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Novos códigos para sobrevivência climática

O velho modelo político não dará conta da tarefa de proteger a sociedade, assim como o mercado do business as usual, que visa a priori auferir vantagens, se demonstrará inútil

2 de fevereiro de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

O calor começa a moldar novos cenários nas pragas brasileiras. O bordão de Macunaíma, “Ai que preguiça!…”, que se colocava como reação ao calor e resistência à produtividade desenfreada vista como imposição estrangeira, ganha patamar de risco.

Não só aqui. A Austrália acabou de inaugurar uma nova cor em seus mapas meteorológicos: o tom roxo, indicador dos locais onde a temperatura ultrapassou 45º. O laranja e vermelho carmesim não são mais suficientes. No sul da Austrália a onda de calor extremo causou incêndios e provocou alertas de saúde até o final de janeiro. Foi surpreendente porque chegou próximo de 50º C, mantendo médias elevadas por uma semana.

O calor excessivo e prolongado é desestruturante sob vários aspectos. Tem sido apontado como algo que vai além dos impactos usuais à saúde e aos incêndios.

Shakespeare registrou impactos do calor. Benvolio, primo de Romeu, diz a Mercúrio: Peço-te, bom Mercúcio: retiremo-nos. Quente está o dia; os Capuletos andam pela cidade. Caso os encontremos, não poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes”. (Ato 3, Cena 1 de “Romeu e Julieta“)

No clássico filme “No calor da noite”, de 1976, o calor opressivo dispara uma onda de violência sobre uma cidade do Mississipi, acendendo o estopim de conflitos raciais latentes.

Experimentos de campo apontam associação entre calor e agressividade. Em 1986, pesquisadores descobriram que os motoristas tinham mais probabilidade de buzinar quando estava quente lá fora. E em 1994, policiais expostos a temperaturas elevadas durante treinamentos com armas de fogo demonstraram aumento da agressividade e tinham maior probabilidade de disparar suas armas.

Já em 1938, a pesquisadora estatística norte-americana Mary Gover registrava a relação entre ondas de calor e aumento da mortalidade por todas as causas. O curioso é que apenas um quarto das mortes nesses períodos pode ser atribuído à insolação, quando as temperaturas superam a capacidade do corpo de liberar calor. 

O calor também pode agravar doenças mentais. Em 2014, pesquisadores canadenses descobriram que as visitas ao pronto-socorro por doenças mentais aumentaram 29% durante períodos de calor extremo em Toronto. Cientistas vietnamitas demonstraram em 2016 que o risco de internação em uma instituição de saúde mental aumentava 36% durante ondas de calor de uma semana. No ano seguinte, uma equipe de pesquisadores coreanos estimou que quase 15% das internações de emergência por doenças mentais em um período de 11 anos poderiam ser atribuídas ao calor extremo.

Adaptação às ondas de calor extremo, cada vez mais frequentes em todo o mundo, deve ir além das perspectivas dos impactos clássicos cardiovasculares. Até mesmo porque primeiro é necessário compreender o que é uma onda de calor extremo.

Se um dia quente é seguido por uma noite quente, o ambiente, ou a cidade, não consegue liberar totalmente essa energia e o calor começa a se acumular, crescendo dia após dia. Essa falha em se recuperar é a característica definidora de uma onda de calor.  

Segundo a Global Heat Health Information Network, rede que agrega formuladores de políticas, cientistas e profissionais, que mantém proximidade com a Organização Mundial da Saúde, uma onda de calor é relativa ao ambiente local:

Uma noite “quente” em Londres ou Helsinque pode muito bem ser considerada uma noite “fria” em Bangkok ou Riad. Portanto, as ondas de calor são definidas localmente, frequentemente usando uma temperatura média do 95º percentil limiar baseada em 30 anos de dados climáticos locais. Isso significa comparar o calor atual com o que é ‘normal’ para aquele clima específico e com a capacidade de adaptação de seus habitantes e infraestrutura.

O aumento desse fenômeno tem sido evidente. Isso nos remete à necessidade imperiosa de criar ambientes mais adequados, especialmente nas grandes áreas urbanas que concentram maior número de população, onde ilhas de calor estão cada vez mais presentes, como consequência do uso de materiais inapropriados e contínua impermeabilização do solo urbano por cimento e concreto.

Prédios e asfalto podem elevar a temperatura em até 10ºC de diferença com relação a áreas do entorno das cidades, conforme registram frequentemente medições em cidades como São Paulo.

A adaptação climática será um desafio bem-sucedido se puder contar com gestões éticas, estratégicas e multidisciplinares. Diz respeito a múltiplas perspectivas transformadoras em busca do bem comum, assim como é o desafio da transição energética.

A falta de caráter como forma de sobrevivência política nesses trópicos, observada por Mário de Andrade no personagem Macunaíma, será colocada à prova atualmente. O tempo reafirma sua condição física – contrapondo-se à política “as usual”, a velha política como sempre foi focada em disputa e manutenção de poder, com troca de favores e outras tendências alheias à boa governança.

O velho modelo político não dará conta da tarefa de proteger a sociedade, assim como o mercado do business as usual, a velha economia, que visa a priori auferir vantagens, se demonstrará inútil.

Adaptação climática eficaz exige mudança estrutural. A eficácia das medidas é condição basilar. A revisão do conhecimento à luz dos fatos demonstra definitivamente que o solo não é commodity e a escolha energética não pode ser definida por custo-benefício imediato nem defendida com sofismas, como o de extrair petróleo para financiar sustentabilidade.

É preciso refletir sobre a poderosa lição tribalista evocada por Shakespeare em Romeu e Julieta, onde o apequenamento dos interesses acaba sendo fatal para o corpo cívico. Antes que pereçam os jovens, mudanças adaptativas exigirão políticas públicas lastreadas em economia ecológica – e sua consecução, por meio de democracia robusta, plena e participativa, como prescrita pela Constituição Federal.

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