No próximo domingo mais de sete mil ciclistas descerão a Serra do Mar em São Paulo, participando da quarta edição do passeio cicloturístico Rota Márcia Prado, organizado pelo Instituto CicloBR. O número de interessados mais do que dobrou em relação ao ano passado, quando cerca de 2.800 pessoas saíram de São Paulo rumo ao litoral pedalando.
| Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. |
A descida da Serra do Mar é um passeio anual organizado com o objetivo de, não só chamar a atenção para a demanda por infraestrutura, como também para o potencial de se consolidar uma rota de cicloturismo na região. Para ser oficializado e liberado durante todo o ano, o percurso depende apenas de autorização da concessionária Ecovias, que reluta em liberar e garantir o trânsito seguro de bicicletas em um trecho de poucos quilômetros pelos quais passa a rota. Por lei, conforme o artigo 58 (leia ao lado) do Código Brasileiro de Trânsito, ciclistas têm o direito de trafegar no acostamento quando não há ciclovia.
A postura antipática da Ecovias, concessionária que se diz ecológica mas não gosta de bicicletas, está relacionada ao sistema de operação da rodovia O fluxo dos automóveis é prioridade máxima e para poder continuar cobrando pedágio de R$ 21,20 sem enfrentar uma crescente de reclamações, a empresa tem que manter padrões de qualidade altíssimos. Mesmo ampliando o asfalto, abrindo túneis e permitindo o aumento crítico de automóveis (e poluentes, em uma das últimas áreas de Mata Atlântica preservada do país, registre-se), a Ecovias tem tido dificuldades em evitar a constante crescente de congestionamentos no sistema.
Nos últimos finais de semana, com o calor em São Paulo, milhares de pessoas se viram presas em engarrafamentos tanto na descida quanto na subida da Serra do Mar. Não são poucos os que defendem que o contrato de concessão seja revisto. Mesmo a suposta segurança do sistema de túneis e retas é questionado quando as barbaridades no trânsito se multiplicam. Quando não estão presos no trânsito, motoristas apressados se arriscam alcançando velocidades altíssimas. A presença de motos velozes só agrava a situação.
As perspectivas de mudança, no entanto, são poucas no momento. O Governo de São Paulo segue apostando no rodoviarismo e planeja abrir novas estradas cortando a Serra do Mar no litoral norte e sul. Isso em vez de cobrar a concessionária e incentivar o cicloturismo e o turismo ecológico em uma região rica em biodiversidade, em vez de incentivar os deslocamentos em transporte coletivo ou estudar como adequar e ampliar o trânsito de pessoas em rotas ferroviárias para a região (que poderiam comportar o número crescente de interessados em viajar para as praias).
O resultado do incentivo ao uso de automóveis (que se reflete em âmbito federal na redução de impostos para montadoras) é fácil de se notar. O trânsito se agrava mais e mais, mesmo com a abertura de novas vias e o alargamento das avenidas já existentes. No verão e nos próximos finais de semana, milhares de turistas carrodependentes ficarão frustrados parados na estrada, tentando chegar até a praia.
Leia também
Cicloturismo com macacos na Serra do Mar
A viagem do Elefante e outras viagens
Uma ciclista iniciante na Rota Márica Prado
Leia também
Borboletas e formigas: um ensaio sobre jardins e ciclos
A vida em comunidade envolve relações de cuidado, mas também conflitos, riscos e ambiguidades. A cooperação é fundamental, mas não significa harmonia perfeita. E, essa lógica não é exclusiva para o mundo dos insetos →
A esperada queda da SELIC e o maior ativo do século XXI
Nos territórios, onde as veias seguem abertas e pulsam o sangue e a alma das cidades e de seus habitantes, milhares de pessoas sofrem os efeitos das decisões sobre investimentos →
Funbio lança chamada para expansão de unidades de conservação municipais
Entidade convida instituições a apresentarem projetos para Unidades de Conservação (UCs) nos biomas Caatinga, Pampa e Pantanal; inscrições vão até 30 de março →





