De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 28 animais foram eletrocutados ao interagir com a fiação da rede elétrica no Rio de Janeiro, dos quais 64% (18) não resistiram. Os dados foram coletados pelo projeto Conexão Silvestre, fruto de parceria entre a distribuidora de energia elétrica Light, junto a ONG Instituto Vida Livre e o laboratório de desenvolvimento e inovação Concert Lab. A divulgação dos resultados ocorreu na quinta-feira (26), no Centro Cultural Light.
O objetivo do levantamento é compreender os usos da fauna silvestre na rede elétrica, para assim estabelecer um diagnóstico embasado capaz de contribuir para a preservação da biodiversidade nas áreas urbanas enquanto assegura eficiência energética.
Os dados apresentados ilustram os perigos da desordem urbana para o bem-estar da fauna silvestre. O monitoramento pôde identificar áreas com maior risco de acidentes para os animais. No bairro do Jardim Botânico, o número de casos se mostrou mais alarmante em pontos na rua do Peri, Maria Angélica e Ministro Artur Ribeiro. Já na Zona Oeste, os dados apontam para trechos mais perigosos para a travessia de fauna na estrada do Pontal, no Recreio, e na estrada Boca do Mato, em Vargem Pequena. Espécies que apresentaram acidentes mais frequentes incluem macaco-prego, gambá, mico, cuíca, preguiça-comum e coruja buraqueira.
O levantamento traz dados do Instituto Vida Livre em parceria com o Parque Jardim Botânico, que realizava um monitoramento próprio sobre acidentes de animais com a rede elétrica desde 2006. Em um recorte de 19 anos (2006-2025), foram registrados 132 animais vítimas de eletrochoque, onde 80% não resistiram aos ferimentos (105). No entanto, há uma descontinuição deste monitoramento, e representantes do Instituto Vida Livre reconhecem a subnotificação de casos – algo que esperam reduzir a partir do monitoramento feito pelo Projeto Conexão Silvestre.
Roberta Pena, gerente do Conexão Silvestre, destaca a necessidade de ações de prevenção, tanto para desestimular o uso da rede elétrica pela fauna silvestre, quanto para mitigar os riscos para estes animais. Isso envolve iniciativas integradas, que incluem trabalho de educação ambiental com moradores, poda adequada de árvores, instalação de dispositivos “anti-pouso”, implementação de pontes suspensas para travessia de mamíferos, além da inserção de estruturas anti-choque em cabos e transformadores. Até o momento, o projeto não chegou à etapa de aplicação destas medidas.
Vanessa Onofre, bióloga e doutoranda em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está desenvolvendo projeto que observa justamente o uso de redes elétricas por vertebrados silvestres. Durante sua participação no evento, ela reforçou que, embora este não seja um problema novo, o debate é recente, e a literatura acadêmica se mostra escassa.
“Tem outros países no mundo que já trabalham essa temática há muitos anos, mas em países em desenvolvimento, subdesenvolvidos, é uma temática recente, e essa também é a realidade no Brasil”, lamenta.
A pesquisadora trouxe exemplos de travessia de fauna bem-sucedidos, como o uso de passarelas suspensas para a passagem de bugios em rodovias no Rio Grande do Sul. As estruturas começaram a ser instaladas em outubro de 2022, e “já foi visto que eles dão preferência para atravessar pelas pontes”, conta.

“O Conexão Silvestre é um expoente, e a gente espera que tenha mais iniciativas como essa, pois é só com essas novas trocas que a gente consegue avançar para novos estudos, novas habilidades” conclui Vanessa Onofre.
Para esta primeira etapa do projeto, o Conexão Silvestre observou o uso de redes elétricas por animais silvestres em 17 pontos de monitoramento. O piloto do projeto buscou monitorar regiões estratégicas da cidade, com maior cobertura vegetativa. Foram 12 pontos de observação instalados no bairro do Jardim Botânico e cinco na Zona Oeste da cidade, atravessando os bairros do Recreio, Vargem Grande e Vargem Pequena. Ao todo, o levantamento contabilizou 820 animais interagindo com a rede elétrica.
A coleta dos dados incluiu avistamentos feitos por biólogos da equipe do Instituto Vida Livre, monitoramento por armadilhas fotográficas, além de contribuição via ciência cidadã. A participação popular ocorreu a partir do preenchimento de formulário online, assim como entrevistas com moradores. No Jardim Botânico, 70% dos entrevistados disseram ter observado animais utilizando a rede elétrica.
As armadilhas fotográficas registraram 428 animais, dos quais 120 interagiam com a rede elétrica. Para mamíferos como o macaco-prego, a interação se dava pelo uso da fiação para deslocar-se pela cidade, enquanto pássaros utilizavam-se da estrutura para realizar pousos. Outros animais comumente avistados incluíam o ouriço-caixeiro, sagui, gambá, além do caxinguelê. Ao todo, foram 250 horas de observação e 26 mil vídeos analisados.
Para Felipe Cruz, gerente de Meio Ambiente da Light, o Conexão Silvestre representa um avanço importante na forma como o setor elétrico pode compreender a relação entre a fauna e a infraestrutura urbana. “Essas informações são fundamentais para orientar o planejamento da rede e desenvolver soluções cada vez mais eficazes para proteger a biodiversidade” , afirma.
A iniciativa contou com o desenvolvimento de uma plataforma tecnológica criada pela Concert Lab, que utiliza inteligência artificial para cruzar dados da infraestrutura elétrica, características ambientais e comportamento da fauna.
Berta Ulmo, sócia do Grupo Concert Technologies, explica que a tecnologia desenvolvida permite antecipar onde estão os maiores riscos e orientar ações de prevenção com mais eficiência. “Esse é um passo importante para que o setor elétrico evolua na convivência com a fauna silvestre”, avalia.
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