Análises

Está na hora de transformar a merda em adubo, literalmente

Integrar saneamento e restauração não é apenas uma inovação técnica, é uma mudança de paradigma. Significa criar cadeias produtivas baseadas na circularidade

Danielle Celentano ·
10 de abril de 2026

Aprendemos a dar descarga e esquecer. Afinal, a água leva embora e o cheiro desaparece. Mas o que vai embora não deixa de existir. O esgoto contamina rios e praias, destrói ecossistemas e está na raiz de muitas doenças. Ao mesmo tempo, não reconhecemos seu valor como fonte de matéria orgânica e nutrientes capazes de adubar solos e recuperar áreas degradadas.

Neste artigo, proponho olhar para saneamento básico e restauração ecológica de forma integrada, conectando dois dos principais desafios ambientais do Brasil: poluição e degradação. Como sociedade, precisamos repensar a forma como tratamos nossos resíduos mais íntimos, reconhecendo neles não apenas rejeitos, mas recursos. Isso exige uma mudança cultural que não é trivial, mas é urgente.

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Prefácio escatológico

Falar sobre esse tema e usar palavras como merda, fezes e cocô é praticamente um tabu na nossa sociedade, exceto para crianças na “fase escatológica”, por volta dos 3 ou 4 anos, quando a descoberta das funções do corpo é parte essencial do seu desenvolvimento.

Curiosamente, em português, “escatológico” não se refere apenas a excrementos, mas também à escatologia como estudo sobre o fim dos tempos, o destino da humanidade e o próprio apocalipse.

Em um mundo marcado por guerras, fome e destruição, essa associação parece fazer sentido. Mas, e se olhássemos a merda de outra forma? Será que poderíamos vislumbrar outro “fim dos tempos”? Ou, quem sabe, novos começos?

Saneamento e ciclos interrompidos

O acesso ao saneamento básico é um direito humano reconhecido pela ONU desde 2010 e que poderá integrar o artigo 6º da Constituição brasileira, caso a PEC 20/2025 seja aprovada.

Ainda assim, uma parcela significativa da população brasileira vive sem acesso adequado a esse serviço. Em muitas regiões, e na Amazônia em particular, a maioria do esgoto corre a céu aberto ou é lançado diretamente nos rios, os mesmos rios que alimentam, conectam e sustentam a vida.

Rua alagada no bairro Terra Firme, em Belém (PA), a capital com a menor rede de esgoto do Brasil; cenário se agrava com falta de coleta de lixo e problemas de drenagem. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Persistimos em tratar o esgoto como algo a ser descartado, escondido e eliminado. Esquecemos que, na natureza, não existem rejeitos – existem ciclos. Os nutrientes circulam, se transformam e sustentam os ecossistemas. A matéria orgânica se decompõe e alimenta múltiplas formas de vida. Rompemos essa lógica ao despejar grandes quantidades de matéria orgânica e minerais em solos, rios e oceanos, ultrapassando sua capacidade de absorção e gerando poluição.

A falta de saneamento não é apenas um problema de infraestrutura, mas de saúde pública, dignidade, desigualdade e de cosmovisão. É também uma questão de vida e morte, especialmente entre crianças menores de cinco anos.

Os impactos vão além das doenças: comprometem as finanças públicas, fragilizam a economia local, afetam a segurança alimentar, reduzem o potencial turístico e deterioram o bem-estar social. Ainda assim, no Brasil, o saneamento segue cronicamente subfinanciado e quase invisível nas prioridades políticas.

Esgotamento de nutrientes

Enquanto poluímos e contaminamos ambientes com nossos esgotos, os sistemas agropecuários dominantes também rompem ciclos naturais, esgotando nutrientes e a vida dos solos, acelerando a degradação dos ecossistemas e reduzindo sua capacidade de regeneração.

Para compensar, recorremos a grandes volumes de fertilizantes – insumos caros, frequentemente importados, com impactos geopolíticos, socioeconômicos e ambientais catastróficos. A produção de fertilizantes químicos é altamente dependente de combustíveis fósseis e contribui para o aquecimento global. Ao mesmo tempo, as reservas de fósforo estão se tornando cada vez mais escassas. Em contraste, o esgoto representa uma fonte abundante, e ainda subutilizada, desse e de outros nutrientes essenciais.

Está na hora de reconhecer que poluição e degradação fazem parte da mesma equação. Precisamos repensar o que chamamos de resíduos, não como fim, mas como meio para recuperar áreas degradadas, sem desperdiçar nutrientes valiosos.

Reabastecimento de nutrientes

Existem diversos sistemas de tratamento de esgotos, com diferentes custos e níveis de complexidade, adaptáveis a diferentes escalas, seja em residências, comunidades ou até cidades inteiras, utilizando processos físicos, químicos, biológicos ou combinações entre eles.

Os principais produtos do tratamento de esgotos são os efluentes líquidos (ou águas residuárias), geralmente descartados em corpos d’água, e o lodo de esgoto (fração sólida), frequentemente destinado a aterros sanitários. Mesmo após o tratamento, sua carga de matéria orgânica e nutrientes permanece significativa e não pode ser negligenciada. Quando devidamente tratados e manejados, esses materiais apresentam alto potencial para irrigação, adubação orgânica e fertilização de solos, contribuindo para fechar ciclos hoje interrompidos.

