Reportagens

Conservação: a lanterninha da Feema – com Norma Crud Maciel

Com 44 anos de serviço público, a bióloga Norma Crud Maciel tem experiência de sobra para explicar o desprestígio da conservação da natureza nos órgãos ambientais do Rio.

Andreia Fanzeres ·
22 de janeiro de 2007 · 16 anos atrás

A bióloga Norma Crud Maciel é figura rara dentro da Fundação Estadual de Engenharia e Meio Ambiente do Rio de Janeiro (Feema). Em seus 44 anos de serviço público na instituição, vivenciou o período aúreo da Fundação, nos idos de 1975. Agora sente as conseqüências de sua falência, às vésperas de ser fundida ao Instituto Estadual de Florestas (IEF) e à Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) para formar um único órgão ambiental no estado, conforme anuncia o novo secretário de meio ambiente, Carlos Minc.

Como ela mesma diz, é uma das poucas pessoas que podem bater no peito e se orgulhar por ter interferido diretamente na criação de importantes unidades de conservação do Rio de Janeiro, como o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, a Reserva Biológica da Praia do Sul e o Parque Estadual Marinho de Aventureiro (ambos na Ilha Grande), além de diversas Áreas de Proteção Ambiental, como a de Guapimirim. Sem meias palavras, diz o que pensa e não se intimida com as freqüentes pressões políticas dentro da própria Feema na tentativa de desviar seus projetos do objetivo primordial da conservação. Hoje, ela paga o preço por esse compromisso com o cargo público que ocupa e com o meio ambiente.

Norma ainda não foi pega pela aposentadoria compulsória, como outros colegas que, junto com ela, ajudaram a dar prestígio a Feema em seus primeiros anos. Hoje está praticamente sozinha à frente do Serviço de Ecologia Aplicada (SEA) que, sem orçamento e apenas quatro servidores de nível superior, é responsável por tudo que tem a ver com conservação da natureza na Feema. Somente por paixão, ela continua. E com uma vitalidade de impressionar aos 67 anos, não arreda o pé de lá até ver organizados pelo menos o herbário e a biblioteca, uma das mais ricas em conservação do país. No dia em que finalmente chegaram por doação novas prateleiras para os livros, Norma recebeu O Eco na sede do SEA, numa área de 15 hectares de Mata Atlântica no Alto da Boa Vista.

Como a conservação da natureza é tratada dentro da Feema?

Norma – Hoje é um mero serviço. Antes da Feema existir, havia o Instituto de Conservação da Natureza, que foi fundido com outros órgãos, como o Instituto de Engenharia Sanitária, para formar a Fundação Estadual de Engenharia e Meio Ambiente (Feema) na década de setenta. No começo era um departamento, mas entrou em decadência e foi aglutinado ao departamento de estudos técnicos, mas manteve o nome de departamento de Conservação da Natureza. Depois passou a ser chamado de Coordenação de Fauna e Flora, em seguida Divisão de Ecossistemas e agora Serviço de Ecologia Aplicada. Em 1975, tínhamos 45 funcionários, entre diretor, pessoas com nível universitário, auxiliares, datilógrafos, motorista, copeiro e até jardineiro. Hoje contamos apenas com quatro funcionários com ensino superior e todos próximos da aposentadoria. Eu tenho 44 anos de serviço.

Vocês não têm auxiliares, estagiários?

Norma – Nós temos um auxiliar administrativo, duas pessoas no herbário, um faxineiro e um motorista.

Mas são quatro pessoas na área de pesquisa?

Norma – Nem isso. Há uma pessoa na zoologia, uma na botânica, outra nas ilustrações e na administração. Não faço mais pesquisa, não dá tempo. Na verdade, sou uma burocrata que assobia, chupa cana, toca bumbo e chuta lata. Também temos na Praia do Sul dois funcionários administrando (silêncio) daquele jeito. Nosso carro é uma porcaria, enfim.

Como é a rotina do Serviço de Ecologia Aplicada?

