Análises

Um olhar sobre 36 anos da Mata Atlântica – o que aconteceu entre 1985 e 2020 e para onde vamos

O bioma mais impactado pela presença humana ao longo de toda a história do país permaneceu com intensa transformação do seu território nas últimas 3,5 décadas

Luís Fernando Guedes Pinto · Marcos Rosa ·
27 de outubro de 2021

A rede colaborativa Mapbiomas lançou em agosto a sua sexta coleção, com dados sobre o uso da terra no Brasil entre 1985 e 2020.  A nova coleção aprimorou a anterior com uma legenda ainda mais detalhada, que passa a distinguir 25 categorias de uso da terra. As análises foram feitas com mapas de referência de maior resolução e com aprimoramentos no processamento de dados. 

Para a Mata Atlântica há um maior detalhamento das classes de vegetação nativa, com ajustes para a classificação das suas diversas formações florestais. Também houve melhorias na distinção de restingas, campos e savanas do bioma. Chegamos à uma acurácia de 90% para o primeiro nível de hierarquia da legenda dos novos mapas. Todos os dados, mapas, mosaicos de imagens, estatísticas por estados, bacias e municípios, mapas de referência e infográficos podem ser baixados na plataforma do Mapbiomas.

A coleção confirma que a Mata Atlântica é o bioma mais antropizado do país. Isto é, 69% do seu território está alterado pela presença humana, com o uso agropecuário, a construção de cidades e estradas substituindo a vegetação natural original. Desta, restou 31%, sendo 26% de formações florestais e o restante composto por campos e savanas.

Entre 1985 e 2020 houve uma significativa redução da área de pastagens, que diminuiu de 40 para 28,5 milhões de hectares. Por outro lado, a área de agricultura aumentou de 10 para 18 milhões de hectares e a de silvicultura (plantio de árvores exóticas), de 0,8, para 3,8 milhões de hectares. Como tudo no Brasil, são áreas imensas transformadas, que impactam a paisagem e os serviços ecossistêmicos em grande escala.

Estas mudanças foram mais intensas em alguns estados. Destaca-se a grande redução de pastagem e o aumento da agricultura no Mato Grosso do Sul e em São Paulo e o crescimento da silvicultura em Santa Catarina, no Paraná e na Bahia.

Embora os dados apontem para uma certa estabilidade da cobertura de florestas, com uma queda de 27% para 26%, este 1% perdido neste período corresponde a 1,3 milhões de hectares ou quase metade de Alagoas de florestas a menos. Embora a taxa de desmatamento tenha caído significativamente nestas 3,5 décadas, ainda perdemos uma média de 30 mil hectares de florestas da Mata Atlântica por ano, o que é muito para o bioma mais ameaçado do Brasil. 

Além disso, esta área praticamente estável de florestas oculta uma dinâmica preocupante. A perda líquida de 1 milhão de hectares ente 1985 e 2020 é resultado da perda de 10 milhões de hectares de florestas maduras e da regeneração de 9 milhões de hectares de florestas jovens. Estamos perdendo as matas que abrigam as espécies mais raras e ameaçadas e que tem o maior estoque de carbono e substituindo por florestas jovens, que são muito importantes, mas podem demorar muitas décadas para recuperar uma qualidade próxima das florestas mais antigas. E grande parte das florestas jovens ainda são cortadas antes de atingirem a maturidade.

Os novos dados esclarecem esta dinâmica ao longo do tempo e do espaço. Entre 1990 e 2000 houve uma perda de 670 mil ha de florestas, com perdas em quase todos os estados, liderados pelo Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Entre 2000 e 2010 houve um ganho de vegetação de 570 mil ha e podemos batizar esta como a década da recuperação das matas do bioma. O ganho ocorreu em muitos estados, com destaque para Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Espírito Santo. As perdas líquidas mais relevantes ocorreram somente na Bahia, Ceará, Paraíba e Santa Catarina. Porém, infelizmente a tendência de recuperação se reverteu na década seguinte – 2010-2020 – quando perdemos 190 mil hectares. A perda do bioma foi resultado de estados que voltaram a ter grandes taxas de desmatamento (Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Piauí), que comprometeram a pequena recuperação que aconteceu em todos os outros estados. O destaque ficou para São Paulo, que manteve uma alta taxa de recuperação das florestas nas duas últimas décadas.   

Os dados da cobertura florestal por bacia hidrográfica mostram que a estabilidade de vegetação nativa em um bioma muito devastado é insuficiente para preservar e recuperar os serviços ecossistêmicos. Há bacias com cobertura florestal menor que 25% e diversas que tiveram diminuição da cobertura florestal entre 1990 e 2020. A bacia do Paraná (muito importante para o abastecimento de água de muitas cidades e para a geração de eletricidade) teve redução da área de florestas de 24% para 19% entre 1990 e 2020.

A baixa cobertura florestal ocorre em bacias de regiões que tem atravessado crises hídricas e risco de baixa produção de hidroeletricidade, como dos rios Grande e Tietê, ambas com apenas 20% de cobertura florestal e, portanto, mais vulneráveis aos períodos de secas extremas ou menor precipitação, que serão cada vez mais intensos e frequentes. A estabilidade da cobertura florestal em um período em que houve aumento da população e do consumo de água para abastecimento, geração de energia, aumento da produção agrícola e do consumo de água para irrigação não é suficiente para garantir a segurança hídrica. É necessária uma política de incentivo e planejamento de ações para restauração de floresta em áreas de nascentes e no entorno dos rios.

Os novos dados revelam que pelo menos dois terços das florestas perdidas entre 1985 e 2020 estavam em terras privadas, apesar da proteção da Lei da Mata Atlântica e do Código Florestal, com um possível duplo desrespeito à legislação de grande parte destes desmatamentos. Metade dos remanescentes florestais atuais encontram-se nessas terras privadas e os dados mais recentes apontam que menos de 1% deles são responsáveis por desmatamentos. Isso indica que as estratégias de conservação e restauração da Mata Atlântica deve envolver um diálogo e parceria com os produtores.

A boa notícia é que houve um ganho de 3% da vegetação nativa em áreas protegidas, que abrigam 11% da vegetação nativa do bioma. Isto confirma a importância e a eficácia das terras indígenas e das unidades de conservação para a proteção da biodiversidade e a sua importante contribuição para combater o aquecimento global.

Em resumo, o bioma mais impactado pela presença humana ao longo de toda a história do país permaneceu com intensa transformação do seu território nas últimas 3,5 décadas. Esta modificou a sua paisagem, que repercute na região mais densamente habitada do Brasil e onde a relação natureza-humanidade é mais intensa. E a trajetória destes últimos anos aponta que para atingir um destino seguro é necessário inteligência territorial, conservação da vegetação atual e um planejamento da conservação.             

A maioria dos sinais internacionais apontam para oportunidades para a sua restauração (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Década da Restauração, Acordo de Paris, Convenção da Biodiversidade e muitos outros). Além disso, isto é uma necessidade para o Brasil enfrentar um planeta com clima cada vez mais instável e imprevisível. E, apesar de também termos uma governança formal estabelecida para conduzir ao fim do desmatamento e à recuperação em grande escala da vegetação nativa da Mata Atlântica, seu futuro ainda depende da vontade política e do compromisso do governo federal e dos governos estaduais e dos agentes de mercado que influenciam a economia e o uso da terra na região. 

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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