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A construção da identidade ambiental da Juventude Amazônida

Consolidar uma identidade ambiental entre os jovens da Amazônia Legal torna-se, portanto, uma tarefa que ultrapassa o campo simbólico e alcança a esfera da governança territorial

26 de março de 2026
  • COJOVEM

    Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável

  • Wagner Cardoso

    Ativista científico e educador nas áreas de ciências ambientais e biológicas, com especialização em Cultura Amazônica, Educação Ambiental e Sustentabilidade.

A Amazônia Legal vive um dos paradoxos sociopolíticos mais profundos do Sul Global. No imaginário internacional, a região ainda é frequentemente representada como um grande contínuo de floresta intocada. A experiência cotidiana de quem vive no território revela uma realidade distinta. A Amazônia contemporânea é amplamente urbana, com cidades de diferentes portes organizando a vida social, econômica e cultural da região, processo que diversos pesquisadores descrevem como urbanização da floresta. É nesse cenário que a juventude amazônida constrói sua percepção de pertencimento, sua leitura do território e sua relação com as crises ambientais que atravessam o bioma.

Os dados do relatório Jovem 2025 do Instituto  COJOVEM evidenciam essa realidade ao indicar que cerca de 79,5% dos jovens da Amazônia Legal se reconhecem primeiramente como amazônidas. Esse forte vínculo simbólico convive com um paradoxo estrutural, pois aproximadamente 86,7% dessa juventude declara desconhecer as políticas públicas ambientais que orientam a gestão do bioma. Forma-se assim uma identidade territorial intensa no plano cultural, mas frágil no campo da participação institucional. O pertencimento alimentado por memórias e vivências cotidianas ainda não se converte plenamente em identidade ambiental politicamente estruturada, o que evidencia a dificuldade de transformar reconhecimento territorial em capacidade de incidência pública.

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A identidade ambiental pode ser compreendida como a dimensão do sujeito construída na relação com o mundo natural, envolvendo valores, percepções e responsabilidades que orientam a forma como o indivíduo interpreta sua posição no ecossistema. Trata-se de um processo que conecta experiência territorial, cultura e ação política e que, quando consolidado, orienta comportamentos coletivos e influencia decisões públicas relacionadas ao meio ambiente.

Na Amazônia Legal essa construção pode ocorrer em um contexto marcado por tensões históricas. As formas contemporâneas de ambientalismo apontam o risco de que a identidade ambiental seja capturada por uma lógica superficial de consumo verde baseada em narrativas midiáticas e escolhas individuais que pouco alteram as estruturas de poder que pressionam os territórios. Essa abordagem transforma a ecologia em estilo de vida e desloca o debate ambiental para o campo do comportamento individual, ignorando as dinâmicas econômicas e políticas que organizam o uso da terra.

Para a juventude amazônida que cresce em cidades inseridas em um dos maiores biomas tropicais do planeta, essa leitura é insuficiente. O território aparece como base material da vida social. A relação com o ambiente atravessa o cotidiano urbano por meio do clima, da presença dos rios, da dinâmica das chuvas e da pressão exercida por grandes projetos econômicos sobre áreas florestais. Nesse contexto, a identidade ambiental tende a surgir menos como escolha simbólica e mais como resposta concreta às transformações do território.

Essa percepção torna-se evidente quando observamos que cerca de 73,3% da juventude da Amazônia Legal afirma perceber a diminuição da cobertura vegetal em suas cidades. O dado revela uma transformação no suporte ecológico que sustenta a vida urbana no bioma. A redução de árvores, a expansão do asfalto e o desaparecimento de áreas verdes intensificam a formação de ilhas de calor e reduzem a capacidade das cidades de regular temperatura, umidade e ventilação.

Belém, a cidade sede da COP 30. Foto: Roberto Grafiteiro/Wikipédia.

O resultado é um ambiente urbano progressivamente mais hostil para quem o habita. A perda do verde urbano deixa de ser apenas uma mudança paisagística e passa a representar um fator concreto de injustiça climática, pois a vegetação desempenha funções essenciais na regulação térmica, na retenção da água da chuva e na qualidade do ar. Quando essas estruturas desaparecem, os impactos recaem com maior intensidade sobre populações que vivem nas periferias urbanas.

