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MPF pressiona por ordenamento em área esquecida do Parque Nacional da Tijuca

Sem ações de fiscalização há pelo menos uma década, Morro Cardoso Fontes sofre com práticas irregulares de grupos religiosos, desmatamentos e queimadas

Duda Menegassi ·
9 de fevereiro de 2026
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Uma parte esquecida do parque nacional mais visitado do país, o Morro Cardoso Fontes, no Rio de Janeiro, é o alvo de uma ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF) que visa o ordenamento do local, palco frequente de práticas irregulares. Localizado no setor D do Parque Nacional da Tijuca (RJ), o único sem visitação ordenada, o morro é utilizado há anos por grupos religiosos, sem nenhum tipo de ação de controle ambiental há pelo menos uma década. O MPF constatou queimadas, aberturas de trilhas sem autorização, avanço do desmatamento e até moradias, com acampamentos fixos no local. A ação busca corrigir as falhas de gestão e fiscalização no local. 

O morro faz parte da Serra dos Pretos Forros – como é chamado o setor D do parque – e representa uma parte estratégica da conexão da Mata Atlântica entre os maciços florestais da Tijuca, na zona norte, e da Pedra Branca, já na zona oeste da cidade. Além do parque nacional, gerido pelo ICMBio, o local é sobreposto ainda pela Área de Preservação Ambiental (APA) Municipal da Serra dos Pretos Forros, administrada pela Secretaria Municipal do Ambiente e Clima (SMAC). 

O objetivo do MPF é reestruturar a atuação dos órgãos ambientais federal e municipal para regular o uso religioso do local. “A pretensão da ação não é impedir o uso religioso do espaço, mas sim a regularização da sua utilização”, destaca o procurador da República, Antonio do Passo Cabral, autor da ação. 

Conforme apurado pelo MPF, no local há ainda clareiras abertas, barracas montadas permanentemente e árvores marcadas com símbolos religiosos, além de imóveis de alvenaria abandonados pelo órgão ambiental que foram invadidos e adaptados para o uso irregular.

A ação pede à Justiça que determine medidas imediatas para contenção dos danos e organização do território. Os pedidos incluem a realização de uma vistoria conjunta, um mutirão de limpeza, instalação de sinalização e interdição do imóvel do ICMBio ocupado irregularmente dentro do prazo de 30 dias. E, que em até 90 dias, os órgãos federal e municipal apresentam um plano de reestruturação, com isolamento das áreas ambientalmente mais sensíveis e medidas compatíveis com a Política Nacional para a População em Situação de Rua.

Em nota, o ICMBio esclarece que o uso do Monte Cardoso por fiéis e os impactos decorrentes da atividade são anteriores à incorporação da área ao Parque Nacional da Tijuca”, que ocorreu em 2004. “Trata-se de um passivo histórico que vem sendo enfrentado pela atual administração”.

O texto explica ainda que gestões passadas demonstraram que a aplicação de multas de forma isolada não pacificava conflitos e em 2023 foi retomado o diálogo com os frequentadores do espaço para estabelecer um acordo de boas práticas, processo realizado junto à SMAC. O documento foi oficializado há um ano, em fevereiro de 2025, e segundo o órgão ambiental já está em fase de implementação.

De acordo com o ICMBio, já foram realizados mutirões de limpeza e estão previstas ações de reflorestamento com a participação dos fiéis e a instalação de sinalização informativa e educativa, além de prometer a atuação diária de agentes ambientais no local. A autarquia planeja ainda uma operação conjunta com a Prefeitura do Rio para a retirada de pessoas indevidamente acampadas no local.

((o))eco procurou também a Secretaria Municipal de Ambiente e Clima (SMAC), mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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