O Brasil cuida mal do meio ambiente, e precisa acordar logo. O país pode ser invadido por outras nações por causa de seus recursos naturais. E não adianta esperar que as ongs ambientalistas mudem esse quadro. Elas não são confiáveis.
Quem diz isso não sou eu. É o povo brasileiro. Uma pesquisa inédita realizada pelo Ibope em abril e divulgada nesta quinta-feira, dia 5, traz dados surpreendentes sobre as percepções da população a respeito do meio ambiente, do ambientalismo e do tráfico de animais silvestres. A pesquisa, encomendada pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), é a mais completa já realizada no país sobre o tema, e se aproxima o máximo possível do conjunto da população, com uma margem de erro de apenas 2,2 pontos para mais ou para menos.
É alto o grau de consciência sobre a ineficácia da conservação ambiental: 71% dos entrevistados disseram que “O Brasil é um país que não respeita o meio ambiente”. Como era de se esperar, destacam-se nesse grupo as pessoas com maior acesso à informação: os mais jovens, mais instruídos, com maior poder aquisitivo e moradores da região Sudeste.
Segundo a pesquisa, as ongs que atuam na área ambiental são pouco ou nada confiáveis para a maioria dos brasileiros (57%). A descrença é maior nas regiões Norte e Centro-Oeste e nas periferias das grandes cidades.
A constatação do abandono a que se relega o meio ambiente, aliada à desconfiança em relação a quem trabalha para defendê-lo, talvez explique a opinião mais contundente expressa pela pesquisa: 75% dos brasileiros acham que o país corre o risco de ser invadido porque não sabe gerir suas riquezas naturais por conta própria. O deputado José Sarney Filho, ex-ministro do Meio Ambiente, estava no evento de lançamento da pesquisa e disse que a idéia não é um mito: “Para mim existe um risco”.
Outro fator considerado foi a disposição das pessoas em contribuir para a preservação ambiental. A julgar pelos dados obtidos pelo Ibope, a associação de empresas com causas ambientais é um bom negócio. A maioria dos entrevistados (63%) disse que pagaria mais caro por um produto, se parte do valor arrecadado fosse destinado a projetos de proteção da natureza. E a disposição não se restringe às classes mais favorecidas. No grupo com renda familiar de até 1 salário mínimo, 55% dos entrevistados teriam essa atitude.
Sobre o tráfico interno de animais silvestres, 70% das pessoas afirmaram que nunca tiveram um bicho desses em casa. O número parece animador, mas é uma armadilha. “Os 30% que afirmaram já terem tido alguma espécie representam 64 milhões de brasileiros potenciais criadores de animais silvestres em cativeiro. É um número alarmante”, disse Denner Giovannini, coordenador geral da Renctas.
E não é por falta de informação. A pesquisa apontou que 84% dos entrevistados, de todas as classes sociais e graus de instrução, sabem que comprar, vender e manter animal silvestre em cativeiro é crime. Entre os entrevistados da região Nordeste, 39% têm ou já tiveram animais silvestres em casa. A maioria passarinhos. “Gaiolas são uma instituição cultural no Nordeste”, disse Denner. No Centro-Oeste o animal mais citado foi o papagaio.
O deputado Mendes Thame (PSDB-SP), presidente da CPI da Biopirataria, aproveitou o ensejo dos dados e disse que a apatia na fiscalização contra o tráfico de animais no Brasil transformou o país em um doador de matéria-prima natural para fora, sem participação nos lucros das patentes. “Nós perdemos entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de dólares por ano nessa falha, mas estamos correndo para modificar isso”.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Mineração em alto mar mostra novos desafios na preservação da biodiversidade
Embora a lei traga segurança jurídica, o desafio técnico será minerar a quilômetros de profundidade sem destruir habitats inexplorados →
Lei que proíbe pesca em Mato Grosso não tem base científica, diz WWF-Brasil
Em nota técnica, ong afirma que estudos que sustentam criação da lei não demonstram que há sobrepesca e que principais impactos são barragens e expansão hidroviária →
Poluição por plásticos: esforços por um tratado global e o Brasil
É necessário que, ao desenvolver o seu Mapa do Caminho com vistas à redução da dependência de combustíveis fósseis, o Brasil inclua a redução da produção de plástico →

