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Recife: Mais de mil aves silvestres apreendidas

Ação da polícia militar em Pernambuco em feira de passarinhos conhecida no Recife expõe parte da crueldade existente no tráfico de animais.  

Celso Calheiros ·
30 de agosto de 2011 · 15 anos atrás
Azulão foi uma das espécies encontradas pelos policiais militares em uma das maiores apreensões do gênero já realizadas. Foto: Dario Sanches
Azulão foi uma das espécies encontradas pelos policiais militares em uma das maiores apreensões do gênero já realizadas. Foto: Dario Sanches
Há quadros que parecem ruins, mas que novas informações mostram que são ainda piores. Denúncias de prática de comércio de aves silvestres são comuns em grandes centros brasileiros. Em Pernambuco, a pesquisa do biólogo Rodrigo Regueira utilizou câmeras ocultas para identificar e quantificar as espécies de passarinhos comercializados em oito feiras livres no Grande Recife. A partir do que era visto em exposição, na feira, chegou a conclusão que cerca de 72 mil passarinhos da espécie papa-capim (Sporophila nigricollis) são retirados da natureza pelo tráfico ilegal de animais. No domingo (28 de agosto), uma grande operação da Companhia Independente de Policiamento do Meio Ambiente (Cipoma) da Polícia Militar de Pernambuco descobriu que os números do desastre ambiental podem ser maiores, uma vez que nem todos os animais comercializados estão à vista.

Os policiais prenderam três suspeitos de tráfico de aves silvestres e encontraram, em um único quarto próximo ao Mercado Público do Cordeiro mais de mil passarinhos. Havia canários-da-terra (Sicalis flaveola), papa-capim, galo-de-campina (Paroaria dominicana), concri (Icterus jamacaii), sanhaço (Thraupis palmarum), patativa (Sporophila albogulares), pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa), azulão (Cyanocompsa brissonii) e outros em menor número. As aves foram levadas para a sede do Ibama, onde vão passar por um período de quarentena. Receberão alimento e cuidados veterinários antes de serem devolvidos à natureza. O pintor-verdadeiro, por exemplo, está na lista de espécies ameaçadas de extinção do Ibama.

 

Os policiais apreenderam 460 canários-da-terra comercializados por três suspeitos de tráfico animal. Foto: Leonardo Rech
Os policiais apreenderam 460 canários-da-terra comercializados por três suspeitos de tráfico animal. Foto: Leonardo Rech
O gestor do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, Edson Lima, disse que esses animais são os preferidos pelos criminosos. “O canto e a beleza dessas aves colocam elas na mira dos traficantes”. Dos 1.039 animais recolhidos no bairro do Cordeiro, 185 morreram antes de chegar à sede do Ibama. Os maus-tratos anotados eram graves. “Em uma gaiola de 50 centímetros, estavam confinados 159 passarinhos”, exemplificou.

A feira do Cordeiro é tradicional no Recife e o comércio de aves silvestres ocorre apenas aos domingos, entre as 5h e 9h. As barracas ficam localizadas em um pátio, entre um mercado público e um supermercado. São várias as rotas de fugas e as técnicas usadas pelos traficantes para despistar. A rotina é de suspeitas e sobressaltos. Todos sabem que estão praticando um crime ambiental.

Com os três suspeitos presos foram apreendidos também R$ 1.450. O dinheiro é indício de que outros animais foram comercializados antes da chegada da polícia. Um dos suspeitos presos é reincidente na atividade. Eles foram levados para a Polícia Federal por suspeita de tráfico internacional de animais e estão presos.

 

O sanhaço estava entre as espécies levadas para o centro de triagem do Ibama para serem alimentados, tratados e depois devolvidos ao seu habitat natural. Foto: Bill Machado
O sanhaço estava entre as espécies levadas para o centro de triagem do Ibama para serem alimentados, tratados e depois devolvidos ao seu habitat natural. Foto: Bill Machado
A comandante da Cipoma, major Érika Melcop, disse que os suspeitos podem ficar até 4 anos reclusos, se condenados pela Justiça. “O crime é considerado de potencial grave, mas na legislação é classificado com pouco potencial ofensivo”, explicou. Os suspeitos também devem pagar multa no valor de R$ 400, por animal. A ação policial foi uma das maiores realizadas em Pernambuco, mas não afetou o julgamento da major. “Essa é apenas a ponta do iceberg. Há um tráfico maior por trás, por isso vamos continuar”, complementou.

Antes da ação policial, pesquisa feita por Rodrigo Regueira selecionou dez feiras no Grande Recife para identificar a venda de passarinhos da fauna nacional. Em duas, de Casa Amarela e da Madalena, mais frequentadas pela classe média, não constatou a venda de animais. Sua análise classificou a Feira do Cordeiro como a maior de todas. Outras sete feiras, facilmente identificadas pelas imagens gravadas pelo biólogo através de uma câmera escondida, esperam pela visita da polícia.

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