O programa de governo de Flávio Bolsonaro apresenta sete propostas classificadas como claramente antiambientais pelo Observatório do Clima (OC), enquanto apenas uma medida foi considerada positiva pela entidade. O levantamento, divulgado nesta quinta-feira (10), analisou os planos de governo dos seis candidatos à Presidência mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto e avaliou 28 temas relacionados à agenda socioambiental.
Segundo a análise, o programa de Luiz Inácio Lula da Silva é o que apresenta o maior número de compromissos positivos e detalhados na área ambiental, com 16 propostas. Além de Lula e Flávio Bolsonaro, o estudo considerou os planos de governo de Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema.
O objetivo do levantamento foi verificar como os candidatos incorporam questões relacionadas ao clima e ao meio ambiente em seus programas. Para isso, organizações que integram a rede do Observatório do Clima analisaram os documentos apresentados à Justiça Eleitoral e também levaram em conta a atuação política anterior dos candidatos.
A avaliação foi dividida em oito eixos: mudanças climáticas; energia; desmatamento; proteção de povos e comunidades tradicionais; agronegócio sustentável; mineração e infraestrutura; governança ambiental e climática; e oceano e zona costeira. De acordo com o OC, o resultado mostra que a crise climática e os temas ambientais recebem atenção insuficiente na maior parte dos programas.
No caso de Flávio Bolsonaro, o programa não reconhece, segundo a entidade, a existência de uma crise climática. O posicionamento é relacionado pelo Observatório do Clima a manifestações anteriores do candidato. Em maio de 2024, Flávio afirmou que seria uma “armadilha” atribuir as enchentes no Rio Grande do Sul às mudanças climáticas. Em agosto de 2026, durante sabatina no Jornal Nacional, voltou a manifestar posição semelhante.
Já o programa de Lula é o único, entre os seis analisados, que menciona o cumprimento da meta climática brasileira, a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), e o Acordo de Paris. O documento também apresenta medidas de adaptação às mudanças climáticas, com ações e prazos, além de compromissos relacionados ao fortalecimento da fiscalização ambiental e à agricultura sustentável.
Os demais candidatos também apresentam lacunas na agenda climática, segundo a análise. Augusto Cury reconhece as mudanças climáticas, mas não apresenta uma política estruturada para enfrentá-las e não menciona a NDC, metas de redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental. Renan Santos não apresenta políticas específicas para a crise climática nem faz referência à agenda de clima em seu programa.
Ronaldo Caiado reconhece a relação entre mudanças climáticas, eventos extremos e perdas agrícolas e propõe medidas de adaptação e prevenção de desastres. Mas, de acordo com o Observatório do Clima. o plano não apresenta propostas de redução de emissões nem menciona a NDC brasileira, o Acordo de Paris, justiça climática, racismo ambiental ou o Plano Clima.
Romeu Zema também reconhece que o país é afetado por eventos extremos, mas não detalha, segundo o levantamento, os meios de implementação das ações de monitoramento e resposta a desastres. O OC também considerou a atuação do candidato em Minas Gerais e aponta uma redução de 96% nas verbas destinadas à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025.
Para o Observatório do Clima, a falta de propostas consistentes é preocupante diante da tendência de repetição de eventos extremos no país. “A análise, realizada pela Força Tarefa de eleições do Observatório do Clima, mostra que os temas referentes a clima e meio ambiente de forma mais ampla têm uma atenção muito quém do necessário. A exceção é o plano de governo do atual Presidente, no qual o ponto de preocupação fica apenas na área de energia, o que era até esperado. Os planos dos demais candidatos são todos muito mais fracos em relação à agenda ambiental, alguns absolutamente inaceitáveis”, diz Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
As análises foram encaminhadas às coordenações das campanhas, e o OC informou que está disponível para contribuir com o aprimoramento das propostas para a agenda climática e ambiental. “Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia. Eventos como estes, que afetaram 2 a vida de milhares de brasileiros, infelizmente tendem a se repetir. Assim, é lamentável ver como alguns candidatos simplesmente ignoram o assunto em seus planos de governo ou, pior, chegam até mesmo a negar a existência das mudanças climáticas”, diz Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.
Confira, na tabela abaixo, como os seis programas foram avaliados nos 28 temas analisados pelo Observatório do Clima. O estudo completo está disponível aqui.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
No Pará, Flávio Bolsonaro defende flexibilizar licenças ambientais na Amazônia
Em discurso no Pará, Flávio Bolsonaro defendeu mudanças legais para facilitar a exploração agropecuária e mineral na região amazônica →
Lula cria 4 RDS e amplia Parque Nacional das Sete Cidades
Decretos foram assinados ontem em evento de comemoração ao Dia da Amazônia, celebrado no dia 05; Lula criou 12 UCs desde 2023 →
Zema veta ampliação de área protegida e favorece mineradoras em Minas Gerais
Em decisão justificada pelo potencial minerário da área, o governador de MG veta totalmente a ampliação da Estação Ecológica de Fechos, na Grande BH →
