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Como o olhar de um morto

No fim da seca que esvaziou uma barragem no Utah, o americano James Kay fotografou um cânion submerso há meio século. O resultado é um belo nó no estômago.

16 de setembro de 2005 · 20 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

“Eu me sinto como se estivesse viajando de volta através do tempo à medida que contorno mais uma volta da garganta Davis, um tributário do rio Escalante, no sul do Utah”, conta o fotógrafo americano James Key. Ele é um especialista no assunto. Lá vão mais de 30 anos que saiu de Nova Jersey, na costa leste, atravessou os Estados Unidos de ponta a ponta e foi estudar engenharia mecânica em Salt Lake City. Quando terminou a faculdade, a paisagem da região havia transformado Key num fotógrafo de natureza. Bom fotógrafo, por sinal, como se pode ver em seu site.

Mas ele está aqui por causa da viagem que fez este ano a um cenário perdido há quase meio século, quando o Glen Canyon, arrolhado por 10 milhões de toneladas de concreto, submergiu no lago Powell. Quando Key chegou ao Utah como estudante, o cânion estava afundando. Dele só viu, na época, as fotografias de Eliot Porter e outros paisagistas de primeira grandeza, que tentaram mostrar aos americanos, enquanto era tempo, o que eles estavam enterrando em 20 metros de água.

Sua primeira visão do Glen Canyon, lembra ele, foi da borda de um ancoradouro, de onde “as paredes a prumo de pedra-sabão vermelha saindo verticalmente da água incrivelmente azul”. Era coisa do passado. Só em meados dos anos 90, tendo virado de alto a baixo os desertos esculturais das redondezas, Kay passou a sentir falta dos cenários que, para ele, nunca existiram.

No livro de Porter, feito na década de 60, ele encontrava “páginas e mais páginas de cânions condenados”, ressoando em nomes como Templo da Música, “por causa da acústica maravilhosa de sua vasta câmara subterrânea”, Passagem Secreta, “pela entrada quase invisível que desaguava no rio Colorado”e, sobretudo, a Catedral no Deserto, tida como um lugar mágico nas entranhas da terra.

“Minha amiga Maxine Bounous tinha explorado a Catedral antes da inundação”, escreve Key, . “Ela uma vez me disse que a catedral ficava a pouca distância do baixo rio Escalante, ao longo de um belo riacho entre flores”. Foi atrás dessa informação que ele saiu, há pouco mais de seis meses, quando cinco anos de invernos anêmicos nas Montanhas Rochosos, seguidos de verões sem chuva, drenaram o lago Powell. Seu nível havia baixado 45 metros. Nessa cota, a porta da Catedral reabriu. E Key visitou-a com a mulher, num barco inflável, com o equipamento fotográfico a bordo.

E o resultado é espantoso. Ele esperava encontrar lá embaixo um entulho lodoso, num terreno onde a luz do sol não entrava havia trinta e tantos anos. Mas, “cada nova curva das paredes do cânion revelava uma série de canteiros de plantas que reconquistam o chão redescoberto”. Lá dentro, no fundo da Catedral, corria de novo uma cachoeira.

“Eu tinha visto aquela cena tantas vezes, mas só em fotografias bidimensionais”, diz ele. “Agora, lá estávamos nós, como se olhássemos nos olhos de um amigo morto há tempos”. Adiante, ele chegou ao ponto onde o fotógrafo Philip Hyde tinha “feito sua célebre imagem da Catedral em 1964, quando as águas do reservatório já estavam subindo”. Foi, ele afirma, “a experiência mais forte de minha vida profissional – armar meu próprio tripé e criar as minhas próprias fotografias naquela câmara luminosa e resplandecente”.

Mas o que é bom dura pouco. A neve voltou a cair no último inverno. Na primavera americana, as enxurradas do degelo cresceram 125% e as águas do lago Powell voltaram a subir quase meio metro por dia. Quando Kay pôs o ponto final na reportagem, o volume da represa já havia subido 9 metros. Kay acabara de fazer, com um nó no estômago, o flagrante de uma ressurreição que durou pouco.

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