Colunas

Meu amigo ausente, do meio ambiente

Márcio Moreira Alves foi meu primeiro parceiro na questão ambiental. No colunismo, olhava para o país que a grande imprensa raramente olha, o Brasil profundo.

8 de abril de 2009 · 15 anos atrás
  • Sérgio Abranches

    Mestre em Sociologia pela UnB e PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell

A primeira vez que me envolvi com meio ambiente foi na Rio 92. Por causa do meu amigo Márcio, parceiro em um escritório de consultoria, que dava mais prazer de convivência que dinheiro. Ele sempre dizia “o dinheiro acaba aparecendo”. Aparecia, nunca abundante, mas salvando no último minuto. Márcio Moreira Alves era um “buscador de causas” e logo percebeu que a causa ambiental estava entrando para sempre na agenda política. Fomos conversar com outro amigo e “causeiro”, o Betinho, já envolvido na questão ambiental, no Ibase, e que oferecia os primeiros acessos à Internet. Quem disse que visionários não têm o pé na terra e a mão na tecnologia? Os dois tinham, Betinho bem mais que Márcio.

Ele nos disse que se estávamos entrando no tema só para aproveitar a onda, estávamos errados, se era porque acreditávamos na causa, daria trabalho e nunca mais ela nos largaria. Entramos, por convencimento, porém, por razões diversas, de diferentes demandas de nossas vidas, acabamos não formando a ONG que planejáramos. A questão ficou em nossas agendas. Márcio escreveria sobre ela em várias colunas, na época em que estava ensaiando o colunismo, sem ter ainda conseguido um contrato para retornar ao jornalismo profissionalmente. Ele estava obstinado a fazê-lo e durante longo tempo publicou gratuitamente seus artigos, fazendo uma única demanda: que saíssem sempre no mesmo dia e no mesmo local, para ajudar a criar nos leitores o hábito de lê-lo. Como se precisasse. Finalmente, foi contratado para escrever para O Globo e produziu seus “sábados azuis”, nos quais o meio ambiente foi personagem muitas vezes. Essas colunas são exemplo de bom ofício e da possibilidade de um jornalismo que olhe para todo o Brasil.

A primeira vez que vi o Márcio eu era secundarista, em Brasília, e ele deputado, antes da cassação e do exílio. Marchava, junto a outros poucos parlamentares jovens de oposição, à frente de uma passeata de estudantes, que acabou em pancadaria. Os estudantes mais politizados o conheciam e o apontavam para os outros. Era um ícone, já, antes de se tornar, como ele diz em seu discurso, um símbolo transcendente à pessoa, da liberdade de expressão e da liberdade. Naquele dia, ele saiu ensopado pelos jatos de água da repressão e mais herói ainda aos olhos dos estudantes.

Sempre recordo o discurso que ficaria famoso, quando lembro dele fora da política. Quem o conhecia bem sabe que ele praticava ao exagero a liberdade de expressão. Era um “gaffeur” de marca maior. E muitas de suas gafes eram cheias de verdade. Falador de verdades às vezes escandalosas, como se fossem tiradas de inocente, de quem está acima do bem e do mal. Como no memorando que escreveu sobre a mulher do chanceler de Cuba, em visita ao Rio, quando era secretário de Relações Internacionais do governo do Estado, no qual a descrevia como uma mulata exuberante, como as baianas, que bebia muita caipirinha, gostava de dançar e de muita farra, ou algo assim. Sugeri que não deixasse circular o “memo” porque, se chegasse à imprensa, poderia causar um incidente diplomático. Quando encontrei a mulher do chanceler, era como se já a conhecesse, porque era exatamente como Márcio a descrevera.

Eu vi o Márcio se recriando como colunista. Vi a disciplina com que ele escrevia seus artigos, cuidando para que fossem publicados sempre no mesmo dia, semanalmente. Vi como trilhou com humildade esse longo caminho até o colunismo, já autor de vários livros publicados, numa trajetória tão bem conhecida, talento reconhecido e inegável. Quando olhava para Brasília e para a política, o fazia com a mesma mordacidade e a mesma visão crítica que já exercia na época da ditadura. Mas, para mim, o ápice dessa caminhada foram mesmo os seus sábados azuis. Márcio foi o primeiro a olhar para o Brasil que o Brasil não quer ver. A desviar o colunismo político da mediocridade da vida brasiliense para esse país que palpita, cria, experimenta, busca e, muitas vezes, dá certo, mesmo quando o conjunto vai mal.

