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Respostas locais reduzirão riscos diante da emergência climática

Soluções baseadas na natureza, inteligência de dados e cooperação ajudam a proteger populações e a fortalecer territórios vulneráveis

Aldem Bourscheit ·
11 de dezembro de 2025

As repetidas enchentes ou a água que falta, as pessoas forçadas a se deslocar e as maiores perdas humanas e materiais são sinais claros do agravamento da crise climática. Esse cenário exige medidas rápidas e efetivas, ainda melhores se usarem ferramentas da própria natureza como aliadas. 

“É um desafio que exige medidas de adaptação desde já”, afirma André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário. “O clima já mudou e seguirá mudando, e cada região precisa ser preparada para essa nova realidade”, ressalta.




É nesse contexto que o movimento Viva Água reúne empresas, governos, organizações civis, universidades e comunidades locais para recuperar e conservar ecossistemas, reorganizar o uso dos territórios e apoiar negócios de impacto positivo, sempre a partir de soluções baseadas na natureza.

Depois de experiências na bacia do rio Miringuava (Paraná) e na Baía de Guanabara (Rio de Janeiro), a iniciativa ruma para o Sistema Cantareira (São Paulo) e às bacias dos rios Joanes e Jacuípe (Bahia). Com a expansão, serão alcançadas cerca de 15 milhões de pessoas.

Trecho do Rio Jacuípe em Feira de Santana (BA). Foto: Prefeitura de Feira de Santana/Divulgação

Na prática, o projeto restaura matas ciliares, conserva nascentes, promove o manejo sustentável do solo, incentiva uma agricultura de baixo impacto e estimula negócios que dependem de rios limpos e áreas naturais conservadas, como o turismo de natureza e a pesca artesanal.

“Nosso foco são as soluções baseadas na natureza, sobre como a natureza e os serviços ecossistêmicos podem ajudar a endereçar os principais desafios da sociedade”, reforça Ferretti.

Além dessas ações diretas em campo, a plataforma Natureza On foi desenvolvida pelo MapBiomas em parceria com a Fundação Grupo Boticário – com infraestrutura do Google Cloud – para apontar a vulnerabilidade de regiões nacionais a enchentes, deslizamentos e secas.

A ferramenta também sugere soluções para cada área, como plantar árvores e criar parques lineares, renaturalizar rios e sistemas de drenagem. Isso tudo amplia as áreas verdes e a qualidade de vida, ao mesmo tempo em que ajuda a conter enchentes, ondas de calor e perdas econômicas.

“Isso é fundamental para transformar a agenda climática em políticas públicas e investimentos concretos, por meio da cooperação entre diferentes setores, ampliando o financiamento e direcionando a governança”, detalhou Ferretti.

A seca avança pelo semiárido baiano. Foto: Diego Baravelli / Creative Commons

Mas os impactos da crise climática não se limitam à degradação ambiental ou à perda de infraestrutura, já interferem também na vida de milhões de pessoas que precisam deixar suas casas por causa de enchentes, secas prolongadas ou calor extremo. 

No plano internacional, a Agência das Nações Unidas para as Migrações (OIM) tem chamado atenção para esse efeito muitas vezes desprezado: o aumento dos deslocamentos humanos provocados pela crise climática – seja dentro ou entre países.

A estratégia global da entidade prevê investimentos para reduzir riscos de desastres e fortalecer estratégias de adaptação local, reconhecendo o papel das mudanças no uso do solo – como pelo agronegócio e urbanização –, da degradação de ecossistemas e do reforço de eventos extremos na mobilidade das pessoas.

Nessa agenda, soluções baseadas na natureza ajudam a restaurar manguezais que protegem comunidades costeiras, recuperar a vegetação em encostas sujeitas a deslizamentos, recompor matas ciliares em áreas afeitas a enchentes e garantir água em regiões alvo de secas prolongada – protegendo pessoas e ecossistemas.

Isso é promovido pela aproximação da OIM com o Boticário em debates como o da reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes do ano passado, numa combinação entre restauração de rios, encostas e áreas verdes e proteção de moradores que perderam casas, renda e referências.

A aposta maior é a de que cada obra de recuperação também reduza a chance de novos desastres e de deslocamentos forçados, em vez de repetir os padrões que já se mostraram vulneráveis diante da crise climática, onde comumente as pessoas retornam aos locais afetados ou a situações de risco.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

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