Análises

No final, deu certo!

A história da criação da Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba.

André Ilha ·
8 de janeiro de 2026

De todos os ecossistemas associados à Mata Atlântica, a floresta estacional semidecidual é aquele que provavelmente foi o mais impactado pelos sucessivos ciclos econômicos pelos quais o estado do Rio de Janeiro passou. Sabe-se que havia largas porções desse tipo de mata no Norte Fluminense, que foram sistematicamente suprimidas para produção de lenha e carvão e para “limpeza” de solo com fins agropastoris.

No município de Campos, onde hoje é São Francisco de Itabapoana, um remanescente expressivo estava sendo destruído com tal intensidade que passou a se chamar, de forma mórbida, “Mata do Carvão”. No início dos anos 90 a situação ali era dramática, e a arquiteta Dina Lerner, integrante da equipe do prof. Darcy Ribeiro, então Secretário Extraordinário de Programas Especiais, em plena efervescência da Rio-92, conversou com ele a respeito. Darcy era um homem de visão, e demonstrou interesse em marcar positivamente a importância dada pelo segundo governo Brizola à conservação da natureza. Aproveitando um sobrevoo de helicóptero ao Norte Fluminense para tratar da implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), em Campos, ela o apresentou à área florestada remanescente.

Infelizmente a época escolhida para o sobrevoo foi a da seca, em que as folhas de muitas árvores fenecem e caem. Por essa razão, o professor Darcy não se entusiasmou com a aparência da Mata do Carvão, que assim permaneceria desprotegida por duas décadas mais, até se ver reduzida a ínfima fração de sua extensão original. No entanto, diga-se, o seu sacrifício não foi em vão: em outubro de 1992 Brizola criou, no município de Paraty, com quase 10.000 hectares, a Reserva Ecológica da Juatinga, sua vitrine ecológica para o mundo. Esta foi uma medida digna de todo o reconhecimento, mas que só foi possível graças apenas à ininterrupta exuberância das florestas ombrófilas do sul do estado, que correspondiam às expectativas de Darcy Ribeiro…

Carvoaria em São Francisco de Itabapoana. Arquivo Inea.

Vinte anos depois

Em abril de 2002 eu assumi a presidência do Instituto Estadual de Florestas (IEF-RJ) pela segunda vez e convidei Dina Lerner para vice-presidente, em uma gestão que haveria de ser curta e trepidante. No Dia do Meio Ambiente daquele ano, menos de dois meses após ter tomado posse, foi a minha vez de voar de helicóptero, desta vez acompanhando a governadora Benedita da Silva a Cachoeiras de Macacu onde ela assinaria o decreto de criação do Parque Estadual dos Três Picos, o maior do estado, em meio a uma grande festa que parou a cidade.

Animado, pensei em aproveitar o momento favorável para propor a criação de outras áreas protegidas no estado, e a Mata do Carvão, um triste símbolo de problemas ambientais não resolvidos no Rio de Janeiro, entrou no meu radar. Minhas conversas com Arthur Soffiati, o grande ícone do movimento ambiental no norte fluminense, aguçaram a minha percepção para a urgência do problema, e eu lhe pedi então que desenhasse uma proposta para a criação de uma unidade de conservação ali. Concluímos que a categoria estação ecológica seria a mais adequada por se tratar de uma área plana e uniforme, sem atrativos para a visitação turística, e também para deixar o mais quieto possível aquele ínfimo resquício de uma tipologia florestal que um dia se estendera por uma área muitas vezes maior ao redor e fora reduzida a madeira, carvão e capim. Por estar compreendida entre dois córregos afluentes do Rio Guaxindiba, Soffiati sugeriu que o seu nome fosse Estação Ecológica de Guaxindiba (EEEG), o que acatei de imediato, pois me agradava a ideia de um topônimo indígena.

Em seguida discuti a proposta com o amigo Carlos Minc, deputado estadual com extraordinária atuação na área ambiental e que em breve viria a ser secretário de estado do Ambiente do RJ e ministro do Meio Ambiente no segundo governo Lula. Ele, conforme o esperado, vibrou com a ideia e prometeu defendê-la junto à governadora como já havia feito com o Parque dos Três Picos, e logo obteve sinal verde para que pudéssemos seguir em frente. Reunidos os estudos científicos disponíveis sobre a área, marcamos a consulta pública na Uenf, que transcorreu de forma tranquila. Tudo, então, parecia bem encaminhado. Mas não era bem assim.

