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Proteger o quê?

Ambientalistas radicais e vegetarianos protestam diante de qualquer proposta de liberação da caça. Não entendem que o manejo da fauna é benéfico e desejável.

11 de janeiro de 2006 · 20 anos atrás
  • Maria Tereza Jorge Pádua

    Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Nat...

É difícil de acreditar que pessoas de boa fé, que querem ajudar a proteção de nossa fauna silvestre, podem prejudicar exatamente o que tanto lutam para salvar, por falta de correta informação ou de suficiente conhecimento do tema. Um ótimo exemplo é o da liminar que foi concedida à ação pública visando proibir a caça amadorista no estado do Rio Grande do Sul. Decisão judicial não se discute, cumpre-se. Pena que organizações não-governamentais tenham provocado tal decisão judicial proibindo a caça amadorista de algumas espécies de aves em um estado que a vem praticando, de acordo com a legislação vigente, há décadas.

O argumento de que a caça é feita por pessoas insensíveis e truculentas é ridículo. Por exemplo, os grandes especialistas em conservação da natureza, em sua maioria, são ou foram caçadores ou pescadores. A caça bem manejada pode trazer e traz benefícios econômicos irrefutáveis para muitas regiões e países. Ajuda a manter a cobertura vegetal natural e protege ecossistemas de forma sustentável.

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O próprio exemplo do Rio Grande do Sul é elucidativo. Se ainda existem banhados naturais ou semi-naturais por lá, de que a fauna tanto necessita, em especial as aves, é graças à caça amadorista, pois os proprietários ganham muito dinheiro alugando as suas terras para o esporte da caça. Preferem fazê-lo porque é mais rentável que drenarem os banhados e plantar arroz, o que seguramente arrasaria muito mais com a fauna silvestre. Às vezes, sem se dar conta, os ambientalistas radicais estão favorecendo os grandes rizicultores e a destruição da fauna que eles pretensamente protegem. Talvez o lobby dos grandes produtores agrícolas seja muito bem feito…

O que sempre precisa ser dito e repetido, é que nada é pior para a sobrevivência da fauna silvestre do que a destruição de seu habitat. Ou alguém acha que a fauna vai viver em grandes extensões de monoculturas como o arroz ou as pastagens cultivadas?

O outro argumento, de que o Ibama não consegue fiscalizar a caça, é verdadeiro. Mas, no caso do Rio Grande do Sul, o Ibama sempre fez convênios com as instituições estaduais para a fiscalização. Lá, a caça até 2004 ocorreu sem problemas significativos e as espécies permitidas para este esporte nunca estiveram em depleção populacional. Ao contrário, a caça bem manejada cientificamente as favoreceu.

Abate necessário

O que os salvadores dos animais selvagens precisam entender é que o manejo da fauna é necessário em muitas condições, já que a interferência das atividades humanas muda a capacidade de suporte dos ecossistemas naturais. Assim, podem ocorrer superpopulações de alguns animais que precisam ser controladas, ou acontecem introduções de animais em determinados ambientes ou áreas protegidas onde não ocorriam.

É o caso do teiú em Fernando de Noronha. Este bicho introduzido prejudica as espécies autóctones da ilha, em especial as aves, pois depreda seus ovos. Neste caso, como em tantos outros, a única solução cabível é a eliminação do teiú, mas as autoridades não têm a necessária coragem de permitir seu abate. O mesmo é verdade para os búfalos, que embora sejam domésticos estão infernizando a vida dos responsáveis pelo manejo da Reserva Biológica do Guaporé, em Rondônia, e prejudicando os ambientes naturais.

Os argumentos dos vegetarianos são como os argumentos de fé religiosa, ou seja, não são discutíveis. São dogmas. O fanatismo que movimenta alguns vegetarianos é comparável ao que alimenta o terrorismo. Só traz prejuízos para a espécie humana e para seus companheiros de viagem no planeta Terra. Radicais desta espécie não comem carne porque ela é proveniente de seres vivos. Ora, os vegetais também são seres vivos.

Na verdade, pouquíssimos países do mundo proíbem a caça amadorista, entre eles o Brasil. No nosso caso não é tanto por causa da falta de oportunidades para um bom manejo técnico, mas sim principalmente pela covardia de autoridades e pelo clamor daqueles ingênuos que julgam estar colaborando para a preservação da biodiversidade se conseguem que nenhum tiro seja dado. Deviam então lutar contra as enormes máquinas agrícolas, os correntões. Estes sim aniquilam tudo, para plantar o que os vegetarianos tanto usam: a soja ou o arroz.

Incrível ainda é ver tanta gente, entre eles muitos protetores de animais e outros tantos vegetarianos, propugnando pelo abate de capivaras por causa da febre maculosa. Abate este que não resolveria problema algum, como explicou Carolina Elia neste mesmo veículo, pois o carrapato estrela está em outros animais e até em animais domésticos como cavalos e cães. Outros julgam que abater as aves silvestres acabaria com o risco de pandemia da febre aviária, ou que limpar “o mato”, eufemismo para dizer desmatar, pode evitar a leptospirose e o antivírus, transmitidos por ratos doméstico e silvestre respectivamente. Esquecem seus princípios e, também, que se essas doenças chegaram às nossas cidades é porque se destruiu seu ambiente natural.

Como então entender que quando os animais silvestres oferecem algum risco para a saúde humana se admite seu abate, e quando é preciso manejá-los através da caça, amadorista ou não, se provoca tanta indignação?

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