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Turismo de natureza no Cerrado: uma oportunidade

A visitação de áreas naturais é um caminho importante para gerar a valorização do Cerrado e promover renda e qualidade de vida atrelada à conservação

Eduardo Bessa · Lucas Del Bianco Faria ·
26 de setembro de 2024 · 1 anos atrás

Frequentemente buscamos refúgio, qualidade de vida e alívio para nosso dia a dia cada vez mais urbano em atividades na natureza. Em 2015, cerca de 8 bilhões de pessoas visitaram áreas naturais. Isso demonstra a importância econômica dessa atividade, que corresponde a 20% do turismo global e movimenta 600 bilhões de dólares. No Brasil, recebemos 10 milhões de visitantes, movimentando 3 bilhões de reais só nas Unidades de Conservação Federais.

O Cerrado cobre um quarto do território brasileiro e abriga as nascentes das principais bacias hidrográficas da América do Sul. Apesar de exaltarmos a savana africana, o Cerrado é muito mais diverso do que ela. Toda essa diversidade, de lobos-guará a emas, de chuveirinhos a ipês, enche os olhos e atrai visitantes.

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Diversos centros urbanos se desenvolveram dentro do Cerrado. As cidades de Brasília, Goiânia, Campo Grande, Uberlândia e Ribeirão Preto estão localizadas no Cerrado, estimulando a formação de uma malha viária e a implantação de aeroportos. A presença dessa população interessada em conhecer o entorno das cidades, e a acessibilidade proporcionada pelos transportes inseriram o Cerrado no roteiro turístico nacional.

Há diversos destinos turísticos já famosos nacional e até internacionalmente no Cerrado. Os atrativos vão desde a contemplação meditativa do paralelo 14 na Chapada dos Veadeiros (GO) até os esportes de aventura da Chapada Diamantina (BA) ou o contexto histórico da Chapada dos Guimarães (MT). Das paisagens quase desérticas do Jalapão (TO) à profusão de rios de Bonito (MS).

Ambientes naturais como o Cerrado prestam diversos serviços ao homem. São os chamados serviços ecossistêmicos, como provisão de água potável, regulação do clima e formação dos solos. Incluso aí estão os serviços culturais, relacionados à recreação e ao bem-estar humanos. As atividades de turismo de natureza são uma representação clara dos benefícios que os serviços culturais proporcionam à sociedade, trazendo desenvolvimento econômico e benefício humano com o bioma preservado.

A Biofilia propõe uma conexão intrínseca entre o homem e a natureza que nos faz apreciar ambientes preservados e elementos naturais. Uma série de evidências sustenta essa teoria. Doentes internados recuperam-se mais rápido em quartos com vista para um jardim do que nos com vista para a cidade. Os sintomas de ansiedade, depressão, diabetes e hipertensão diminuem em pessoas expostas à natureza. Eventos traumáticos, tal qual a pandemia de COVID, elevaram a procura por áreas naturais. No Japão e na Finlândia, os “banhos de floresta” são recomendações médicas. Próximo a Brasília há um espaço dedicado ao banho de Cerrado no Sítio das Neves. O contato com a natureza nos faz bem física e mentalmente.

O turismo também beneficia a natureza. A preferência dos visitantes por áreas com maior diversidade e conservação estimula sua proteção. Áreas com intenso apelo à opinião pública, como a Chapada dos Veadeiros, cativaram uma legião de turistas que as defendem a cada conflito fundiário ou incêndio. 

A visitação de áreas naturais promove um senso de pertencimento e respeito que elevam a consciência ambiental promovendo comportamentos mais responsáveis.

As comunidades locais também se beneficiam com o turismo. O ecoturismo na Chapada dos Veadeiros aumentou consideravelmente os índices de qualidade de vida da população de Alto Paraíso e Nova Roma, especialmente no que diz respeito à escolaridade, renda, mortalidade e desigualdade social. Todo este desenvolvimento está diretamente atrelado à conservação do Cerrado.

Por outro lado, o turismo intenso leva a impactos ambientais. Se ele não for bem planejado e manejado, o que atrai os visitantes pode ser perdido. Minimizar os impactos do turismo de natureza é fundamental para sua sustentabilidade. 

Planejamento, cuidado com resíduos produzidos e respeito à vida selvagem são algumas boas práticas de iniciativas como a “Leave no Trace” (“Sem Deixar Rastros”) para melhorar o ecoturismo. Novas medidas seguem sendo pesquisadas, inclusive por nosso laboratório, como o controle do número de visitantes e indicadores comportamentais de impactos do turismo. A intenção é sempre promover um turismo sustentável e uma experiência rica, nunca limitar esta atividade.

O turismo beneficia o Cerrado, desenvolve a região e melhora a qualidade de vida do ecoturista e das comunidades locais, além de ajudar na conservação do bioma. Essa atividade precisa ser promovida, desde que de uma forma planejada e sustentável para que o Cerrado seja cada vez mais conhecido e valorizado.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Eduardo Bessa

    Professor da Faculdade de Planaltina da Universidade de Brasília e pesquisador do Comportamento Animal

  • Lucas Del Bianco Faria

    Professor da Universidade Federal de Lavras e Pesquisador de Pós-doutorado do Departamento de Ecologia da UnB

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