aquecimento, claro, teremos problemas muito maiores com que nos preocupar. Mas a perda dos pássaros estaduais é um exemplo fácil de entender como as mudanças climáticas podem influenciar negativamente no cotidiano das pessoas, e na sua capacidade de interagirem com a natureza – algo que pode ter implicações profundas para a forma como pensamos e cuidamos do mundo natural.
Esse é um exemplo do que tem sido chamado de “extinção da experiência” -um termo cunhado pelo naturalista Robert Michael Pyle na década de 1970. Luna e McFadden levantam a possibilidade de um ciclo de retroalimentação onde as pessoas têm menos oportunidades de se envolver e apreciar a natureza ao seu redor, passam a se preocupar menos em agir para preservá-la e protegê-la e, como consequência, acabam tendo ainda menos acesso à natureza.
Os pássaros estaduais são “um ponto de partida muito bom” para refletir sobre essa questão, segundo Brooke Bateman, da National Audubon Society, autora principal do estudo que forneceu os dados utilizados por Luna e McFadden sobre mudanças projetadas na distribuição das aves.
Bateman reconhece que alguns observadores de aves mais experientes torcem o nariz para o conceito de pássaros estaduais, visto que muitos deles são aves comuns de quintal que poderiam ser consideradas “sem graça”. Mas “a maioria das pessoas sabe qual é o pássaro de seu estado, [e] essa é uma ótima maneira de chamar a atenção das pessoas e fazê-las pensar sobre os impactos das mudanças climáticas”, conclui
Luna, que se formou na Universidade Estadual do Oregon em 2024, atualmente trabalha em empregos sazonais relacionados à vida selvagem, enquanto se prepara para cursar um mestrado. Ela espera continuar estudando aves e diz que se mudar pelo país pelo trabalho e os estudos lhe permitiu apreciar ainda mais como as aves e a natureza podem nos conectar aos lugares que chamamos de lar.
“Às vezes acho que você só percebe isso quando você vai embora”, diz Luna. Mas “se todo o catálogo de espécies [do lugar onde você vive] vai mudar por causa das mudanças climáticas, o que isso significa para o seu senso de pertencimento, para sua identidade ligada ao lugar onde você vive e à natureza que o cerca?”
*Esse texto foi originalmente publicado em inglês. A tradução foi feita com o auxílio de Inteligência Artificial, com revisão final do jornalista Vinícius Nunes.
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