Análises

Sobrou para o Trem do Corcovado

Após o dilúvio, os desmoronamentos e as mortes no Rio, chegou a vez dos bodes expiatórios. Moradores depredaram um dos trens que há mais de um século ligam o Cosme Velho ao Cristo Redentor.

Redação ((o))eco ·
9 de abril de 2010 · 16 anos atrás

Depois do dilúvio, dos desmoronamentos e das mortes que assolaram o Rio de Janeiro nas últimas horas, chegou a vez dos bodes expiatórios. Nesse sentido, alguns moradores de comunidades carentes do entorno do Corcovado depredaram ontem um dos trens da linha férrea que há mais de um século liga o Cosme Velho ao mirante da Estátua do Cristo Redentor.

Quebraram uma composição para se vingar da companhia que opera o serviço de transporte ferroviário. Alegam, que para tirar a água dos trilhos, a empresa desvia de forma sistemática os aguaceiros para as encostas situadas a montante da favela, favorecendo o desmoronamento sempre que há chuvas mais fortes. Registre-se, contudo, que a acusação é terminantemente negada por Sávio Neves, Presidente do Bondinho.

Verdade ou não para o caso específico das encostas do Corcovado, o problema do manejo desautorizado das águas do Parque Nacional da Floresta da Tijuca é generalizado em todas as encostas dessa Unidade de Conservação.

Favelas, lava jatos, casas de bacanas e quetais roubam impunemente as águas da Tijuca há mais de 30 anos, causando ressecamento e aumento da incidência de incêndios em suas bordas, mudanças nos padrões hídricos e impactos nas movimentações de fauna e na incidência de espécies de flora (vide minha coluna Água de Quem? Publicada em OECO em 3/12/2004). Resolver esse drama passa sim por fiscalizar o trem do Corcovado, mas se formos mexer nesse vespeiro é preciso levar em conta que, ademais da própria localização de muitas favelas em áreas de proteção ambiental (em flagrante delito à legislação e à própria segurança dos moradores) os desvios e roubos de água do Parque realizados pelas comunidades acabam por causar malefícios muito mais sérios à preservação.

Quem terá coragem e, sobretudo, força para retirar os encanamentos ilegais que dão vida às favelas? O Parque sozinho com certeza não tem tamanha musculatura. Mesmo se fosse possível acabar com as captações ilegais, a CEDAE seria capaz de suprir as comunidades com água potável da rede formal? Enquanto essas perguntas seguem sem resposta e os desmoronamentos se sucedem, alguém tem que pagar: pau no trem do Corcovado!

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