Quase não pudemos conversar sobre meu envolvimento cada vez maior com o meio ambiente. Um dia, seu corpo seqüestrou sua mente e seu espírito. Mas podia ver como seus olhos brilhavam, quando falava para ele de viagens à Amazônia. Era como se seu espírito prisioneiro dissesse: “não falei que era a pauta que nunca mais deixaríamos?”.

Na sexta-feira (3 de abril), longe de casa, fiquei sabendo que Márcio havia morrido. Sem muito recurso e ciente de que só poderia vê-lo já envolto na bandeira do Brasil, na Assembléia Legislativa, enviei um torpedo aos amigos comuns e coloquei também no Twitter: “Hoje se apagou definitivamente a inteligência fulgurante do bem de Márcio Moreira Alves. Le rouge doux. Marcito. Amigo. Vida bem vivida”.

Quem usou a expressão “Marcito Le Rouge” foi Paulo Caruso, numa das ilustrações a uma entrevista de Márcio ao programa Roda Viva (TV Cultura), já não lembro quando. Márcio adorou. Pus o “doux” porque ele era assim, capaz de grande solidariedade e doçura com os amigos, especialmente nos momentos mais difíceis. Um amigo tão generoso com os amigos, quanto implacável com os poucos inimigos; e estes, sempre por boas causas. Desses amigos que não sabem dizer não. Que elogiam os amigos para muito além do que eles merecem. Ser um “rouge doux” pode não ser bom para vinhos, mas é bom para pessoas.

Em carta de 1966 a Frei Beto, lida por ele em seu velório, Márcio falava sobre sua vida pessoal, hedonista, e sua vida política, ambiciosa, como complicações para que pudesse dar seu testemunho de fé. Ele era mesmo essa mistura de hedonismo e engajamento. Sua passagem por Cuba foi muito marcante. Tanto, que decidiu mostrá-la ao neto Diogo, por quem era apaixonado, pouco antes de ser colhido e tolhido definitivamente pelas moléstias que o levaram. Ele gostava de contar que, quando deixou Cuba, os trabalhadores da fábrica de charutos que estudou e na qual trabalhou furtaram o ônibus que os transportava ao trabalho, para levá-lo ao aeroporto, quebrando várias leis, o que no regime duro de Cuba poderia lhes valer a prisão. Além de usar o ônibus indevidamente, estavam todos embriagados, tocando, cantando e dançando ruidosamente, em horário vedado. Transgressão e farra, mas eram todos revolucionários. Esse era o Márcio.

Márcio namorou a morte várias vezes e conseguiu espantá-la. Ela só o pegou, quando seu espírito seqüestrado por um corpo debilitado convenceu-o a aceitar o convite imperioso. Ainda assim, sempre libertário, lutou por anos, imaginando ser possível libertar sua mente daquela limitação imposta pelo cérebro e pelo corpo enfraquecidos. Uma luta desigual como muitas que teve vida afora. Mas, sem a plenitude do espírito indignado, foi levado pelo “anjo que a todos nós virá buscar”, cuja asa havia roçado sua cabeça em 7 de setembro de 1999, como conta na abertura de seu livro “Sábados Azuis: 75 histórias de um Brasil que dá certo”. Ele conseguiu, então, negociar um adiamento para esse encontro inevitável. Na explicação para a coletânea de colunas, que chamou “A Visita do Anjo”, conta que quando “o anjo passou por mim, estava fazendo o que mais gosto: aprendendo coisas positivas sobre o Brasil”. E terminava prometendo “tentarei aproveitar o adiamento da visita do anjo para fazer isso”. É a confissão de que havia mesmo negociado outra data para esse encontro. Deu as mãos ao anjo inevitável, quando seu corpo já não lhe permitia mais aprender e fazer aquilo de que mais gostava.

Em uma bela crônica sobre a amizade, Vinícius de Moraes diz que “a gente não faz amigos, reconhece-os”. Foi assim comigo e Márcio. Nos reconhecemos como velhos amigos, desde a primeira conversa. Diz o Vinícius que “se um deles [amigos] morrer, eu ficarei torto para um lado”. Márcio me deixou torto para um lado na sexta, 3 de abril de 2009.

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