Fevereiro inaugura a temporada da água-roxa. Todo ano, pouco depois do Carnaval, as águas verdes e escuras do litoral são empurradas pelas correntes vindas do quadrante sul, dando lugar às águas oceânicas tropicais. Com elas vêm os grandes cardumes, que são facilmente localizados do alto dos mirantes e das coberturas dos prédios que não perderam a vista para o mar. Este fenômeno é abrangente nos litorais do Sudeste e do Nordeste, e bem visível em alto mar.
Começada a época de calmarias, a brisa fraca de sul oscila e troca de posição com a também suave brisa de leste. A água, segundo a expressão de pescador, fica “bêba”. Anda de um lado, anda de outro, mas não vai pra canto nenhum.
Com o espelho d’água sem ondulação e sem vaga de vento percebe-se melhor o movimento dos cardumes próximos à superfície. As aves marinhas, eficientes caçadoras, lançam-se do alto em mergulhos certeiros.
Quem primeiro cunhou a expressão água-roxa foram os caçadores submarinos. Anualmente, esperam desejosos e ansiosos por sua chegada. Porque ela é uma água limpa, fecunda, morna (de até 27°C) e de um tom azulado que, nas áreas mais profundas de nossas ilhas, beira a cor púrpura. No meio da caça, por permitir que se use traje de proteção mais fino e leve, é tida como a água da boa pescaria e também a que exige menos do mergulhador, pois torna mais fácil sua permanência na água. Praticamente, o dia todo.
Ela é a encorajadora dos que querem mergulhar mais fundo. Infelizmente, é também a responsável pelo maior número de acidentes com mergulho livre, de apnéia. Não é à toa que é também conhecida como a água azul – caixão.
Para os que conhecem a expressão, sabem que a origem do nome vem do fenômeno da refração da luz na água. Ao provocar esse efeito visual, dá a falsa impressão de que tudo se encontra 33% mais perto. O mergulhador, sentindo-se seguro, desce em direção ao fundo. Desce tanto que, ao iniciar a subida, percebe que foi fundo demais e que tem um longo e demorado caminho de volta. A maioria passa sufoco, mas chega respirando os últimos centímetros cúbicos de ar do interior da máscara.
É a água que, ano a ano, devido às mudanças das correntes marinhas, torna-se menos freqüente nos litorais. O seu poder renovador perde força com a sujeira derramada pelos rios e com o aumento do volume das águas frias provenientes do degelo do sul do Atlântico Sul.
As águas claras, quentes e calmas estão perdendo lugar para as águas frias, turvas e bravias. Fotografar no mar e debaixo d’água está se tornando uma atividade de período curto. Pena. Há muita coisa por fazer. Neste sentido, um belo oceanário nesta cidade seria uma lembrança viva e permanente do que há diante de nós. Um bom estímulo para que não percamos a esperança de voltar um dia a ter de volta água, senão roxa, pelo menos azul.
*Carlos Secchin é fotógrafo, mergulhador, autor de livros sobre reservas e parques marinhos do Brasil.
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O efeito da refração da água não necessariamente se encontra durante esse evento de maré roxa. A corrente do Brasil alinha a marés e efeito de mudanças de vento podem ocasionar essa acontecimento.