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Sem clima para aprender

Entre as enchentes e ondas de calor, as salas de aulas são uma amostra do efeito estufa e como a crise climática está afetando todas as esferas da vida, até o ensino

15 de abril de 2025
  • Casa Fluminense

    Somos um espaço para a construção coletiva de políticas para a promoção de igualdade e o aprofundamento democrático no Rio de...

  • Luize Sampaio

    Formada em jornalismo na PUC-Rio com ênfase em gestão e avaliação de políticas públicas e pós graduanda em jornalismo de dados pelo Insper.

Os desafios do ensino público brasileiro são históricos e estruturais. Ao mesmo tempo que profissionais da educação e alunos lutam por essas mudanças, eles também são atravessados por problemas emergenciais que tem impactado cada vez mais o que acontece dentro das escolas. A crise climática não tem apenas um endereço ou uma faixa etária, o fenômeno das mudanças de temperatura atinge a vida de todos do global ao local, dos derretimento das geleiras até o calor nas salas de aula de escolas como a Tim Lopes, no Complexo do Alemão,  zona norte do Rio de Janeiro.  

As “saunas de aula”, como os estudantes do Travessia – movimento de juventude ecossocialista – tem chamado, podem ser encontradas nos 22 municípios que compõem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), onde vivem cerca de 80% da população de todo o estado. Dados do Painel Climático, plataforma elaborada pela Casa Fluminense, mapearam que mais de 60% das escolas municipais da RMRJ encontram-se em locais de ilha de calor, com temperatura média anual acima de 32°C. São no total 2.914 unidades de ensino municipais e pelo menos 1.820 destas unidades estão enfrentando um cenário de calor extremo. 

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Nas cidades de Tanguá, Rio Bonito, Guapimirim, Japeri, Mesquita, Nova Iguaçu mais de 80% das escolas estão localizadas em ilhas de calor, com destaque para Queimados onde 33 das 34 escolas municipais têm temperaturas médias acima de 32°. Nas escolas públicas, há outros desafios históricos que se tornam ainda piores frente à crise climática como, por exemplo, a garantia do acesso ao básico. Aqui não estamos nem falando de salas climatizadas, laboratórios, cadeiras novas ou material escolar. O problema é anterior. De acordo com o nosso Mapa da Desigualdade 2023,  em 20 dos 22 municípios da Região Metropolitana há pelo menos uma escola pública sem acesso a água, energia, esgoto e/ou alimentação. As salas de aula repetem uma desigualdade sentida nas ruas de todo o Rio de Janeiro que constantemente fica mais acentuada frente à aceleração da crise climática. 

Diante desse cenário, a Casa Fluminense se uniu aos representantes de gremios das escolas do Rio, ao Instituto Alana, WWF-Brasil, à Frente Parlamentar por Justiça Climática do Rio de Janeiro e à Rede por Adaptação Antirracista para apresentar uma denúncia ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) solicitando providências ao governo do estado. Além da climatização urgente das salas de aula, o grupo também solicita que municípios e estado elaborem de forma participativa, mas também urgente, seus Planos de Adaptação e Mitigação às mudanças  climáticas. Atualmente, nem o governo estadual do Rio nem 20 das 22 prefeituras da metrópole fluminense possuem esse planejamento pronto e publicado. 

Entre as enchentes e ondas de calor, estão nossos alunos, professores e merendeiras e outros profissionais da educação. Enquanto as gestões não centralizarem o clima como pasta principal dos seus governos, vamos continuar fomentando ambientes hostis e insalubres. Precisamos de Secretarias de Clima municipais e estadual, para transversalizar estratégias, orçamento e políticas públicas de adaptação e mitigação para os nossos territórios. A garantia de futuro depende de agirmos agora. 

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