Norma – Confusa. Eu sou obrigada a suprir uma série de necessidades que pertenciam a outros colegas. Eu tomo conta da zoologia, porque só tem uma pessoa que está com uma deficiência visual. Tomo conta da biblioteca porque não tem bibliotecária. Tomo conta do próprio serviço porque é preciso administrá-lo de alguma forma. Trabalho para o Ministério Público, sob a forma de processo. Ou seja, qualquer processo que chegue à Feema com questões envolvendo conservação da natureza, uma unidade de conservação qualquer, fauna ou flora, geralmente vem parar na minha mão – sou a pessoa que tem o maior conhecimento em função do número de anos de trabalho. Além disso sou responsável pela gestão da APA de Mendanha e participo dos grupos gestores de Guapimirim, da Pedra Branca e da Reserva do Tinguá. É uma diversidade de atividades enorme.

Entre tantas atividades, o que rende dinheiro para o Serviço?

Norma – Boa parte dos recursos que eu tenho saem de projetos que administro entre tudo que eu faço. Foram através deles que eu adquiri computador, desumidificador, livros para biblioteca, dinheiro para periódico, etc. Eu ganho 53 reais de chefia. Poucas pessoas aceitariam uma pressão de trabalho tão diversificada por esse preço. Mas eu faço porque isso que você está vendo aqui são documentos antigos, de 1975, 1965, dá época do Instituto de Conservação da Natureza. Estou separando para encadernar e, alguns deles, para digitar para o banco de dados. Se você quiser saber o que tinha em Santa Maria Madalena em 1972, eu tenho um relatório de campo, dizendo que o pesquisador tal viu aquela figueira, com um diâmetro de não sei quanto.

Existem informações sobre o estado do Rio de Janeiro em termos de conservação da natureza, hídrico, e tudo mais?

Norma – Tem. Aqui você tem mais informações sobre alguns municípios do que outros. Em termos de água você deveria encontrar aqui na Feema, guardado, tudo aquilo que eu pesquisei desde 1962. Fiz análises que deveriam ter sido encadernadas, etiquetadas e guardadas. Mas não sei onde isso está arquivado. Aqui, eu estou tentando organizar todo o acervo.

A senhora diz que trabalha na Feema desde antes de sua criação. Como começou sua carreira?

Norma – No final do 4º ano de faculdade, eu consegui um estágio num órgão que não tinha nem nome. Ainda ia ser criado dentro da Superintendência de Urbanização e Saneamento (Sursan), um órgão para lidar principalmente com qualidade de água. Em dezembro de 1961 eu me formei e ia todos os dias trabalhar onde hoje funciona a Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Rio de Janeiro (Seaerj). Lá trabalhava o pessoal da Coppe, um setor do governo chefiado pelo engenheiro Adilson Serôa da Motta, que estava começando a fazer os estudos para a implantação do interceptor oceânico de Ipanema. Nós ocupávamos algumas salas e aos poucos foi sendo montada a nova instituição, que passou a se chamar Instituto de Engenharia Sanitária (IES).

Qual era a função do novo instituto?

Norma – Era trabalhar com a físico-química, bacteriologia e biologia da água, do esgoto, do despejo industrial e a poluição do ar. Na parte de água, as análises iam avaliar a qualidade da água para beber, para banho e ainda controlar a qualidade da água dos rios, lagoas e baías. Eu comecei a trabalhar coletando, concentrando e contando zooplâncton, fitoplâncton, bentos e perifiton de água doce, salgada e salobra.

“CONHEÇO A BARRA DA TIJUCA QUANDO O CAMINHO DA GROTA FUNDA ERA APENAS UMA TRILHA POR ONDE OS BURROS PASSAVAM TRANSPORTANDO BANANA.”

Como era o seu trabalho?

Norma – Eu fazia toda coleta de água potável, de jipe, junto com outros funcionários. Saía pela Avenida Brasil e percorria uma série de reservatórios: Mendanha, Quininha, Caboclo, Rio Grande, Camorim, Tinguá e outros pontos coletando.

Fazia monitoramento da qualidade de água nessas estações?

Norma – Eu coletava amostras nas barragens para exames de potabilidade. Eu, por exemplo, conheço a Barra da Tijuca quando o caminho da Grota Funda era apenas uma trilha por onde os burros passavam transportando banana. Na baixada, perto da Pedra de Itauna, onde hoje há um canteiro [que divide as pistas da Avenida das Américas] , a “estrada” era muito estreita. Só cabia a roda do jipe porque o resto todo era duna e restinga. Quando um carro passava pelo outro, era preciso colocar uma roda na trilha e outra no mato.

Como a senhora vê a cidade hoje, tendo vivido esse período de dunas e trilhas na Barra da Tijuca?

