Um estudo técnico-científico divulgado por pesquisadores ligados ao Centro Brasileiro de Infraestrutura para a Bioeconomia e o Clima (CBioClima) chama atenção para um risco pouco considerado no debate sobre grandes obras na Amazônia: a liberação e disseminação de microrganismos do solo com potencial patogênico, associada à pavimentação da BR-319 e à mineração de potássio no município de Autazes, no Amazonas.
O documento analisa dados microbiológicos coletados em áreas de floresta preservada e em zonas já impactadas por intervenções humanas ao longo do interflúvio entre os rios Purus e Madeira. Segundo os autores, a perturbação do solo provocada por estradas, mineração e desmatamento pode expor comunidades microbianas historicamente isoladas, criando condições para sua circulação em ambientes humanos.
De acordo com o estudo, os solos amazônicos abrigam uma diversidade elevada de microrganismos, incluindo linhagens com genes associados à virulência, resistência a antibióticos e produção de toxinas. Em áreas próximas a obras e empreendimentos planejados, os pesquisadores identificaram alterações na composição dessas comunidades, com aumento relativo de microrganismos potencialmente perigosos à saúde humana.
O risco, segundo o relatório, não está na existência desses microrganismo comuns em ecossistemas naturais, mas na intensificação do contato entre esses reservatórios biológicos e populações humanas, favorecida pela abertura de estradas, pela migração induzida por obras e pelo avanço de atividades extrativas.
Infraestrutura, mineração e saúde pública
A pavimentação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, e o projeto de exploração de potássio em Autazes são apontados como vetores de pressão sobre áreas de floresta primária ainda pouco degradadas. Para os pesquisadores, esses empreendimentos podem acelerar processos de fragmentação florestal, ocupação desordenada e alteração profunda do solo, fatores que ampliam riscos sanitários em uma região já marcada por fragilidades no sistema de saúde.
O estudo dialoga com a abordagem conhecida como One Health, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Nesse contexto, os autores alertam que a Amazônia reúne condições críticas: alta biodiversidade microbiana, avanço de grandes obras e baixa capacidade de vigilância epidemiológica.
Além dos aspectos científicos, o relatório situa os riscos microbiológicos no cenário político-regulatório brasileiro. Os autores criticam propostas que flexibilizam o licenciamento ambiental e reduzem salvaguardas territoriais, argumentando que a análise de impactos ambientais no país ainda negligencia riscos biológicos invisíveis, como os relacionados ao solo e à microbiota.
O documento recomenda a adoção do princípio da precaução, com a suspensão de atividades de mineração de potássio em Autazes e a reavaliação das obras na BR-319, até que estudos independentes e abrangentes sobre riscos sanitários sejam incorporados aos processos de licenciamento. Para os autores, ignorar essa dimensão invisível da biodiversidade amazônica pode significar subestimar custos ambientais e sociais de projetos que, uma vez implementados, são difíceis de reverter.
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