Ansel Adams (1902 – 1984), um dos mais importantes fotógrafos da história, certa vez afirmou: “Você não faz uma fotografia só com a câmera. Você traz para o ato de fotografar todas as fotos que você viu, os livros que leu, as músicas que ouviu, as pessoas que você amou.”
Outros fotógrafos ilustres, como Cartier Bresson, Ernst Haas e mais contemporâneos como Sebastião Salgado de alguma forma sempre deram seus depoimentos sobre o sentido da fotografia: sentir e se relacionar com o momento presente, com o propósito ao que a arte mais genuína deve causar: emoção. Eu mesmo, no início da carreira, percebi esta relação direta com nossa história de vida e escrevi algo assim: “A fotografia não é o que você vê, é o que você carrega dentro de si”.
Comunicar-se com o lado mais valoroso do ser humano: a alma.
E partindo deste princípio, há tempos venho pensando qual será o rumo da verdadeira fotografia em tempos de Inteligência Artificial. Esta ferramenta criada para trazer informações necessárias para otimizar o tempo, de certa forma, sutil e dilacerante, está eliminando do homem moderno a criatividade e inspiração. A autocobrança à produtividade extrema está nos levando ao ‘automático’, a não lidar com aquilo mais valioso que constituiu a fotografia: o processo criativo. Sem perceber, ou talvez intuindo mas ignorando os efeitos colaterais, estamos permitindo que sejamos levados pelo comodismo. O simples pensamento: “vou pedir pra IA criar uma imagem com meus comandos”, pode à princípio ser inofensivo, mas o que acontecerá a longo prazo? Onde ficará o prazer de esperar a luz ideal, o tempo de se conectar com aquele momento vivido e todos os sentimentos e lembranças que se acumulam nas nossas memórias?
Lembro como se fosse hoje, quando a fotografia digital tomou lugar da analógica e com isto surgiu os softwares de tratamento (e manipulação) de imagem, cheguei a falar que a fotografia, em essência, só continuaria existindo se houvesse a distinção entre fotografia e arte digital. Era preciso que isto fosse bem definido, do contrário, a fotografia iria desaparecer.


E ainda acreditando nisto, recentemente li um artigo publicado na BBC do poeta e professor de literatura Peter Mackay: “Tenho grandes preocupações com a IA em termos de criação de novas obras literárias e de novos livros”, afirmou, “em parte porque, como escritor, isso poderia ser desastroso para os novos profissionais da área. Já é muito difícil ganhar a vida como escritor, e se você tiver que competir com o conhecimento acumulado de todos os livros escritos anteriormente, condensado em alguma forma de conglomerado, isso torna impraticável para um jovem iniciante na arte de escrever.” E finaliza: “Uma das alternativas debatidas no universo literário é a criação de um selo que indique o texto ‘100% livre de IA’ ou ‘100% produzido organicamente’.”
No campo audiovisual, seja na fotografia ou vídeo, é necessário, honesto e justo, que a sociedade siga os mesmos princípios. Que haja alguma mensagem para as pessoas que aquela imagem não é, efetivamente, real. Ou estaremos fadados à incerteza sobre a veracidade das fotografias disseminadas nas mídias, vídeos que compartilham informações distorcidas e pessoas com seus rostos declarando algo que nunca saíram de suas bocas.


A realidade que me conforta é saber que a Inteligência Artificial depende de informações já existentes para que ela possa criar uma imagem, ou seja, de alguma forma depende do “passado”, daquilo que já foi descoberto e identificado. A Inteligência Artificial não tem como “saber” como é uma nova espécie de animal que nem mesmo a ciência ainda descreveu, uma caverna ainda a ser descoberta, ou um igarapé que apenas os povos tradicionais conhecem nos confins da Amazônia.
No tipo de trabalho que faço, onde sou levado a paisagens desconhecidas, quando posso estar diante de uma espécie nova de fauna e flora, ou participar de rituais ancestrais dos povos tradicionais, ou seja, quando preciso alcançar experiências e lugares nunca ‘dantes visitados’, tudo que for identificado, sentido e captado num clique, será exclusivamente oriundo das minhas próprias percepções. Para todos os efeitos, enquanto estas informações não forem ditas à IA, aquilo que existe apenas na minha mente não existirá para ela. E isto é um consolo para um fotógrafo como eu, que prima pelas sensações e aprendizados que o tempo me reserva num determinado lugar.
O que me inspira é a história que imprimo na minha memória. E se eu puder imprimir numa fotografia, aí sim eu posso compartilhar com as pessoas. A tão fantástica oralidade que construiu a humanidade. A simples troca de conhecimento passado nas rodas de conversa à luz da fogueira numa aldeia, a herança deixada pelas antigas civilizações em pinturas rupestres, pergaminhos e livros. A dedicação de pesquisadores que construíam uma ciência capaz de rascunhar a evolução do planeta e sua tão esplendorosa vida.

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