Análises

Pequeninos sobreviventes: o Instituto Butantan e a missão de salvar o sapinho-da-restinga

O Museu Biológico agora abriga quatro sapinhos e tentará reproduzir, a partir deles, uma população de segurança que, no futuro, poderá ajudar a reforçar as populações silvestres

Em dezembro de 2024, quatro minúsculos viajantes chegaram ao Museu Biológico do Instituto Butantan, em São Paulo. Pesando menos de um grama cada e medindo apenas 15 milímetros – pouco maior que uma unha – dois casais de sapinho-da-restinga (Melanophryniscus setiba) iniciaram uma jornada que pode definir o futuro de sua espécie.

Estes pequenos anfíbios são verdadeiros especialistas: vivem exclusivamente na restinga de Setiba, no Parque Estadual Paulo César Vinha, em Guarapari, Espírito Santo. Com sua pele rugosa em tons de marrom que os camufla perfeitamente na serrapilheira dos solos arenosos, são tão discretos que até hoje os cientistas ainda tentam desvendar seus segredos mais básicos – como se reproduzem, o que comem ou mesmo como cantam.

O habitat onde vive o sapinho-da-restinga, no Parque Paulo Cesar Vinha, em Guarapari, ameaçado por incêndios e pelas mudanças climáticas. Foto: Mariana Pontes.

Mas o tempo está correndo contra estes sapinhos. Incêndios florestais têm devastado seu hábitat no parque, destruindo irreversivelmente o brejo herbáceo onde vivem. Some-se a isso o aquecimento global e o desmatamento, e temos mais uma espécie brasileira criticamente ameaçada de extinção.

É aí que entra o Museu Biológico do Instituto Butantan. Um dos mais antigos museus de São Paulo, que já foi conhecido simplesmente como “Museu do Butantan”, ele evoluiu de um espaço focado em acidentes com animais peçonhentos para se tornar um centro de conservação da biodiversidade. Com seus 3 mil visitantes semanais, entre turmas de escolas e famílias, vindos de todo o Brasil e mesmo do mundo, o museu usa sua popularidade para mostrar que mesmo as espécies que não são tão populares, como cobras e sapos, são essenciais para ecossistemas saudáveis e têm uma beleza toda especial – basta saber apreciá-los.

Agora, como parte do Plano de Ação Nacional para a conservação da herpetofauna ameaçada do Sudeste do Brasil, um programa do ICMBio, o museu se uniu a um time de peso: o Instituto Boitatá, o Projeto DOTs, o Grupo ASG Brasil e a Unicamp. Juntos, eles têm uma missão: garantir que o sapinho-da-restinga não desapareça para sempre.

O Museu Biológico do Instituto Butantan recebe mais de dois mil visitantes por semana, em sua maioria crianças em grupos escolares. Seu papel no plano de ação para a conservação de répteis e anfíbios ameaçados do Sudeste é o de promover a conservação ex-situ, mantendo e reproduzindo espécies ameaçadas, e também comunicar questões ligadas à conservação de nossa biodiversidade, reconectando pessoas e natureza.

No Instituto Butantan, os sapinhos ganharam uma casa que replica seu hábitat natural, com direito a bromélias típicas de sua região, troncos imitando raízes e até mesmo a serrapilheira onde costumam se esconder. A temperatura, umidade e iluminação são controladas para simular as condições exatas de Setiba. Mas antes de se mudarem, passaram por um check-up completo – incluindo testes para o temido fungo Batrachochytrium dendrobatidis, conhecido como BD, responsável pelo declínio de anfíbios em todo o mundo.

Os pesquisadores do Instituto Butantan replicam o ambiente dos sapinhos-da-restinga nos terrários onde são mantidos, na tentativa de conhecer mais sobre sua biologia, promover a reprodução e assegurar a sobrevivência da espécie. Foto: Adriana Mezini.

O desafio agora é ambicioso: não apenas estudar e documentar o comportamento destes pequenos sobreviventes, mas conseguir que se reproduzam. Se tudo der certo, estes quatro pioneiros podem ser o início de uma população de segurança que, no futuro, poderá ajudar a reforçar as populações silvestres.

É uma nova página na história da conservação brasileira, escrita em uma antiga cocheira transformada em museu, onde pequenos anfíbios nos lembram que, às vezes, os maiores esforços de preservação começam com as menores criaturas.

Com sua pele rugosa, o sapinho se camufla entre as folhas do solo, na restinga onde vive. Foto: Instituto Butantan.

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