Salada Verde

Espécies recém-descobertas de peixes estão em perigo

Descobertos no Cerrado, os killifishes estão ameaçados de extinção por desconhecimento da população e negligência em estudos de licenciamento ambiental

Sabrina Rodrigues ·
25 de junho de 2018 · 8 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente
Extensão do projeto iniciado nos pampas realizou estudos também no Cerrado brasileiro. Foto: Matheus Volcan.

Durante doze dias intensos de trabalho desbravando o Cerrado, os pesquisadores do Instituto Pró-Pampa (IPPampa) descobriram três novas espécies de peixes, os killifishes. A expedição de coleta abrangeu a porção leste drenada pela bacia do Rio Paraná, no Mato Grosso do Sul. O feito foi reconhecido pela comunidade científica por meio de um artigo publicado pelo periódico Zoosystematics and Evolution, com o título Unrecognized biodiversity in a world’s hotspot: three new species of Melanorivulus (Cyprinodontiformes: Rivulidae) from tributaries of the right bank of the Rio Paraná basin, Brazilian Cerrado (“Biodiversidade não-reconhecida em um dos hotspots do mundo: três novas espécies de Melanorivulus (Cyprinodontiformes: Rivulidae) dos afluentes da margem direita da Bacia do rio Paraná, Cerrado Brasileiro”, em tradução livre). Entretanto, recém-descobertos, os peixes já se encontram ameaçados de extinção.

As espécies de killifishes encontradas são endêmicas da região e pouco conhecidas pelas pessoas. Por seu tamanho reduzido – cerca de 3 centímetros – e pelos locais onde vivem e se desenvolvem, esses peixes muitas vezes não são notados pela população e são muitas vezes desconsiderados ou negligenciados em estudos de licenciamento ambiental – fator que contribui para o desaparecimento das espécies.




“O desconhecimento da sociedade, e principalmente dos gestores ambientais órgãos ambientais, é um dos grandes fatores que causam a perda e degradação do ambiente onde as espécies habitam. A construção de um açude ou até mesmo de uma estrada em uma área de ocorrência da espécie pode eliminá-la totalmente e levá-la à extinção”, alerta o pesquisador Matheus Volcan, responsável técnico do projeto.

Diferente das espécies de killifishes descobertas nos campos sulinos, que possuem ciclo de vida anual e que habitam exclusivamente ambientes aquáticos sazonais, que passam por períodos de seca, os peixes descobertos no Cerrado são conhecidos como killifishes de ciclo de vida não anual. Isso porque, esses peixes são encontrados em ambientes aquáticos permanentes – conhecidos como veredas – e se desenvolvem em pequenas nascentes que drenam as áreas de campo.

O killifish é um pequeno peixe, cujo tamanho varia de 2,5 a 5 cm e tem como habitat riachos, poças e igarapés. O seu nome vem do holandês, onde killi significa riacho, ou seja, peixes de riacho. No Brasil, as poucas pessoas que avistam o peixe o chamam de peixe das nuvens ou peixe das chuvas.

 

Saiba Mais

Link para o artigo: Unrecognized biodiversity in a world’s hotspot: three new species of Melanorivulus (Cyprinodontiformes: Rivulidae) from tributaries of the right bank of the Rio Paraná basin, Brazilian Cerrado

 

Novas espécies foram encontradas na região do Mato Grosso do Sul. Foto: Matheus Volcan.

 

Killifishes de ciclo de vida não anual medem cerca de 3 cm. Foto: Matheus Volcan.

 

Espécies são encontradas em ambientes aquáticos permanentes – conhecidos como veredas. Foto: Matheus Volcan.

 

  • Sabrina Rodrigues

    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Clima à Mesa _ Ilustração Matéria 3
Reportagens
19 de março de 2026

O gosto da transição

Oficialmente nos planos para o processo de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, a transição agroecológica propõe novos paradigmas que articulam conservação ambiental e justiça social

Salada Verde
19 de março de 2026

Fundação Grupo Boticário lança edital de bolsa-reportagem sobre oceanos

Iniciativa é inclui cooperação com a UNESCO; projetos são voltados para reportagens sobre adaptação climática em cidades costeiras

Notícias
18 de março de 2026

Manifestação pressiona Paes a criar novas áreas protegidas no Rio antes de saída da prefeitura

Projeto de decreto que cria Corredor Azul, com quatro novas unidades de conservação que conectam os parques da Pedra Branca e da Tijuca aguarda assinatura do Executivo municipal

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Comentários 3

  1. Joelmir diz:

    Aqui em goias temos dessa especie tbm. Caçu go


  2. PragmáticoAmbiental diz:

    Os rivulídeos apresentam naturalmente especies de distribuição restrita. É inerente à evolução do grupo. Se pesquisarem direito, vai ter um rivulídeo endêmico de cada microbacia. Isso já basta pra dar um baita "nó" nos licenciamentos ambientais, nas normas vigentes.


    1. Renato diz:

      É que quando fazem as leis de espécies ameaçadas, sempre pensam em coisas do tipo mico-leão e onça-pintada, não nesses bichos menores e endêmicos. Na real, se identificarem todas as espécies de rivulídeos do Brasil, pela legislação atual não se constroi mais uma barraca de pastel!