Entre junho e novembro, todos os anos, turistas que visitam o litoral de Santa Catarina presenciam um espetáculo de baleias-francas-austrais (Eubalaena australis), que chegam para dar à luz, alimentar e proteger seus filhotes antes de retornarem à Antártida. Em 2025, as primeiras baleias começaram a chegar ainda em maio.
O crescimento populacional do cetáceo, aliado a projetos de conservação, tem fomentado a economia do turismo de observação da baleia-franca em território catarinense. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em 2024, 8,7 milhões de pessoas visitaram a Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia-franca, que se estende por nove municípios, desde o sul da ilha de Florianópolis até Balneário Rincão, e abrange uma área de 150 mil hectares e 130 km de costa marítima. É a Unidade de Conservação (UC) mais visitada no Brasil, o que pode ajudar a impulsionar atividades relacionadas ao animal que dá nome à UC.
Como a vinda das baleias acontece no inverno, o turismo de observação beneficia toda a cadeia de serviços da região em uma época cuja demanda seria bem menor. Restaurantes, hospedarias, guias de turismo e o comércio em geral atendem turistas brasileiros e estrangeiros.

A Praia do Siriú, em Garopaba, é um dos lugares privilegiados em que é possível avistar baleias a partir da areia, a uma distância de menos de 30 metros. Filippi Andrade, dono de um camping próximo, estima que chega a 30% o percentual de clientes que, entre julho e outubro, escolhem se hospedar ali pela possibilidade de observar as gigantes do mar.
“A presença das baleias é muito importante, pois ela atrai pessoas que buscam contato com a natureza e experiências autênticas. Como nosso camping está próximo da praia e de trilhas naturais, os hóspedes conseguem ter uma experiência muito especial, observando as baleias diretamente da costa ou durante caminhadas pela região”, afirma Filippi.
De fato, a baleia-franca é um animal costeiro em seu período reprodutivo, o que facilita a visualização a partir de terra firme. Nas semanas de pico, que acontecem geralmente em setembro, consegue-se avistar até 40 baleias numa única praia, em um dia. Os saltos dos filhotes (alguns deles semi-albinos), os borrifos em forma de “v” e a exposição da cauda da mãe em mergulhos profundos estão entre os comportamentos mais festejados por quem as assiste.
Para que a temporada de observação não provoque estresse às baleias, diversas entidades atuam em projetos de formação e educação ambiental. O Instituto Australis, por exemplo, com sede na Praia de Itapirubá Norte, em Imbituba, oferece cursos de capacitação para condutores e visitas guiadas para turistas, escolas e universidades em seu centro de visitantes.
Karina Groch, bióloga e diretora de Pesquisa do Instituto Australis, afirma que é feito um trabalho de sensibilização com o público para que normas de avistagem sejam respeitadas, seguindo a legislação vigente, e o ecossistema da APA da Baleia Franca continue protegido.

“Nosso desafio é garantir que esse ambiente tenha uma boa qualidade para que a baleia-franca continue voltando para cá. Então temos a sorte de ter essa espécie voltando e usá-la como um guarda-chuva, porque quando chamamos a atenção para ela, mostramos a relação com o filhote e todo seu carisma, ajudamos a proteger todo o ecossistema”, ela defende.
Em Garopaba, a Rede TobTerra trabalha na formação de condutores ambientais e guias locais, aliando o turismo de observação da baleia-franca à valorização da cultura das comunidades tradicionais. A rede foi criada em 2015 com o objetivo de incentivar o turismo de observação por terra — o turismo de observação embarcado foi proibido na APA em 2012, por decisão judicial, por conta dos riscos às baleias e ausência de estudos sobre os impactos da atividade.
Diversos eventos produzidos pela comunidade local ajudam a colocar a baleia-franca no centro das atenções. Um deles é a Celebração de Boas-Vindas às Baleias Francas, em Garopaba, que chegou à décima edição em 2025.
Há também o Sunset da Baleia, inspirado em um episódio dramático, mas que teve um final feliz: em 2003, uma baleia jovem encalhou na lagoa Santa Marta, em Laguna, exigindo enorme mobilização para salvá-la. Em 31 de julho de 2017, o animal retornou à costa catarinense, acompanhado de um filhote. Por sugestão de Karina Groch, ganhou o nome Sunset.
“Nossa felicidade foi tão grande com o retorno dela que a gente decidiu fazer um evento. Em 2018, propus ao Ministério do Meio Ambiente a criação do Dia Nacional da Baleia-Franca em 31 de julho para comemorar, por meio do retorno da Sunset, o retorno de todas as baleias-francas ao nosso litoral”, explica Karina.

