Análises

Cerrado em Cores: um mergulho no fantástico mundo das flores e beija-flores

Mais do que uma visão encantadora, a relação dos beija-flores com diferentes flores nativas do Cerrado ajuda na resiliência e regeneração do bioma

Marcelo Kuhlmann ·
25 de abril de 2025 · 1 anos atrás

Produzir a obra “Cerrado em Cores” e suas mais de mil fotografias foi uma jornada longa e apaixonante pelo Cerrado brasileiro. Passei mais de 10 anos viajando por algumas das regiões mais incríveis do nosso bioma – da Chapada dos Veadeiros à Chapada dos Guimarães, do Grande Sertão Veredas ao Jalapão, passando pela Chapada Diamantina, a Cadeia do Espinhaço e muitas outras áreas riquíssimas em biodiversidade nos diversos estados em que ainda há Cerrado em pé. Foram anos de pesquisa, trilhas, andanças e muita paciência para registrar essas belas interações entre as flores nativas e os beija-flores a elas associados.

Apesar de ser uma atividade apaixonante, fotografar beija-flores não é tarefa fácil. Essas aves são extremamente rápidas, desconfiadas e seletivas. Esperei horas a fio à espreita no meio do Cerrado, com a câmera pronta e o coração acelerado. Aprendi a reconhecer os horários e os comportamentos, a identificar as flores preferidas de cada espécie. E não foi raro ter que viajar para regiões bem remotas para conseguir registrar espécies raríssimas, como o balança-rabo-de-bico-torto (Glaucis hirsutus), o rabo-branco-de-sobre-amarelo (Phaethornis nattereri), o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), o topetinho-do-brasil-central (Lophornis gouldii) e o asa-de-sabre-do-espinhaço (Campylopterus diamantinensis). Cada encontro desses foi uma conquista e uma celebração.

No livro, reuni mais de 300 espécies de flores nativas do Cerrado que produzem néctar e atraem beija-flores. Elas estão organizadas por cor e época de floração, o que ajuda muito na identificação e também incentiva seu uso no paisagismo ecológico. 

Algumas das mais representativas são a caliandra (Calliandra dysantha), a paineira-rosa (Ceiba speciosa), o mulungu (Erythrina velutina), o gervão-vermelho (Stachytarpheta ratteri), o gervão-azul (Stachytarpheta gesnerioides), a saca-rolha (Helicteres sacarolha), a cigarrinha (Cuphea melvilla), o mirtilo-do-cerrado (Gaylussacia brasiliensis), o pau-doce (Vochysia elliptica), a gomeira (Vochysia thyrsoidea), a escova-de-macaco (Combretum fruticosum), a lobélia (Lobelia brasiliensis), a paineira-do-cerrado (Eriotheca pubescens), a sucupira-preta (Bowdichia virgilioides), o ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus ochraceus) e o pequi (Caryocar brasiliense). Todas essas plantas não só embelezam o Cerrado, mas sustentam uma grande biodiversidade que delas dependem.

A planta Lippia lacunosa e o beija-flor-chifre-de-ouro (Heliactin bilophus). Foto: Marcelo Kuhlmann

É importante ressaltar que essas interações entre flores, beija-flores e outros polinizadores não são apenas encantadoras de se ver – elas são fundamentais para manter os ciclos de regeneração natural do Cerrado. Sem esses encontros, não há polinização. E sem polinização, não há frutos, sementes ou novas plantas. É um ciclo essencial que sustenta a vida – e que está em risco. 

O Cerrado, muitas vezes chamado de “berço das águas” do Brasil por abrigar as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do país, vem sendo devastado em ritmo acelerado. O avanço descontrolado da fronteira agrícola, o desmatamento em larga escala e a fragmentação dos habitats vêm colocando em xeque a sobrevivência de inúmeras espécies. Não apenas de plantas e animais, mas também dos povos tradicionais que vivem e protegem esse território há séculos. 

É urgente entender que conservar o Cerrado não é um luxo: é uma necessidade para garantir o futuro da vida, da agricultura e do próprio bem-estar humano. Conservar o Cerrado enquanto produzimos de forma sustentável é o único caminho que nos permitirá continuar habitando essa região com dignidade.

E o primeiro passo para conservar e valorizar o Cerrado é conhecê-lo. Dessa maneira, acredito que precisamos trazer essas espécies para mais perto do nosso cotidiano. Não só em áreas de restauração ecológica, mas também nos nossos jardins, parques e cidades. Plantar espécies nativas que atraem beija-flores e outros polinizadores é uma forma concreta de proteger o Cerrado, manter vivas essas redes ecológicas e gerar sentimentos de pertencimento e conexão entre as pessoas e a nossa rica biodiversidade. 

O livro, Cerrado em cores. Foto: Marcelo Kuhlmann

Ainda não há muitos viveiros que produzem mudas de plantas nativas, justamente pela falta de conhecimento da população brasileira em geral sobre essas espécies. A ideia do livro é justamente despertar o olhar dos leitores e chamar a atenção para toda essa biodiversidade que temos e que muita gente nem sabe que existe. 

Assim, “Cerrado em Cores – flores atrativas para beija-flores” é mais do que um guia fotográfico: é um convite para enxergar com outros olhos esse bioma incrível. É um tributo à beleza, à ciência e à urgência de conservar o que ainda temos. E, acima de tudo, é uma forma de compartilhar esse encantamento com cada pessoa que folheia suas páginas.Para quem tem interesse em conhecer mais esses tesouros, a obra pode ser adquirida online. Ao adquirir o livro você não somente estará levando para casa uma obra de rara beleza, mas também estará contribuindo para os trabalhos de pesquisa pelo nosso Cerrado.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Marcelo Kuhlmann

    Biólogo, fotógrafo de natureza, mestre e doutor em Botânica pela Universidade de Brasília (UnB)

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