Nesse contexto, a identidade ambiental amazônida começa a se estruturar a partir da experiência direta com as mudanças do território. A paisagem que organiza a memória coletiva das cidades é progressivamente substituída por formas urbanas que ignoram as características ecológicas da região. A floresta deixa de ser percebida apenas como elemento distante e passa a ser compreendida como parte do equilíbrio climático das próprias cidades.

Essa leitura aproxima o debate das reflexões de Antônio Bispo sobre a interação biocultural. Para o autor, os territórios são sistemas vivos de relações nos quais natureza, cultura e modos de vida se entrelaçam continuamente. A floresta, os rios e as comunidades humanas formam um tecido relacional sustentado pela convivência e pela reciprocidade. Quando esse princípio é aplicado às cidades amazônicas, torna-se possível compreender que a degradação ambiental não afeta apenas a paisagem natural. Ela rompe vínculos culturais, altera práticas sociais e compromete formas históricas de habitar o território.

A urbanização da região elucida esse processo. Muitas cidades amazônicas cresceram a partir de modelos de planejamento que tratam a floresta como obstáculo e os rios como infraestrutura de serviço. Esse padrão possui raízes na história colonial da ocupação amazônica e permanece visível na expansão das áreas asfaltadas, na redução de espaços verdes e na canalização de cursos d’água que antes estruturavam a vida local.

Muitos desses projetos urbanos implementados na Amazônia foram inspirados em modelos de desenvolvimento importados de outras regiões do país, nos quais a presença da vegetação é frequentemente interpretada como atraso e a substituição do solo natural por infraestrutura rígida aparece como sinal de modernização.

Essa lógica de urbanização evidencia também a presença do racismo ambiental nas dinâmicas urbanas da região. Populações negras, indígenas, quilombolas e/ou periféricas costumam estar em áreas mais expostas a enchentes, calor extremo e precariedade de saneamento. Nessas regiões a ausência de planejamento ambiental adequado se soma à fragilidade das políticas públicas e transforma eventos climáticos intensos em situações recorrentes de risco social.

A juventude amazônida reconhece essa realidade em seu cotidiano e isto é apontado no relatório do Instituto, que indica que cerca de 61% dessa juventude afirma conviver frequentemente com conflitos socioambientais em seus territórios. Esses conflitos incluem disputas por terra e recursos naturais e também problemas urbanos relacionados ao lixo, à poluição dos rios e à expansão desordenada das cidades.

Entre esses fatores, a questão dos resíduos sólidos tornou-se um dos sinais mais visíveis da crise ambiental urbana. Estudos de 2025 sobre poluição hídrica indicam níveis alarmantes de presença de plástico nos sistemas fluviais amazônicos. O acúmulo de resíduos nos rios e canais urbanos funciona também como multiplicador de desastres climáticos, pois o plástico acumulado em igarapés e bueiros impede o escoamento da água durante períodos de chuvas intensas. 

Quando enchentes atingem bairros periféricos de cidades como Manaus, Belém ou Porto Velho, a água que invade as casas carrega resíduos e contaminantes e transforma o fenômeno climático em crise sanitária e social. É possível compreender essa dinâmica ao demonstrar que os impactos mais severos das mudanças ambientais recaem sobre populações historicamente excluídas da infraestrutura urbana e do saneamento básico. Nesse cenário, a juventude amazônida passa a ser moldada pela experiência concreta da crise, em que o calor das ilhas térmicas, o cheiro de rios poluídos e o risco constante de enchentes conectam diretamente a vida urbana às transformações do bioma.

Essa realidade revela que a cidade não pode ser tratada como espaço isolado do restante da Amazônia. Os rios urbanos fazem parte de uma rede hidrológica que conecta florestas, comunidades rurais e povos tradicionais. Quando resíduos plásticos são lançados em um igarapé urbano, o impacto ultrapassa imediatamente os limites da cidade e percorre toda a bacia hidrográfica, atingindo ecossistemas e populações distantes.

Consolidar uma identidade ambiental entre os jovens da Amazônia Legal torna-se, portanto, uma tarefa que ultrapassa o campo simbólico e alcança a esfera da governança territorial. O pertencimento cultural já está presente, mas o desafio consiste em transformá-lo em capacidade política de intervenção sobre os processos que definem o futuro do bioma.