Isso não é novidade. Há mais de 5 mil anos, civilizações como China, Egito e Mesopotâmia já utilizavam esgotos na agricultura, prática que se estendeu à Antiguidade com gregos e romanos. Hoje, avanços tecnológicos e normativos ampliam seu uso na agricultura, silvicultura, reabilitação de áreas degradadas e irrigação de áreas públicas, entre outros.

Ainda assim, mais de 80% das águas residuárias são desperdiçadas. O potencial, porém, é enorme. Alguns países já reutilizam até 86%. Não por acaso, o Banco Mundial recentemente publicou um estudo reconhecendo o esgoto como um recurso valioso, fonte de energia, nutrientes e água reutilizável.

É claro que existem riscos. Mesmo tratados, esses materiais podem conter contaminantes nocivos à saúde e ao ambiente, como patógenos, antibióticos, hormônios, metais pesados, entre outros, exigindo regulamentação rigorosa, monitoramento contínuo e tecnologias adequadas para garantir a segurança do seu uso.

O lodo, quando tratado, pode ser convertido em biossólido, reduzindo riscos e ampliando seu potencial de aplicação. Ainda assim, limitações institucionais e de recursos dificultam o monitoramento e a fiscalização, levando, em muitos casos, à restrição ou ao banimento de seu uso.

No Brasil, apesar de avanços normativos para os biossólidos, ainda falta uma política nacional integrada e investimentos consistentes. Embora existam pesquisas e iniciativas público-privadas, com participação de universidades, empresas e companhias de saneamento, estima-se que o reuso de esgotos seja inferior a 1%.

Diante desses desafios, a restauração, a silvicultura e a produção de agrocombustíveis tendem a ser a destinação mais viável. Diferentemente da produção de alimentos, esses sistemas permitem avançar com mais segurança e aceitação social, abrindo espaço para soluções em escala.

Captação da ETA Guandu, que abastece 9,5 milhões de moradores do Grande Rio. Foto: Comitê Guandu.

Soluções integradas

Águas residuárias e biossólidos podem e devem ser utilizados como fonte de nutrientes para recuperar áreas degradadas e impulsionar a produção florestal, seja para madeira, carvão ou celulose.

Esse tema me acompanha há mais de duas décadas. Em meus primeiros projetos de pesquisa, avaliei o uso de águas residuárias de esgotos para a produção de mudas de espécies nativas e de eucalipto, além de desenvolver um sistema flutuante inovador para a produção de mudas em águas poluídas por esgoto e resíduos industriais. Os resultados foram muito promissores.

Hoje, mesmo não atuando diretamente na área, sigo acompanhando os avanços. Basta uma busca rápida para encontrar um número crescente de estudos e iniciativas com resultados positivos, como a aceleração do crescimento de espécies nativas e eucalipto em campo, maior resistência ao estresse hídrico, entre outras. Ainda assim, essas experiências seguem pontuais, em pequena escala e muito aquém do necessário diante da dimensão do desafio.

Nos debates sobre restauração que tenho acompanhado mais de perto, esse tema quase não aparece. Falamos cada vez mais em escala e metas ambiciosas, mas raramente discutimos de onde virão os nutrientes para sustentar a recuperação de solos degradados. Saneamento e restauração ainda seguem como agendas desconectadas.

Nosso tempo está se esgotando

Esse debate ganha ainda mais urgência diante das mudanças climáticas. A reutilização de esgoto tratado na irrigação tende a se tornar essencial frente à escassez iminente de água doce e à pressão sobre os aquíferos.

Integrar saneamento e restauração não é apenas uma inovação técnica, é uma mudança de paradigma. Significa reduzir a poluição, recuperar áreas degradadas e criar cadeias produtivas baseadas na circularidade, onde resíduos deixam de ser passivos ambientais e passam a ser ativos.

Grandes iniciativas de restauração e empresas de silvicultura podem liderar esse movimento. Mas isso exige decisão política, investimento, pesquisa, inovação e, sobretudo, tirar o saneamento da invisibilidade

Talvez o maior bloqueio ainda seja cultural, enraizado em uma cosmovisão linear que enxerga o esgoto como fim, e não como parte de um ciclo natural. Transformar esgoto em recurso exige tecnologia e regulação, mas, antes de tudo, uma mudança de mentalidade. E ela é urgente se queremos, de fato, sair da merda.

Pósfacio

As oportunidades não se limitam ao esgoto. O brasileiro descarta, em média, 382 quilos de lixo por ano. Sem entrar no mérito do questionável padrão de consumo da sociedade atual, o fato é que, em muitas localidades, os resíduos sólidos ainda são destinados de forma irregular, sem separação, compostagem ou reciclagem, tornando-se abrigo para vetores de doenças e fonte de contaminação. Muitos resíduos industriais e agrícolas seguem a mesma lógica de desperdício e destinação inadequada. No entanto, assim como o esgoto, esses materiais carregam nutrientes, energia, matéria orgânica, que podem ser reutilizados de diversas formas, inclusive para a restauração. Reconhecê-los como parte de ciclos, e não como fim, é ampliar o horizonte de soluções e transformar passivos ambientais em oportunidades regenerativas.

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