A retirada de 25 macacos-prego remanescentes nos recintos em Xanxerê, Santa Catarina, onde por anos foram controlados com jatos de água e mantidos em recintos inadequados para serem vendidos, marca o fim de uma longa disputa na justiça para encerrar o último criadouro comercial de macacos do Brasil. Um 26º macaco que constava no plantel do estabelecimento foi declarado morto pelo proprietário. A ação do Ibama, realizada no início de abril, concluiu o resgate dos animais mantidos no local, que operou por mais de uma década sem o devido licenciamento, graças a uma liminar judicial.
Apesar do nome, o criadouro “Aves do Paraíso” fez fama junto ao seu proprietário, Vilson Carlos Zarembski, pela comercialização de primatas. O estabelecimento começou como criadouro conservacionista na década de 90 e, no início dos anos 2000, solicitou a mudança para finalidade comercial.
Na medida em que as regras mudaram, aumentando a proteção aos animais silvestres, aprimorando as regras mínimas do manejo em cativeiro e inviabilizando a comercialização de primatas devido aos riscos sanitários de transmissão de doenças, o processo de Vilson parou no radar do Ibama. O criadouro não possuía licenciamento e ele se recusou a adequar seu empreendimento às novas normas.
Mesmo sem o licenciamento, Vilson buscou na justiça uma liminar para driblar as novas regras ambientais e sanitárias. Concedida em 2013, a decisão judicial provisória permitiu que ele continuasse com a venda de primatas como animais de estimação nos seus próprios termos por pouco mais de uma década – sendo o único no Brasil com essa chancela legal.
Entre 2013 e 2024, quando a liminar foi enfim derrubada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o estabelecimento declarou a venda de 240 primatas, sendo 86 macacos-prego e 154 saguis, com valores que ultrapassavam R$ 100 mil por animal, conforme dados divulgados pelo Ibama.

Esgotados os recursos cabíveis no processo judicial, em 2025 o Ibama começou a operação de retirada dos animais do criadouro, concluída em abril deste ano com o resgate dos últimos macacos-prego (Sapajus spp.).
Ao todo, eram mantidos 67 primatas no empreendimento, sendo 36 macacos-prego, 10 filhotes, 26 adultos e três idosos, além de saguis-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), saguis-de-tufo-preto (Callithrix penicillata) e híbridos das espécies. Entre 2025 e 26, um dos prego adultos veio a óbito, conforme declaração do próprio Vilson.
“O encerramento desse estabelecimento, que operava sem o devido licenciamento ambiental, amparado apenas por decisão judicial posteriormente revogada, representa uma importante vitória para a proteção das espécies do gênero Sapajus no Brasil, algumas das quais ameaçadas de extinção”, destaca o superintendente do Ibama em Santa Catarina, Paulo Maués. Os animais foram destinados para diferentes Cetas e centros de reabilitação.
O fim do criadouro, que por décadas foi o único legalmente autorizado a vender macacos-prego como animais de estimação, foi comemorado por primatólogos que afirmam que macacos não são pets e que a prática representa inúmeros prejuízos aos animais, além de riscos de doenças aos próprios humanos.
“É um animal social, vive em grupo. Do ponto de vista do bem-estar dele, é indispensável que ele tenha esse tipo de relação. Não faz sentido ser um pet. Humanos não são o bando dele. E quando ele está num ambiente humano, ele não é um macaco”, reforça Vanessa Moraes Nunes, gerente de Biodiversidade e Florestas do Instituto de Meio Ambiente (IMA) de Santa Catarina, que deu apoio logístico à operação do Ibama. “E os macacos, especialmente nessas condições de estresse, podem ficar agressivos e ser um risco não só à saúde, mas à segurança das pessoas”, acrescenta.
O Ibama investiga ainda a possível emissão de notas fiscais esquentadas pelo empreendimento para o tráfico ilegal de macacos, conta um fiscal do órgão ambiental, não identificado por questões de segurança. Em conversa com a reportagem de ((o))eco sobre o caso, ele conta que existem centenas de primatas em cativeiro com documentos em nome do criadouro catarinense que não foram gerados legalmente pelo Sistema Nacional de Gestão de Fauna Silvestre (Sisfauna) e cuja origem será investigada.
“Aqueles que têm nota anterior a 2024, vamos ter que investigar, se são os que ele vendeu ali pelo sistema, e se não são, também são ilegais. Mas o que muda é que a partir desse momento não existe mais macaco-prego pet pra ser vendido legalmente neste país”, enfatiza o agente do Ibama.
Além disso, todos os animais apreendidos passarão por uma perícia onde serão coletadas amostras genéticas para compor um banco de dados que ajudará a identificar a origem de macacos apreendidos e se são oriundos do criadouro ou não.

