Análises

Ultrapassar 1,5°C não pode ser normalizado

Mesmo que a temperatura global possa ser reduzida no futuro, os danos produzidos durante o período de maior aquecimento não serão automaticamente revertidos

Ivan Carlos Maglio ·
8 de setembro de 2026

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente reconhece que o planeta deverá ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C. O desafio agora seria limitar a intensidade e a duração dessa ultrapassagem – o chamado overshoot – e tentar fazer a temperatura retornar posteriormente ao patamar estabelecido pelo Acordo de Paris.

A mudança é histórica. Passamos do compromisso de evitar a ultrapassagem para uma estratégia de retorno futuro. Isso não significa que a meta de 1,5°C perdeu importância, mas evidencia o fracasso das políticas climáticas adotadas até aqui.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



O risco é transformar esse reconhecimento em conformismo. Mesmo que a temperatura global possa ser reduzida no futuro, os danos produzidos durante o período de maior aquecimento não serão automaticamente revertidos. Mortes causadas por ondas de calor, enchentes e deslizamentos, deslocamentos populacionais, destruição de infraestrutura, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas permanecerão. Florestas tropicais, recifes de coral, manguezais, zonas úmidas costeiras e regiões polares podem ultrapassar limites críticos. Alguns desses processos poderão tornar-se irreversíveis.

Também é perigoso fundamentar essa trajetória na expectativa de que tecnologias futuras retirarão enormes quantidades de carbono da atmosfera. A restauração de florestas, solos e áreas úmidas será indispensável, mas possui limites ecológicos e territoriais. As tecnologias de captura e armazenamento de carbono, por sua vez, ainda não demonstraram capacidade de operar na escala exigida. A remoção de carbono deve complementar – nunca substituir – a redução imediata das emissões e a transição para além dos combustíveis fósseis.

Adaptação não pode continuar em segundo plano

O reconhecimento da provável ultrapassagem de 1,5°C também altera profundamente a agenda da adaptação climática. Eventos extremos mais intensos já atingem cidades, áreas rurais, regiões costeiras e ecossistemas naturais. Seus efeitos, entretanto, não são distribuídos igualmente. Populações de baixa renda, comunidades tradicionais e moradores de territórios sujeitos a enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor enfrentam os maiores riscos, embora tenham contribuído menos para o problema.

A adaptação precisa deixar de ser um conjunto de projetos isolados e passar a orientar o planejamento territorial, os investimentos públicos e as políticas de habitação, saneamento, saúde e proteção ambiental.

Planos diretores, zoneamentos, obras de infraestrutura e processos de licenciamento ainda utilizam parâmetros baseados no clima do passado. Esse modelo tornou-se tecnicamente insuficiente. As decisões atuais precisam considerar os cenários climáticos futuros e os efeitos cumulativos das transformações territoriais.

A proteção e a recuperação dos ecossistemas são parte essencial dessa resposta. Florestas, manguezais, várzeas, áreas úmidas, rios urbanos e espaços verdes ajudam a reduzir temperaturas, armazenar carbono, regular o ciclo da água e proteger populações contra eventos extremos. Mas as soluções baseadas na natureza não devem servir como compensação para políticas que continuam ampliando emissões, desmatamento e vulnerabilidade. Elas precisam integrar uma estratégia mais ampla de transformação econômica e territorial.

A ultrapassagem de 1,5°C não é uma passagem segura. Quanto mais elevado e prolongado for o overshoot, maiores serão as perdas e a possibilidade de danos irreversíveis. Cada décimo de grau evitado representa vidas, territórios e ecossistemas preservados. Reconhecer a gravidade do momento deve fortalecer – e não enfraquecer – a urgência da ação climática.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Ivan Carlos Maglio

    Engenheiro civil e doutor em Saúde Pública pela USP. Foi secretário-executivo do Consema, coordenador de Planejamento Ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e diretor da Cetesb. Pos Doutor em Adaptação Climática pelo IEA USP e Adaptação Baseada em Ecossistemas pela FAU-USP.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Externo
3 de setembro de 2026

Planeta está entrando em águas desconhecidas, diz secretário da ONU sobre El Niño

Novo boletim da Organização Meteorológica Mundial alerta para intensificação do fenômeno e para o elevado risco de eventos extremos nos próximos meses

Externo
2 de setembro de 2026

Planeta vai ultrapassar 1,5ºC de aquecimento e precisa lidar com consequências

Relatório do Pnuma aponta que humanidade já enfrenta um mundo perigosamente mais quente; mesmo no cenário mais otimista, aquecimento deve atingir 1,8ºC

Itália – Turistas se protegem do sol e do intenso calor em Roma, na Itália, enquanto caminham em frente ao antigo Coliseu de Roma, um dos pontos turísticos mais famosos do mundo. Foto: Alessandra Tarantino/AP Photo.
Fotografia
6 de agosto de 2026

Julho dos extremos: uma pequena amostra da intensificação do Super El Niño em imagens

Vendavais, queimadas, enchentes e ondas de calor foram registrados em diferentes partes do mundo – e a intensificação do fenômeno só está começando

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.