Santa Catarina agora é Área Patrimônio de Baleias
Todo esse envolvimento da população local conferiu ao berçário de baleias em Santa Catarina o selo de Área Patrimônio de Baleias pela Aliança Mundial pelos Cetáceos (WCA, da sigla em inglês). O anúncio foi feito em dezembro de 2025, após cinco anos de articulação com entidades locais e análise dos pré-requisitos. É a primeira vez que uma localidade no Brasil ganha tal certificação, se juntando a outros 11 destinos no mundo, como Madeira, em Portugal, Hervey Bay, na Austrália, e Golfo Dulce, na Costa Rica.
Julia Trevisan, coordenadora de campanhas de vida silvestre da Proteção Mundial Animal, organização parceira da WCA, participou do processo. A bióloga explica que diversos critérios precisam ser atendidos para que um lugar se torne Área Patrimônio de Baleias, como a garantia de observação da vida selvagem de forma responsável; a existência de um vínculo cultural forte da comunidade com a natureza; a coexistência respeitosa com a fauna; a criação de um conselho diretivo para monitorar e tomar decisões; e a elaboração de um plano de manejo próprio, que inclua atividades de educação ambiental e metas para ampliar o envolvimento da comunidade.
“A ideia é valorizar quem está fazendo as coisas certas. Há muita crítica aos modelos que estão falhando com o meio ambiente e a impressão que dá, vendo o noticiário, é de que não existe solução”, diz Julia. “Então a ideia é mostrar soluções e ser inspiração para outros destinos, para as pessoas entenderem que é possível proteger e gerar renda para a comunidade desses lugares”.
Outra vantagem, de acordo com Julia, é a visibilidade internacional que o selo gera, o que ajuda a expandir o mercado turístico brasileiro.

A educadora ambiental Simone Poletto é uma das maiores defensoras do selo, tendo participado da campanha desde o início pela Associação Amigos do Meio Ambiente e pela Rede TobTerra. Ela explica que toda a extensão compreendida pelo Área Patrimônio de Baleias, de Laguna ao sul de Florianópolis (trecho da APA onde se concentra o berçário), é um grande território com identidades culturais próximas, que se conectam ao turismo de base comunitária.
“Um dos critérios do selo é que a comunidade de certa forma já viva, sinta e festeje a baleia, e nós já festejávamos. Também trabalhamos com turismo de base comunitária, ou seja, temos contato com as identidades culturais daqui, que fazem parte dos roteiros e dos projetos de educação. Então muita coisa nos ajudou para a candidatura”, lembra Simone, que acaba de inaugurar, com uma amiga, a Casa da Baleia no centro histórico de Garopaba. O lugar vai oferecer uma experiência imersiva que transporte o público para o fundo do mar, utilizando realidade virtual.
Expansão urbana e especulação imobiliária ameaçam a baleia-franca
A existência de uma rede de proteção à baleia-franca por parte da população local ajuda a diminuir as cicatrizes do passado, em que o cetáceo foi caçado até quase a extinção. Por acumular até 40 centímetros de gordura sob a pele, a baleia-franca foi alvo, durante séculos, para a produção de óleo para iluminação pública. Entre 1973 e meados da década de 1980, não há registros da espécie na costa brasileira.
Quando a baleia-franca-austral retornou às águas do sul do Brasil, nos dando uma segunda chance, um amplo trabalho de pesquisa e monitoramento começou a ser desenvolvido. Dados do Instituto Australis apontam que a população da Eubalaena australis está estimada em cerca de 800 indivíduos, com uma taxa de crescimento anual de 4,8% (considerando uma série histórica de 20 anos, até 2024). A notícia é boa, mas a espécie ainda é classificada como ameaçada de extinção.
Hoje, os riscos à baleia-franca e outras espécies da fauna e da flora são outros. No ano passado, a deputada federal Geovania de Sá (PSDB-SC) apresentou o Projeto de Lei 849/2025, que propõe a exclusão de toda parte terrestre da APA. Atualmente, o PL tramita na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados.
Para Stéphano Diniz Ridolfi, analista ambiental e chefe da APA da Baleia Franca, “o projeto de Lei 849/2025 configura um grande retrocesso socioambiental, não somente pela recuperação da espécie baleia-franca-austral nos últimos anos, mas também por descartar a relevância de uma área protegida que há 25 anos vem cumprindo uma política do estado brasileiro na proteção e recuperação dos biomas marinho-costeiro e da Mata Atlântica”.


Segundo o ICMBio, a APA da Baleia Franca vem sofrendo com a especulação imobiliária e a expansão urbana do litoral, o que impõe ao órgão o desafio de fazer o controle da ocupação irregular do solo.
Diante desses problemas, Stéphano viu com alegria o berçário da baleia-franca ter adquirido o selo da WCA. “Quanto mais camadas de proteção ambiental, melhor”, diz. “O ICMBio não atuou diretamente na articulação, mas foi consultado e informado durante o processo, e sempre apoiou”.
Para Karina Groch, do Instituto Australis, o comprometimento da qualidade do ambiente é hoje a pior ameaça à baleia-franca.
“Um aporte de poluentes nesse ambiente, que pode ser constante, compromete totalmente a qualidade de uma área grande e isso traz repercussões negativas para a espécie”, afirma a bióloga. Ela diz que pode ser mais difícil de as baleias-francas retornarem em grande número para a Região Sudeste, antiga área de ocorrência do mamífero, justamente em razão da má qualidade daquele habitat.
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