Ondas de calor, frio intenso, alto volume de chuva, rios secos, enchentes, alagamentos, escassez hídrica. Essa tem sido a realidade do Brasil e do mundo nos últimos anos. Os dados do Climate Central mostraram que mais de 127 milhões de pessoas no Brasil vivenciaram, pelo menos, um dia de calor nível 5 – o alerta máximo de calor extremo quando a sensação térmica ultrapassa 44°C – conforme prevê o Índice de Severidade Climática, entre 14 e 20 de fevereiro de 2025, o que representa que as mudanças climáticas, causadas pela ação humana, tornaram o calor extremo pelo menos cinco vezes mais provável.
Nos últimos anos, vimos os horrores que as consequências das mudanças climáticas têm na vida cotidiana da população brasileira, em especial as pessoas de baixa renda. Secas, cada vez mais severas, trouxeram para a população do Amazonas, especialmente nos anos de 2023 e 2024, dias de terror: crianças, jovens, adultos e idosos sem água. Comunidades inteiras dependentes da pesca ficaram sem o rio, sem a sua fonte de renda, ou mesmo sem possibilidades de se deslocar de barco – muitas vezes a única via de mobilidade na região.
Avançando para o verão de 2026, de acordo com o G1, logo no início do ano as favelas enfrentam um impacto desproporcional das ondas de calor, as periferias do Rio de Janeiro registraram uma sensação térmica de até 50°C, que normalmente precede chuvas intensas e deslizamentos.
E o que o Carnaval tem a ver com isso tudo? Muito!
A ocorrência de ondas de calor estão ficando mais frequentes e intensas, e a sensação térmica é ainda pior em meio a multidões e concreto com pouca arborização. Ou seja, o Carnaval, uma festividade que assume inúmeras funções sociais e políticas, acaba sendo, também, um momento onde há riscos climáticos, exigindo atenção do poder público
Isso é particularmente preocupante porque o Carnaval não é apenas uma festa. É uma oportunidade de ocupar espaços públicos, valorizar diferentes expressões identitárias e cosmovisões tradicionais que andam em comunhão com a harmonia com a natureza e as pessoas – tudo isso reverberado em simbologias e manifestações culturais, como os samba-enredos, marchinhas e fantasias. Ao mesmo tempo, trata-se de um evento que movimenta intensamente a economia das cidades.
Os impactos climáticos, portanto, não são apenas individuais ou pontuais – eles também são econômicos. Um estudo da Confederação Nacional de Municípios estima que, na última década, desastres naturais causaram prejuízos de R$ 401,3 bilhões no Brasil. Segundo a ONU, a cada bilhão (de dólares) investido em adaptação contra inundações costeiras levaria a uma redução de US$ 14 bilhões em danos econômicos.
Os dados mostram que adaptação climática não é custo: é investimento. Diante do agravamento do calor extremo, a pergunta que se impõe é: Queremos agir de forma preventiva ou continuar reagindo a crises cada vez mais previsíveis?
O papel da política para prevenir os impactos climáticos durante o Carnaval
A expectativa de participação no Carnaval de 2026 no Brasil é altíssima, com projeções indicando mais de 65 milhões de pessoas nas ruas, um aumento significativo de cerca de 22% em relação a 2025. E a previsão para essas milhões de pessoas é de calor, muito calor, com temperaturas altíssimas que podem gerar problemas às pessoas, às Prefeituras e aos demais órgãos que trabalham no Carnaval.
Ainda dá tempo das prefeituras proporem e implementarem medidas rápidas, baratas e de alto impacto na saúde das pessoas e na economia local, como:
- Ter mais pontos de distribuição gratuita de água, conectados aos locais onde haverá blocos e multidões. A exposição ao calor extremo pode gerar desidratação, e é muito mais barato distribuir água do que cobrir, pelo SUS, a internação de pessoas desidratadas.
- Disponibilizar aos trabalhadores que têm carga de trabalho mais pesada no Carnaval – como os catadores de materiais recicláveis – kits de proteção contra os eventos extremos: bonés, protetores solares, garrafas de água, entre outros, além, obviamente, de pagar um valor justo pelo trabalho deles.
Para garantir as medidas propostas acima e outras com mais antecedência para os demais Carnavais, é fundamental que as Administrações instituam um Gabinete de Crise Climática para grandes eventos, incluindo o Carnaval. Esse espaço deve permitir planejamento e coordenação intersetorial com a antecedência necessária, reconhecendo o papel central do Carnaval na organização socioeconômica do país, ao mesmo tempo em que responde aos riscos crescentes à saúde pública impostos pelo agravamento da crise climática.
Reforçar que medidas eficazes de prevenção aos eventos climáticos extremos não podem ser improvisadas às vésperas das festividades: a proteção da população exige planejamento preventivo, cronogramas definidos de diálogo com blocos e trabalhadores da cultura e decisões políticas tomadas com antecedência. Em um contexto de eventos extremos cada vez mais previsíveis, antecipar-se deixou de ser uma escolha, é uma responsabilidade pública. A institucionalização dessas ações por meio de decreto, articulada às operações de altas temperaturas e aos planos de chuvas do verão, é essencial para assegurar respostas baseadas em evidências e protocolos claros.
É tempo de integrarmos a cultura como parte das medidas de adaptação às mudanças climáticas nas cidades. O clima já mudou e é preciso que a nossa forma de fazer política e gerir as cidades também mude, valorizando a cultura e cuidando das pessoas.
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