Em carta recente para O Eco, Antônio Leão, guia e montanhista de Resende, expressou sua indignação contra a cobrança de 12 reais pelo uso de trilhas nos parques. Como freqüentador do Parque Nacional de Itatiaia e professor de montanhismo de adolescentes de baixa renda da região, ele considera a taxa absolutamente injusta.
Meu ponto de vista sobre o assunto é exatamente oposto: parques devem ter ingressos caros e, se possível, cobrar separadamente pelos serviços que oferecem. Parques deveriam pagar as próprias contas. Desmamar do governo federal incentivaria a boa gerência e aumentaria o caixa.
Se eu compreendi bem, os principais pontos de Leão são:
. Parques são públicos. Não podem cobrar ingressos que excluam os visitantes de renda baixa. Todo mundo tem direito a visitar os parques.
. Além disso, uma taxa de trilha de 12 reais também discrimina os visitantes assíduos, em geral, moradores de localidades próximas.
. O governo já cobra muitos impostos e arrecada o suficiente para cuidar do meio ambiente.
. Apesar dos motivos acima, Leão aceita a cobrança de um ingresso razoável, estimado por ele em 5 reais. Seria uma forma de lembrar ao público que os parques nacionais são lugares especiais e protegidos.
Nossas visões parecem irreconciliáveis. Será mesmo?
Eis as minhas considerações:
Só o gestor do parque saberá qual o ingresso de entrada adequado e quais serviços devem ser cobrados. O grau de centralização do IBAMA é descabido. Por que ter o ingresso e a taxa de uso de trilha determinados por Brasília? Cada parque é um caso diferente. O gestor deveria ter liberdade para cobrar ingressos que maximizassem a receita do parque. Deveriam também ter um mandato por tempo definido. Por exemplo, quatro anos. Sem essa estabilidade, ficam sujeitos a pressões políticas constantes e não têm horizonte de planejamento.
No caso de Itatiaia, o ingresso deveria ser caro. Para boa parte dos visitantes que vem do Rio de Janeiro e São Paulo, ele é um pequeno percentual das despesas da visita. Não deveria ser assim. O parque é a grande atração. Merece ficar com uma parcela gorda das despesas dos turistas.
Cobrando caro, se faria justiça distributiva. De acordo com o IPEA, em 2005, o rendimento médio de um trabalhador brasileiro foi mil e dezoito reais. Se fosse feita uma pesquisa, alguém duvida que descobriríamos que a maioria dos visitantes de Itatiaia ganha bem mais? Se for verdade, financiar o parque com impostos significa tirar dos mais pobres, os principais pagadores de impostos, para financiar os mais ricos, a média dos visitantes.
Já pagamos muitos impostos. Como regra, o governo deveria cobrar de quem usa seus serviços. Fica mais transparente, incentiva a boa gerência e permite reduzir os impostos gerais. Cabe a nós pressionar para que isso aconteça, e não que impostos se acumulem.
E os estudantes? E os brasileiros que não podem pagar ingressos caros? E os freqüentadores assíduos? Acho que, de novo, a descentralização administrativa ajudaria a encontrar soluções flexíveis. Mesmo visando lucro, companhias aéreas, museus e até médicos cobram levando em consideração a capacidade de pagamento e o hábito dos seus clientes.
Deixe de lado os números, mas veja como é flexível o sistema de cobrança do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMa. Trata-se de uma das atrações turísticas mais visitadas do mundo. Mesmo assim, com a faca e o queijo na mão, consegue proporcionar, de várias formas, ingressos de graça ou baratos. A entrada no MoMa custa 20 dólares para adultos, 16 para seniores e 12 para estudantes. Crianças e associados não pagam. Um associado paga 75 dólares por ano, ganhando com isso passe livre e diversos descontos. Existem outros pacotes de associados para casais (US$100 por ano) e famílias (US$150 por ano). Por fim, toda a sexta-feira, das 16h às 20h, uma grande loja de departamento, a Target, patrocina a entrada livre para todos.
A comparação parece maluca? Não acho. Nossa realidade é outra? Porque queremos. Posso visualizar parques como Itatiaia cobrando caro e ganhando muito dinheiro com turismo nacional e estrangeiro. Como resultado, o parque ficaria um brinco. Programas de preservação e de pesquisa teriam financiamento farto. Os ingressos poderiam ter preços diferenciados por vários critérios, como dia da semana, época do ano, capacidade de pagamento e intensidade de uso do visitante. Quem sabe, com esse tipo de flexibilidade, os alunos do Leão poderiam, não apenas entrar de graça, mas ganhar um troco, através de convênios em que prestem serviços ao parque?
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