Norma – Eu me sinto muito triste. Sou daquela época que você tinha no chão um tapete daquele cacto chamado cabeça de frade, que hoje só é encontrado no Parque Nacional de Jurubatiba e na restinga de Marambaia. Todos os que existiam em Jacarepaguá (zona oeste do Rio) foram devidamente arrancados pelos “civilizados”. Eu conheci todas aquelas lagoas com água clara. Tainha pulando, sabe?

No início dos anos 70, o Rio de Janeiro tinha boa qualidade de água?

Norma – A água que era distribuída pelas adutoras pretas, que são de Xerém, Tinguá, Rio do Ouro e Mantiquira, era muito boa e continua sendo boa. A de Ribeirão das Lajes decaiu porque passou a receber contribuição do Paraíba do Sul. Existe na usina de Fontes um recalque, então você também perde um pouco da qualidade. E o Guandu perdeu muito em função desse “boom” industrial no entorno das suas margens.

Como os rios podem indicar a perda dessa qualidade?

Norma – Por exemplo, existe uma alga vermelha, de água doce, que é indicadora de excelente qualidade de água. O nome dela é Batrachospermum. Para viver, ela exige temperatura baixa (18º C) o pH seis, turbidez praticamente zero, e oxigênio alto. Essa alga eu só encontrei em dois lugares do Rio de Janeiro: nas paredes do reservatório chamado Caixa velha da Tijuca, em 1969 ou 70, e num rio que contribui para o Guandu, o rio Santana. A alga estava crescendo na margem do rio. Hoje se você vê o rio Santana, você chora.

O que aconteceu no seu trabalho a partir de 1975?

Norma – Em 1971, passei para a Divisão de Treinamento e lá fiquei até 1975 quando houve a fusão do estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro e aí todos os órgãos que existiam nos dois estados formaram um único, a Feema.

Que instituições formaram a Feema?

Norma – Todo o Instituto de Conservação da Natureza (ICN), que funcionava neste prédio em que estamos, o Instituto de Engenharia Sanitária (IES), a Divisão de Controle de Mosquitos, da Empresa de Saneamento da Guanabara (Esag), e a Divisão de Controle de Poluição da Companhia de Saneamento do Rio de Janeiro (Sanerj). Essas pessoas se juntaram para trabalhar num único órgão, mas foi cometido um grande erro: o erro do lobby.

O Serviço de Ecologia Aplicada é responsável pelas Unidades de Conservação administradas pela Feema?

Norma – Não. As unidades de conservação da Feema estão concentradas no Departamento de Estudos e Projetos, na Divisão de Estudos Ambientais (Divea). O Serviço de Ecologia Aplicada está preso à Divea, que toma conta de todas as APAs e de três unidades de proteção integral. A Reserva Ecológica do Guapiaçu, a Reserva Biológica da Praia do Sul e o Parque Marinho de Aventureiro. Eu respondo pelas duas últimas, em Ilha Grande.

Qual o estado de saúde das unidades de conservação no Rio de Janeiro?

Norma – O estado de saúde ideal seria uma unidade de conservação que tivesse o título da terra. A única desse bolo todo, do IEF e da Feema, que tem alguma coisa sobre titularidade é a Praia do Sul (reserva biológica). A segunda coisa seria um administrador competente, com aquele currículo voltado à conservação. A Feema só tem um administrador de apelido, que sou eu. Não há, por exemplo, nenhum documento dizendo que a chefe do Serviço de Ecologia Aplicada acumulará também as funções de administrador do Parque Marinho do Aventureiro e da Reserva Biológica da Praia do Sul. Eu assumo porque alguém tem que assumir. O IEF tem administradores, mas nem todos tem currículo voltado para conservação. E a maioria não é funcionário do IEF, elas podem ir embora se for concretizada a ameaça de corte dos terceirizados. Na verdade, todas as unidades de proteção integral teriam que estar (ou o IEF deseja que estejam) sob a égide deles.

Há uma superposição de atividades entre o Serviço de Ecologia Aplicada e o IEF?

Norma – Sim.

O que a senhora acha da proposta de transformar Feema, Serla e IEF em uma coisa só, como deseja o novo secretário de Meio Ambiente do Rio?