Esse movimento exige superar a ideia de que a proteção ambiental depende apenas de atitudes individuais. A região concentra pressões econômicas intensas associadas à expansão agropecuária, à mineração, à exploração ilegal de recursos naturais e à implantação de grandes projetos de infraestrutura. 

Mesmo quando essas atividades ocorrem fora dos centros urbanos, seus efeitos chegam rapidamente às cidades por meio da poluição do ar, da contaminação dos rios e das mudanças no regime climático regional.

A mineração ilegal ilustra essa conexão entre processos distantes e consequências urbanas. Cerca de 19,7% da juventude identifica essa atividade como um dos principais problemas socioambientais do bioma. Embora ocorra majoritariamente em áreas remotas, o mercúrio utilizado percorre os rios da bacia amazônica e pode alcançar centros urbanos por meio da cadeia alimentar. Nesse cenário a juventude assume papel estratégico, é possível a nova geração que cresce nas cidades amazônicas viver simultaneamente nas dinâmicas urbanas contemporâneas e em contextos culturais que preservam memórias de convivência equilibrada com o território, essa posição permite que atue como ponte entre diferentes modos de compreender a relação entre sociedade e natureza.

Grande área de garimpo com dezenas de barracões na região do rio Uraricoera na Terra Indígena Yanomami. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Entretanto, para que esse potencial se concretize, é necessário enfrentar o afastamento entre juventude e governança ambiental. O fato de que 86,7% dos jovens desconhecem as políticas públicas ambientais revela uma falha estrutural na comunicação institucional e na educação política. A construção de uma identidade ambiental politicamente ativa depende da democratização do acesso ao conhecimento sobre gestão territorial e mudança climática. Programas educacionais, iniciativas de participação cidadã e processos de transparência institucional são fundamentais para aproximar a juventude das arenas onde se definem as políticas públicas.

Diante disso, a justiça climática precisa ser entendida como direito à participação. Garantir que a juventude influencie decisões relacionadas à arborização urbana, gestão de resíduos, proteção das matas ciliares e enfrentamento do racismo ambiental torna-se condição concreta para a continuidade da vida nas cidades amazônicas.

A vivência cotidiana da crise climática pela juventude urbana constitui um conhecimento empírico fundamental. As estratégias de adaptação da Amazônia precisam nascer da realidade de quem vive no território. O desafio consiste em transformar pertencimento em incidência política capaz de influenciar políticas públicas e redefinir modelos de desenvolvimento. Se esse processo se consolidar, a Amazônia poderá contar com uma geração que não apenas defende o bioma, mas também propõe novas formas de organizar a relação entre sociedade, território e clima. O futuro da região depende da capacidade de transformar o forte vínculo identitário revelado pelos dados do Instituto Cojovem em força política capaz de redefinir o próprio sentido de progresso e incidir nessa confluência.

Referências

AMAZÔNIA jovem 2025: as vozes das juventudes amazônidas na luta climática. 1. ed. Belém, PA: Instituto CoJovem, 2025.

KOCH, Rodrigo; ANDRADE, Maria Eduarda Moraes. A identidade ambiental na pós-modernidade. Cadernos Zygmunt Bauman, [s. l.], v. 14, n. 31, p. 49-69, 2024. ISSN 2236-4099.

BELMONT, Mariana (org.). Racismo ambiental e emergências climáticas no Brasil. São Paulo: Instituto de Referência Negra Peregum; Oralituras, 2023.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora; Piseagrama, 2023.

CARDOSO, Ana Claudia Duarte. E a adaptação da Região Metropolitana de Belém às mudanças climáticas, como fica? [S. l.]: ResearchGate, ago. 2024. Preprint. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/382927975. Acesso em: 13 mar. 2026.CARDOSO, Alan. Amazônia tem o segundo rio mais poluído por plástico do mundo, diz estudo. CNN Brasil, São Paulo, 16 set. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/norte/am/amazonia-tem-o-segundo-rio-mais-poluido-por-plastico-do-mundo-diz-estudo/. Acesso em: 13 mar. 2026.

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