Uma longa lista de maus-tratos e infrações
Durante as visitas consecutivas do Ibama em 2024, 2025 e 2026, foram constatadas diversas irregularidades, como recintos inadequados e exemplos de maus-tratos aos primatas mantidos no criadouro.
Em 2024, com a liminar já derrubada, o órgão ambiental foi ao local lavrar um termo de suspensão. Na visita, foi documentada a presença de saguis (Callithrix spp.), espécies exóticas e invasoras no estado de Santa Catarina que não estavam incluídas na autorização do empreendimento.
Na ocasião, todo o plantel do criadouro foi apreendido no local e nada poderia ser feito com eles sem a anuência do Ibama. Na prática, desde junho de 2024 qualquer animal comercializado por Vilson seria, portanto, ilegal.
“Legalmente, ele estava bloqueado, porém ele continuou favorecendo a reprodução, arrancando os filhotes recém-nascidos das mães. Ninguém faz isso se não é para vender. Então, ele continuou se comportando como um criador, mantendo os animais pareados e tirando os filhotes das macacas, isolando nas gaiolinhas”, conta o fiscal do Ibama.
O órgão ambiental voltou ao criadouro em 2025, já esgotadas possibilidades jurídicas de reverter a anulação da liminar. Durante a operação, foram resgatados um total de 167 animais, sendo 126 aves e 41 primatas. Mais uma vez, os fiscais constataram situações de maus-tratos.
“Em 2024 ele já havia sido multado por conta dos saguis. Quando voltamos lá, em 2025, os saguis estavam todos em gaiolas de passarinho, dentro de uma sala fechada, sem sol, sem vento, sem nada, nem água tinha. Ele teve que castrar os animais e deixou eles lá, como um descarte”, lembra o fiscal.
Os saguis não eram os únicos primatas mantidos em gaiolas. Alguns macacos-prego também estavam mantidos em jaulas pequenas na área externa, sem água ou comida, expostos ao clima e às intempéries.


Mesmo aqueles nos recintos, não estavam em situações adequadas. “Os recintos não têm uma planta, não tem solo, é cimento e grade. Pela porta não passa uma gaiola, então não tem plano de emergência, não tem como conter um animal, não tem área de cambeamento [espaço voltado para o manejo seguro dos animais]. É um recinto que jamais seria autorizado”, detalha o agente ouvido por ((o))eco.
Sem a estrutura adequada para garantir o manejo responsável e a entrada e saída de profissionais do recinto em segurança, o fiscal lembra que ouviu do próprio Vilson, durante uma das visitas, que ele usava um jato de água de alta pressão para “controlar” os macacos-prego sempre que precisava entrar no recinto.
Todos os macacos removidos em 2025 apresentaram musculatura atrofiada e pouco desenvolvida devido à privação do movimento mais básico aos primatas: escalar. Não grades, mas árvores.
Após a primeira operação, sobraram apenas 26 macacos-prego adultos no criadouro. Os animais não puderam ser levados devido à falta de locais disponíveis e aptos a recebê-los. “Nós tivemos que buscar parceiros que construíram recintos, remanejaram seus animais, porque não existia recinto disponível pra macaco-prego”, conta o agente ambiental.
Desde fevereiro deste ano, o órgão ambiental tenta voltar ao local, sem que Vilson permitisse sua entrada, para resgatar os primatas remanescentes. Apenas com um mandado judicial, concedido no final de março, os agentes puderam entrar para concluir a retirada dos bichos, que a essa altura eram 25, com o óbito de um deles, conforme declaração apresentada por Vilson.
As condições encontradas não haviam mudado muito. Recintos inadequados e animais estressados, com comportamentos atípicos para a espécie ou sintomas do enclausuramento, como tiques de cabeça e andar repetitivo de um lado para o outro. “Quando a gente vai conter um macaco-prego em grupo, por exemplo, eles assumem um comportamento de grupo e um defende o outro. Os do criadouro não. Eles se deitam no chão, mostram a barriga e fazem xixi. É na base do pânico. Tanto que eles foram mudos no transporte”, acrescenta o fiscal.
A reportagem de ((o))eco buscou contato com Vilson, mas não obteve sucesso. O espaço segue aberto.