Alagados da EEEG. Arquivo Inea.

O agro contra-ataca

Um dia estava eu em uma reunião de rotina no Laboratório de Geoprocessamento do IEF-RJ quando alguém veio correndo me dizer: André, a governadora está ao telefone querendo falar como você. E ela está furiosa!

Eu fiquei perplexo. Por mais que me esforçasse, não conseguia me lembrar de ter feito nada que pudesse, a meu ver, contrariá-la daquela forma, e foi com preocupação que me dirigi ao aparelho. Conversei não com ela, mas com a sua chefe de gabinete, e entendi o que se passava. Pobre Benedita…

Aquele era um ano eleitoral, e a governadora tinha como principal adversária à sua reeleição Rosinha Garotinho, cuja principal base eleitoral era precisamente o Norte Fluminense, e ao desembarcar em Campos naquele dia, Benedita foi brindada com manchetes mentirosas, em letras garrafais, em todos os jornais locais: “IEF causará catástrofe social do campo”, “Estação Ecológica desempregará 3 mil pessoas”, e outras na mesma linha, e que a obrigou a ficar na defensiva em um importante evento de campanha.

Eu argumentei que tudo aquilo era uma mentira grosseira, que não havia nem 30 pessoas trabalhando ali, muito menos 3 mil, mas foi em vão. A disputa estava acirrada, a governadora não queria correr esse risco e, compreensivelmente, recuou da proposta. Enquanto isso, Soffiati e eu recebemos ofícios do presidente da Câmara dos Vereadores de São Francisco de Itabapoana nos encaminhando uma moção de repúdio com o carimbo de “aprovada por unanimidade”, devido ao “ato de insensibilidade social e humanitária” e pela “evidente catástrofe social e humanitária” que a criação da UC causaria.

Moção de repúdio dirigida ao autor pela totalidade da Câmara dos Vereadores de São Francisco de Itabapoana, devido à proposta de criação da unidade.

Pois bem. Veio a eleição, Rosinha foi eleita no primeiro turno e, pouco antes de deixar o cargo, Benedita teve a curiosidade de consultar o mapa de votos da cidade. Quando constatou que, apesar do seu gesto de boa vontade, sustando a tramitação do processo da estação ecológica, teve apenas cerca de 10% dos votos de sua oponente, ela assinou o decreto de sua criação, saiu do governo e entrou para a história da proteção da Mata Atlântica fluminense.

E depois disso?

No final de 2002 todos deixamos nossos cargos junto com a governadora Benedita da Silva, mas voltamos em 2007 quando Carlos Minc assumiu a Secretaria do Ambiente do Rio de Janeiro, onde revolucionou todo o setor ambiental do estado. Além de criar o Inea, resultado da fusão do IEF-RJ com a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e a Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla), ele arquitetou o Fundo da Mata Atlântica (FMA), um elaborado mecanismo operacional e financeiro para execução de projetos em unidades de conservação com recursos da compensação ambiental estadual, que proporcionou um novo patamar de eficiência na aplicação desses (e de outros) recursos.

Submetemos então ao FMA o projeto para construção do complexo da sede da Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, compreendendo sede administrativa, alojamentos para guarda-parques e pesquisadores e centro de visitantes, em terreno cedido pela prefeitura fora da unidade e com as edificações seguindo um rigoroso conceito de sustentabilidade: máxima ventilação e iluminação naturais, reuso de águas pluviais, biodigestor, captação de energia solar etc.

Complexo da sede da Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba. Foto André Ilha.

A inauguração, ocorrida em 4 de dezembro de 2013, foi um sucesso, e contou com a presença efusiva de muitos dos vereadores que anos antes haviam se insurgido contra a existência da unidade. Desde então a EEEG tem cumprido muito bem o seu papel de proteger este precioso remanescente de mata semidecidual e proporcionar valiosas lições de educação ambiental in loco para um grande número de crianças de São Francisco de Itabapoana e dos municípios vizinhos, que percorrem o centro de visitantes da unidade e depois uma curta trilha no meio da mata para senti-la por conta própria e, assim, melhor entender a importância dos esforços para a sua preservação.

O autor na inauguração da sede da EEEG em 2012. Arquivo Inea.
Plateia na inauguração da sede da EEEG, com a presença de muitos que haviam se oposto à criação da unidade uma década antes. Arquivo Inea.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • André Ilha

    Membro fundador do Grupo Ação Ecológica (GAE), ex-diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Inea.

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