Norma – Eu acho que esta fusão já deveria ter sido feita há muitos anos. Se houver, todas as unidades de conservação ficarão sob a administração desse novo órgão. Porque o IEF só quer ficar com o filé mignon, não com as APAs, porque o SNUC [Sistema Nacional de Unidades de Conservação] garante dinheiro às unidades de proteção integral: meio por cento do valor da obra nas medidas compensatórias, mas não garante nada para APAs. Só que as APAs têm as zonas de vida silvestre, criadas com o objetivo de preservar sem indenizar a terra. Foi uma forma de proteção criada pelo Paulo Nogueira Neto. Ninguém acha a APA uma maravilha, mas pelo menos você obriga o povo e as autoridades a verem o artigo do Código Florestal que impede avançar sobre áreas de preservação permanente, e mesmo assim já é difícil.

“NINGUÉM ACHA APA UMA MARAVILHA, MAS PELO MENOS VOCÊ OBRIGA O POVO E AS AUTORIDADES A VEREM O ARTIGO DO CÓDIGO FLORESTAL QUE IMPEDE AVANÇAR SOBRE ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE”.

Algo lhe preocupa nessa nova fusão?

Norma – Eu tenho bastante esperança que a fusão desses três órgãos resolva uma boa parte dos problemas. Mas se não houver concurso com alto nível de exigência, para selecionar pessoas realmente bem qualificadas, não vai adiantar nada. Tenho a sensação de que a grande maioria dos técnicos que cuidam da questão ambiental no Rio de Janeiro não está capacitada para fazer projetos e muito menos gerenciá-los. O problema é que sem concurso não há reposição de funcionários.

Há quanto tempo não existe concurso?

Norma – Eu não fiz concurso e em quatro décadas de serviço nunca soube que tenha havido algum. Estão dizendo há anos que vai haver, mas não acontece. Se eu tiver um piripaque agora, tudo que eu sei, vai comigo. Não consigo formar uma sucessora. Todas às vezes que tentei, esbarrei na dificuldade de contratação. A bibliotecário, por exemplo, foi embora e o acervo está abandonado.

Qual o valor desta biblioteca?

Norma – A nossa biblioteca é especializada em conservação. Dentro da nossa área, é uma das melhores no Brasil. Acho que ficamos atrás apenas do pessoal do Paraná, que como eles têm dinheiro, compram mais livros e assinam mais periódicos. Eu tenho uma defasagem por falta de recursos. Mas mesmo assim a nossa biblioteca é muito boa. O nosso herbário é o único da secretaria de meio ambiente e urbanismo. No Brasil é o melhor na família das voquisiáceas, moráceas, cecropiaceas, urticaceas. Isso tudo deveria ser tratado como “El creme de la creme”, mas não é. Muitos funcionários da Feema desconhecem o que nós fazemos aqui, o que o nosso acervo representa, o que nós temos de importante. Eu tenho muita preocupação com o que vai acontecer com esse acervo quando eu sair.

Qual o seu orçamento?

Norma – Nenhum. Faço gestão aqui de dois adiantamentos por ano, que podem ser de quatro mil mais 4 mil ou quatro mil mais 2 mil, como foi este ano. Adiantamento de dinheiro público. E mais os projetos que eu crio. Como expliquei, eles é que me dão livros, assinaturas de periódicos, digitador, etc. Mas é uma coisa batalhada, suada. Ou você faz ou você não faz. Eu acho que eu tenho uma responsabilidade, um dever moral de tentar dar sobrevivência ao patrimônio que está no herbário, na biblioteca, na ilustração. Os desenhos não têm mais mofo. Dentro de cada arquivo, botei um desumidificador. Nós tínhamos um, agora temos sete. Tudo financiado por projeto. Não foi com dinheiro de medida compensatória. Até deveria ter sido. Mas se não for assim, você não consegue cuidar do patrimônio público.

“A VACA É UM BICHO DE PLANÍCIE. A NOSSA VIVE PENDURADA NO MORRO. ENTÃO ESTÁ TUDO ERRADO.”

Quem são os responsáveis, ou o responsável, pelos problemas ambientais do Rio de Janeiro?