Recintos lotados e macacos-prego sem lugar para ir
Um dos maiores desafios da retirada dos macacos-prego do criadouro foi responder a pergunta: “para onde levar esses animais?”. A demanda histórica em ter o animal como pet, por vias legais ou ilegais, ampliada pela exposição nas redes sociais, alimenta um fluxo intenso de apreensões e até entregas voluntárias que lotam recintos de primatas em todos os Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) com macacos-prego por décadas – já que em cativeiro, se bem cuidados, estes primatas costumam viver até 50 anos.
No estado do Rio de Janeiro, a superlotação de pregos no Cetas de Seropédica fez com que o Ministério Público Federal (MPF) recomendasse a suspensão do recebimento de novos animais por maus-tratos.
Arrancados das mães ainda filhotes, sem chance de aprender o básico sobre o que é ser macaco, e criados muitas vezes em condições inadequadas, os pregos que chegam aos centros não têm condições de serem reabilitados para soltura na natureza. O resultado: macacos condenados a passar a vida em cativeiro.
“E é importante lembrar que as pessoas que compram, sem se dar conta do problema e dos desafios de manejar um bicho desses em casa, e aí desistem e fazem a entrega voluntária do macaco em um Cetas, isso vai envolver o gasto de dinheiro público. É o dinheiro do cidadão que estamos usando para remediar uma vaidade”, destaca a médica-veterinária Moira Ansolch, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia (SBPr), que lidera a campanha “Macaco Não é Pet”.
Os dez bebês de macacos-prego retirados do criadouro estão sendo reabilitados em um Cetas não divulgado para uma potencial soltura na natureza no futuro. Já os três idosos foram destinados a santuários onde poderão desfrutar de uma “aposentadoria” tranquila.
A situação é agravada pela hibridização dos primatas mantidos no estabelecimento, ou seja, a mistura de espécies diferentes de macacos-prego (dentro do gênero Sapajus). A conduta é proibida em criadouros. Porém, de acordo com o fiscal do Ibama ouvido por ((o))eco, os prego estavam tão misturados que apenas um exame genético vai poder revelar com precisão quem exatamente estava nesse plantel. Um indivíduo foi identificado inicialmente como Sapajus nigritus, espécie classificada como Quase Ameaçada de extinção no Brasil.
Por questões de conservação, nenhum dos híbridos deve ser solto na natureza. Os outros precisarão passar ainda por testes sanitários e comportamentais para uma eventual chance de serem os animais silvestres que deveriam ter sido.
Macaco não é Pet
Desde 2021, a Sociedade Brasileira de Primatologia (SBPr) lidera uma campanha para sensibilizar as pessoas de que macacos não são pets e não devem tentar ser domesticados. A mobilização destaca que primatas são animais sociais, que precisam interagir com outros da mesma espécie, e que a interação humana não substitui a convivência com seus iguais. Além disso, os macacos podem transmitir doenças para humanos, e vice-versa, e normalmente são vendidos filhotes, o que significa que são separados de suas mães enquanto ainda são dependentes – no caso do tráfico e da retirada ilegal da natureza, as mães normalmente são mortas.
“Primatas são animais inteligentes, com uma vida social complexa e com funções na natureza. E eu vou tirar ele da possibilidade de exercer seu comportamento natural, de estar num grupo da própria espécie, de consumir os alimentos que teria na natureza e de exercer seu comportamento natural. Além do risco de zoonoses e de acidentes dentro de casa”, explica a veterinária.
As doenças mais comuns incluem a herpes, que apesar de inofensiva para humanos, pode ser fatal para diversas espécies de primatas; hepatites virais que também podem ser passadas por humanos aos macacos; e a raiva, que pode ser transmitida por mordidas do animal.
Além disso, é importante destacar, afirma Moira, que o comércio legal não promove a conservação dos animais e que pode, inclusive, fomentar o tráfico, uma vez que a exposição do primata em redes sociais aumenta a busca por animais ilegais.

Expectativa por uma lista pet sem primatas
O tema dos animais silvestres como pet é uma discussão antiga no Brasil. Em 2007, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) publicou uma resolução (nº 394) em que determina que o órgão federal publique, no prazo de seis meses, a lista das espécies que poderão ser criadas e comercializadas como animais de estimação no Brasil. Quase 20 anos depois, o Ibama ainda não publicou a lista, deixando em aberto o que pode ou não ser considerado pet no Brasil.
De acordo com a gerente de Biodiversidade e Florestas do IMA-SC, a ausência de uma lista nacional “gera insegurança jurídica e dificulta a fiscalização”.
Em 2021, durante o governo Bolsonaro, a Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (Abema) foi convocada para elaborar uma lista. Na época, o próprio Ministério do Meio Ambiente enviou uma proposta dos animais que deveriam constar na relação. Havia oito primatas listados, entre eles estavam espécies como o macaco-aranha, que pode medir 70 centímetros, com mais de um metro só de cauda, e difícil de manejar em cativeiro.
“Tinha macaco-aranha, macaco-barrigudo, macaco-da-noite… Além de bichos como tamanduá, preguiça, jaguatirica… Era um escárnio, uma lista bizarra”, lembra Moira, que na época foi convidada pela Abema como uma das especialistas em primatas para propor a lista.
No final, usando diversos critérios técnicos, o grupo de especialistas conseguiu retirar todos os mamíferos da lista. A proposta final incluía apenas espécies de aves e répteis. O trabalho, entretanto, foi engavetado dentro do ministério e nunca foi oficializado. “E hoje existe um grande ponto de interrogação de onde vai partir essa lista. Se vão usar a feita pela Abema, se vão manter os mesmos critérios, se vão refazer…”, pondera a primatóloga.
“A nossa expectativa, de todo mundo que trabalha com primata, é que se mantenha a opinião técnica que foi dada desde os primórdios de que nenhum primata tem que ser pet”, reforça Moira.
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