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O jacamim serve também para estudar a biogeografia da região Amazônica, ou seja, a interação entre a biodiversidade e a paisagem natural. E foi isto que demonstrou a ecóloga Camila Ribas, hoje trabalhando no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Ele só ocorre na Amazônia e têm diferenças na plumagem entre uma região e outra”, afirma a pesquisadora. “É uma ave que caminha, que não voa muito. Então, a gente imagina que eles vão responder a barreiras biogeográficas, como os grandes rios”, completa.
A pesquisa começou quando ela cursava pós-doutorado no Museu Americano de História Natural, e foi publicada agora em janeiro, na revista da Royal Society. A partir de uma análise genética, ela conseguiu dados que provam a existência de 8 e não apenas 3 espécies diferentes de jacamins. Mais do que isto, o estudo demonstrou que a diferenciação entre as espécies de jacamim ocorreu entre 3 e 5 milhões de anos atrás. E este é um dado importante para conhecer as mudanças da paisagem amazônica ao longo de milhares de anos.
Como explica Camila, o estudo sobre as origens da biodiversidade amazônica havia deixado de lado pesquisas sobre a formação dos rios. Isto porque acreditava-se que eles teriam surgido no mioceno, entre 10 e 15 milhões de anos atrás. Mas agora dados hidrológicos estão demonstrando que estes rios são muito mais jovens, têm entre 3 e 5 milhões de anos. Ou seja, o surgimento deles é contemporâneo à diversificação dos jacamins, e de outras espécies amazônicas. “Dados moleculares indicam que o tempo de origem destas espécies concorre com o tempo aproximado da formação destes rios”, conta.
E não é por acaso. Quando os grandes rios surgiram na Amazônia, além de fazer quantidades maciças de água correr em direção ao Oceano Atlântico, criaram barreiras naturais que isolaram espécies animais e vegetais, contribuindo para a grande biodiversidade da região. Populações foram separadas e tiveram, então, uma evolução diferente. O processo foi definitivo para a grande variedade de espécies de animais e plantas atuais.
Uma diversidade que não para de surpreender, como no caso dos jacamins. Já se conhecia as diferenças na aparência da ave nas diversas partes da Amazônia, mas se imaginava que não eram suficientes para caracterizar espécies diferentes. “A gente viu que a variação no fenótipo, na plumagem, é coincidente com a variação genética, o que caracteriza espécies diferentes”, afirma Camila Ribas. “A diversidade imaginada hoje na Amazônia, na verdade, é muito maior”.
O surgimento do Rio Amazonas separou a população ancestral do jacamim que vivia na parte ocidental da Amazônia e nas Guianas, fazendo com que as populações ao norte e ao sul do grande rio se diferenciassem. O mesmo ocorreu com o desenvolvimento do rio Madeira, o Napo e o Tapajós, o Negro, e depois o Tocantins também com o Tapajós. Para cada interflúvio destas rios, há uma espécie diferente de jacamim.
Imaginava-se, por exemplo, que jacamim-de-costas-verdes, era apenas uma espécie distribuída entre o Rio Madeira e o oeste do Maranhão. Camila demonstrou que não se trata de uma, mas de quatro espécies diferentes. “A espécie que ocorre perto do Atlântico (P. obscura) é endêmica da região de Belém, a leste do Tocantins, e é diferente das outras”, conta a pesquisadora. “É uma região que está sendo muito explorada, que quase não tem mais floresta. Descrita agora, talvez a gente comece a considerar o quão ameaçado já está o jacamim-de-costas-verdes”.
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