Em meio às negociações internacionais que costumam se perder em tecnicalidades, há momentos em que o trabalho de pesquisa e incidência conjunta revelam sua potência transformadora, com o endosso não apenas do Governo do Brasil, mas igualmente de Mônaco e do Panamá. Foi o que aconteceu em Campo Grande (MS), durante a Plenária de Negociação da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP 15 da CMS): reconhecer que os montes submarinos – formações invisíveis sob a superfície do oceano – são, na verdade, alguns dos pontos mais estratégicos para a vida marinha no planeta.
Chamar os montes oceânico de “oásis ecológicos” não é metáfora. É ciência.
Essas montanhas submersas concentram vida em regiões muitas vezes pobres em nutrientes, funcionando como pontos de encontro ao longo das grandes rotas migratórias. Baleias, tubarões, tartarugas e inúmeras espécies de peixes dependem desses ambientes para se alimentar, se reproduzir, descansar e até se orientar. São, portanto, nós vitais de conectividade ecológica – verdadeiros “postos de abastecimento” no vasto deserto azul.
Os dados não deixam dúvidas. Montes submarinos podem concentrar até 41 vezes mais tubarões do que áreas oceânicas abertas e sustentam uma diversidade impressionante de espécies, muitas delas ameaçadas de extinção. No entanto, menos de 1% desses ecossistemas está efetivamente protegido, enquanto a maioria permanece fora de qualquer regime de conservação, especialmente em águas internacionais.
Esse descompasso entre importância ecológica e proteção real é um dos grandes paradoxos da governança oceânica contemporânea.
A boa notícia é que esse cenário pode começar a mudar – e o Brasil tem a oportunidade de liderar essa transformação.
Durante a plenária de negociação, o governo brasileiro foi direto ao ponto: reconheceu a importância ecológica dos montes submarinos como habitats críticos para espécies migratórias e destacou seu papel como elementos-chave da conectividade entre oceanos. Mais do que isso, trouxe para o centro do debate um caso concreto e emblemático: o ecossistema de montes submarinos de Fernando de Noronha.
Ali, no Atlântico Sul, está um dos sistemas mais biodiversos e conectados do país, reconhecido internacionalmente como área ecologicamente significativa (EBSA). Não por acaso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já manifestou na abertura dessa mesma COP 15 a intenção de proteger os Montes Oceânicos da Cadeia de Fernando de Noronha e da Cadeia Norte do Brasil – uma decisão que pode representar um marco para a política oceânica brasileira–-, um projeto encabeçado pelo Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Instituto Recifes Costeiros (Ircos) e Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene-ICMBio), em parceria com WWF-Brasil e Blue Nature Alliance (BNA), que já realizou nove expedições científicas nessa região.
Mas proteger montes submarinos não é apenas uma questão de conservação. É também uma questão de estratégia.
Esses ambientes sustentam cadeias alimentares inteiras, incluindo estoques pesqueiros de grande importância econômica. No Nordeste brasileiro, por exemplo, eles contribuem diretamente para a pesca e para a segurança alimentar. Ignorar sua degradação é comprometer não apenas a biodiversidade, mas também economias locais e modos de vida.
E a ameaça é concreta. A pesca de arrasto de fundo – apontada como a principal pressão sobre esses ecossistemas – pode destruir em poucas horas estruturas biológicas que levaram séculos ou até milênios para se formar. Corais de águas profundas e esponjas, fundamentais para o equilíbrio desses habitats, simplesmente não se recuperam no tempo das políticas públicas.
Além disso, a captura incidental, a poluição e as mudanças climáticas ampliam ainda mais o risco de colapso desses sistemas. O resultado é um efeito em cascata: menos alimento, menos áreas de reprodução, mais pressão sobre espécies já ameaçadas.
Diante desse cenário, a proposta em debate na CMS é clara: proteger montes submarinos de práticas destrutivas, fortalecer a cooperação científica e promover ações coordenadas entre países, inclusive em áreas além da jurisdição nacional.
Pode parecer técnico, mas o que está em jogo é profundamente político.
Estamos falando de decidir se o oceano será governado por uma lógica fragmentada – onde cada setor atua isoladamente – ou por uma visão integrada, capaz de reconhecer e proteger as conexões que sustentam a vida marinha.
Montes submarinos são, talvez, a expressão mais concreta dessa conectividade. Eles ligam profundezas abissais à superfície, regiões costeiras ao alto-mar, ciência ao conhecimento tradicional, conservação à economia.
Protegê-los é, portanto, mais do que preservar um habitat: é proteger o próprio funcionamento do oceano e a todos nós.
Ao defender abordagens baseadas em precaução, ciência e cooperação internacional, o Brasil sinaliza um caminho promissor. Mas a liderança se mede na prática. Transformar intenções em políticas efetivas – como a criação de áreas protegidas em regiões estratégicas como Fernando de Noronha e a Cadeia Norte – será decisivo.
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