Análises

Mulheres são a força estratégica da restauração florestal brasileira

O protagonismo das mulheres é reforçado quando criamos espaços seguros para sua participação na tomada de decisões coletivas, promovemos oportunidades de capacitação nas áreas de gestão e liderança

Lais D'Isep ·
5 de março de 2026

A restauração florestal no Brasil consolidou-se como uma das principais estratégias de enfrentamento da crise climática, de recuperação de ecossistemas e de fortalecimento das economias rurais. Nesse processo, a participação das mulheres tem sido decisiva em etapas estratégicas da cadeia da restauração, como a coleta e o beneficiamento de sementes, o manejo de viveiros comunitários e a organização dos arranjos produtivos locais que sustentam os projetos nos territórios.

Estudo da  Embrapa Florestas, com base nos dados do Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF) e da RAIS, indica que, entre 2010 e 2021, as mulheres responderam por cerca de 21% da força de trabalho formal do setor florestal brasileiro. Pode parecer pouco, mas esses dados adquirem maior relevância quando analisados à luz das desigualdades históricas de acesso das mulheres à terra, ao crédito e à assistência técnica no campo.

Nesse contexto, a restauração florestal tem se mostrado um campo fértil para o protagonismo comunitário, e especialmente, feminino. Projetos bem-sucedidos têm sido capazes de promover o desenvolvimento econômico, fortalecendo e diversificando os meios de vida locais, seja através da oferta de empregos na própria cadeia da restauração, ou do desenvolvimento de cadeias de valor a partir de recursos da sociobiodiversidade.

O beneficiamento de sementes nativas, etapa estratégica da cadeia da restauração, constitui-se essencialmente como uma atividade de base familiar e comunitária, sendo que as mulheres representam cerca de 60% dos coletores de sementes em todo o país, de acordo com levantamento da Rede de Sementes do Cerrado (RSC). Na maioria das redes e grupos de coletores, as mulheres respondem não apenas pela coleta em si, mas pela organização dos grupos, pelo controle de qualidade, pela gestão dos recursos e pela transmissão de conhecimentos locais e tradicionais.

Essa contribuição ocorre em meio a uma rotina marcada pela sobreposição de afazeres. As mulheres rurais conciliam o trabalho produtivo no campo com o cuidado da casa, dos filhos, dos idosos, a gestão da alimentação, o manejo dos quintais produtivos e, muitas vezes, atividades comunitárias e associativas. Nesse contexto, a coleta de sementes nativas configura-se como uma atividade complementar às demais práticas produtivas, ampliando e diversificando as fontes de renda das famílias envolvidas.

Foto: Instituto Black Jaguar

O engajamento feminino não ocorre por acaso. Ele se conecta à trajetória histórica das mulheres na agricultura familiar, no manejo agroecológico e na conservação da biodiversidade. Ao longo de gerações, foram elas as principais responsáveis pela diversificação produtiva, pelo cuidado com o solo, pela seleção de sementes e pela manutenção de sistemas agrícolas mais resilientes – competências que dialogam diretamente com os princípios da restauração florestal em larga escala.

Além disso, iniciativas de base comunitária tendem a criar ambientes mais favoráveis à liderança feminina do que modelos produtivos altamente mecanizados ou concentradores de renda. Arranjos de governança adequados e abordagens colaborativas promovem confiança e inclusão, e permitem que mulheres assumam posições centrais na produção, na articulação local e na gestão coletiva. Esse envolvimento nas atividades de restauração ecológica e conservação ainda aflora valores relacionais e de pertencimento ao território.

A experiência da Ressemear, rede de coletores de sementes nativas vinculada ao Instituto Black Jaguar, ilustra essa dinâmica. Com ampla participação feminina, mais de 70% dos coletores capacitados e atuantes são mulheres da agricultura familiar, demonstrando como projetos de restauração podem, simultaneamente, recuperar paisagens e promover inclusão social.

O protagonismo natural das mulheres é reforçado quando criamos espaços seguros para sua participação na tomada de decisões coletivas, promovemos oportunidades de capacitação nas áreas de gestão e liderança, garantimos remunerações justas e a distribuição equitativa de benefícios, além de incentivarmos a participação dos jovens – filhos e netos – nas atividades da rede de sementes. Valorizar a participação feminina na restauração florestal não é apenas reconhecer uma realidade já existente. É compreender que a efetividade das metas ambientais brasileiras passa, necessariamente, pelo fortalecimento dessas lideranças, com igualdade de acesso a oportunidades. Sem equidade de gênero, não há restauração em escala nem sustentabilidade de longo prazo.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Lais D'Isep

    Engenheira Agrônoma e Articuladora de Comunidades do Instituto Black Jaguar

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