Norma – Todas as encostas do estado estão ocupadas, mesmo com declividade maior que 45 graus. Não vai me dizer que precisa de mais leis, não precisa. O Código Florestal de 1965 já impedia, mas você nunca viu nenhuma autoridade impor a lei. Alias, eu só conheci um cara chato como autoridade e fazia tudo ser cumprido, que é o Alceo Magnanini. O resto faz de conta que é cego, surdo, mudo e burro. Faz questão de ser bonzinho, simpático, tudo pelo social. Hoje as pessoas criaram um discurso que é muito tranqüilo. “Não, temos que ver o coitadinho”. Eu acho que o coitadinho tem que ser visto assim: o quanto ele está doente? O coloca bom. O quanto ele é analfabeto? Ensina a ler. O quanto ele não tem de qualificação? Dá. E o resto você cobra. Hoje nós deixamos tudo correr ao léu.Você chega em Miguel Pereira (região serrana do Rio) e vê que já plantaram capim a 800m de altura. Como as autoridades municipal, estadual e federal permitem isso? A vaca é um bicho de planície. A nossa vive pendurada no morro. Então está tudo errado. E nós vamos pagar um preço.

Há influência política no trabalho do Serviço de Ecologia Aplicada?

Norma – Esta é a minha segunda gestão aqui. Na primeira, quando comecei a marcar meus gols, me tiraram. Quando voltei, cinco anos depois, isso aqui estava pior, muito pior do que está agora. Retornei há seis anos.

Que gols foram esses?

Norma – Foram vários. Um deles foi o projeto de monitoramento de manguezais que eu fiz para o Programa de Despoluição da Baía da Guanabara (PDBG). Fiz um projeto de 100 mil dólares. Receberia um barco, carro para coleta, contrataria pessoas para atuar no campo coletando folha de mangue para análise. O projeto foi aprovado sem modificações pelo Banco Mundial em 1992. Aí ele foi para a Feema, onde demorou um bocado até o Brizola, então governador, assinar. A primeira coisa a ser feita foi dar a coordenação do meu projeto para outra pessoa. Um dia ela me procurou porque não sabia nada sobre mangue. Recusei-me a atendê-la.

Por que o projeto não ficou sob a sua coordenação?

Norma – Porque as coisas não ocorrem pelo seu valor técnico, mas pelo projeto político ao qual você está atado. Eu não sou apolítica, mas sou apartidária. Trabalho para gregos e para troianos do mesmo jeito. Eu tenho contrato, então eu faço o que o contrato manda, obedecendo a minha ética e moral. Mas infelizmente nos meios públicos, você não vale pelo que você é. Se fosse valer pelo que eu sou, eu seria assessora técnica da presidência. Ninguém tem dentro da área de biologia e conservação da natureza dentro da Feema, um perfil mais completo do que o meu. Basta ver meu currículo. Eu não estou falando para me gabar, é a verdade. Entretanto, como eu não faço política partidária, tudo me é dificultado. E o que aconteceu com o projeto?

Passaram-se quase quatro anos e ele não saía do papel. Os envolvidos continuavam a ganhar dinheiro. Até que a pessoa responsável pelo projeto saiu, ele foi modificado e executado por outra pessoa. Qual o seu raio de ação dentro da Feema?

Norma – Eu tenho limitação por ser apenas chefe de serviço. Acima de mim existe o chefe de divisão, depois um chefe de departamento e o vice-presidente e o presidente. Eu sou muito abusada, saio, vou por fora, mando outras pessoas cutucarem por mim, mas é arriscado e quebra a hierarquia. Esses projetos que eu tenho são de conhecimento da Feema, inclusive as doações. Mas são raras as coisas que eu consigo por fora da Feema, não tenho poder de colocar um projeto debaixo do braço e conversar com, suponhamos, o presidente da Firjan. Ele pode resolver me dar 1 milhão de reais para construir o prédio que necessito, mas ele vai ter que ir ao secretário, dizer que ele quer fazer isso aqui. E ainda vai ser convencido a fazer em outro lugar.

Do que você se orgulha durante esses anos na Feema?

Norma – Dentro dessa minha vida profissional, eu posso dizer: eu interferi na criação do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, das minhas mãos saiu a APA do Guapimirim, das minhas mãos saiu a Reserva Biológica da Praia do Sul, a APA de Maricá, a APA da Floresta do Jacarandá, APA de Sapeatiba, APA de Massambaba. E eu tenho um orgulho profundo de ser uma funcionária pública, fora de qualquer dessas definições que ofendem o funcionalismo público.

  • Andreia Fanzeres

    Jornalista de ((o))eco de 2005 a 2011. Coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade da OPAN.

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Comentários 1

  1. Jovina dos Santos diz:

    O governo da regressão, quem vai pagar a conta?!