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Até tu, Leonardo DiCaprio?

Todo mundo tem o direito de não gostar de “A Última Hora”, o filme de Leonardo DiCaprio sobre o aquecimento. Mas é bom ter um ator gastando tempo e dinheiro com o assunto.

14 de novembro de 2007 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

A pergunta veio, sem aviso, por ligação interurbana: “Não acha que é pura mania de imitação, as pessoas aqui no Rio Grande do Sul pararem de jogar o palito do picolé na praia depois de ver um filme americano?”

O americano, claro, só podia ser Al Gore, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos que ganhou o premio Nobel da Paz este ano. E o filme, seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, que pendurou na internet uma vasta penca de histórias como a de Charles Whitwam, o dono de uma transportadora que agora usa biodiesel em seus caminhões, e Gary Durnham, o cético de Nashville que, aos 71 anos, passou a bater de porta em porta na cidade, como pregador ambiental.

Heróis Climáticos

Whitwam e Durnham pertencem a sua lista de “heróis climáticos”, gente que se converteu à conservação dos recursos naturais depois de encarar na tela a tal verdade inconveniente. Eles provam que não é preciso ser brasileiro para imitar americano. Logo, todo gaúcho que deixou de jogar na praia o palito do picolé depois de ver o filme estava em boa companhia, para enfrentar o debate promovido dias atrás pela rádio Guaíba, de Porto Alegre. Mas, apanhado de surpresa, com o locutor avisando que o telefonema estava no ar, a saída foi sair pela tangente: “Americano por americano, é melhor imitar um Al Gore do que um George W. Bush”.

A resposta seria ainda mais fácil se a pergunta chegasse no fim do mês, com o lançamento de “A Última Hora”, próxima atração da temporada de catástrofes climáticas. Como filme, ele está longe de ter o peso do depoimento de Gore. Em compensação, juntou tanta autoridade ambiental, espremendo em poucas palavras o que cada um levou uma vida inteira argumentando, que a produção de Leonardo di Caprio parece um trailer de uma hora e meia. O espectador sai do cinema de cabeça quente, mas convencido de que o filme propriamente dito virá depois.

Alerta político

A leveza fica por conta do próprio Leonardo di Caprio, que aparece pouco, e falando aquilo que qualquer um é capaz de entender. Por exemplo, que é preciso cuidar do planeta simplesmente para que ele continue a ser bonito. Nada pode ser mais urgente para a saúde da terra do que todo mundo aprender que o aquecimento global não é matéria de debate acadêmico, mas de alerta político. E isso um ator famoso faz melhor, pelo exemplo, do que ninguém. Sem contar que, fora os outros trunfos, Leonardo di Caprio pode passar no Brasil por uma espécie de gaúcho honoris causa,depois do namoro com Gisele Bündchen. Tem uma certa afinidade natural com quem resolve não jogar palito de picolé nas praias do Rio Grande do Sul.

Seu filme desembarca no Brasil escoltado pela Fundação Boticário e o Instituto Akatu, que o ajudam a entrar diretamente na comunidade ambientalista. Tem um impressionante elenco de cientistas e militantes. Conjura tempestades, enchentes, furacões, degelos e outros fantasmas climáticos em seus noventa e seis minutos de projeção. Dá mais conselhos e nomes do que é possível guardar. Anuncia uma “convergência de crises”, produzindo daqui para a frente 150 milhões de “refugiados do clima”.

Mas não é bem um filme sobre o fim do mundo, embora o invoque o tempo todo. Seu verdadeiro enredo é o fim do governo Bush e a era em que a política americana voltou a ser movida pelo petróleo. Prova que ainda por baixo do oficialismo ainda existe nos Estados Unidos uma sociedade capaz de pensar o contrário do que Washington anda dizendo.

Por esse ponto de vista, é um manifesto otimista. E não deixa o público sair da platéia com a impressão de que a luz nunca mais vai acender no fim do espetáculo. Termina com crianças colhendo nas mãos a água limpa da chuva e o convite de Leoonardo di Caprio para se fazer alguma coisa por “este singular planeta azul”. E isso acaba sendo o que ele tem de mais persuasivo.

E sempre é melhor ter um Leonardo di Caprio na mão do que dois ornitólogos voando. Os problemas do meio ambiente estão ficando complicados demais para ser assunto só de ambientalistas. Pode lhes fazer bem um pouco de ar livre. Não custa lembrar que foi pintor chamado George Catlin quem inventou no século 19 os parques nacionais, provavelmente a idéia mais prática que o mundo já teve sobre conservação da natureza. Os naturalistas vieram depois, com seus planos de manejo.

Dois filmes sobre aquecimento global no mesmo ano são um sinal de que as coisas estão mudando – como a procissão de anúncios que mostram, quase diariamente, a adesão de bancos, fábricas de automóveis ou companhias aéreas ao seqüestro de carbono. Pode-se até desconfiar dos interesses que essa propaganda tem por trás. Mas isso também se pode dizer até dos discursos da ministra do Meio Ambiente – que, aliás, anda mesmo meio calada.

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