Reportagens

A tragédia carioca

A Baía de Guanabara ganha uma biografia que para alguns pode parecer quase póstuma, mas para a autora é um convite a conhecer uma baía viva e dinâmica.

Juliana Tinoco · Carolina Elia ·
16 de setembro de 2005 · 20 anos atrás

A Baía de Guanabara, que testemunhou toda a história do Rio de Janeiro, mas sempre foi tratada como coadjuvante – recebendo o papel de cloaca da cidade – tem finalmente a homenagem que merece: uma biografia.

A autora do livro “Baía de Guanabara: Biografia de uma Paisagem”, de 270 páginas com textos em português e inglês, é a arquiteta Eliane Canedo de Freitas, especializada em ecologia e planejamento ambiental e estudiosa do tema há vinte anos. Os primeiros séculos de vida da baía são ilustrados com iconografias de época (clique na imagem ao lado ver o slide show). Mas as últimas décadas são reveladas em cores por fotografias cujos autores são desde anônimos até  fotojornalistas como Custódio Coimbra, que há 30 anos registra a cidade e seus personagens.

O livro resume o que todo governador e morador do estado do Rio de Janeiro precisam saber, se ainda não aprenderam: a Baía de Guanabara merece respeito. Ela começou a ser delineada há 65 milhões de anos e quando os portugueses e franceses a conheceram, julgaram ter descoberto o paraíso. Mas a ganância os levou a explorá-la e os costumes da civilização os fizeram ter medo da floresta, de seus barulhos e das tormentas tropicais. A solução foi derrubar as matas e domar a natureza na base da construção civil. As suas margens deram lugar a uma metrópole que, no decorrer do tempo, aterrou um terço do corpo d’água e o transformou em depósito de lixo e esgoto. Ainda assim, a Baía sobrevive e não cansa de dar sinais de resistência e beleza. Como escreveu Eliane na introdução do livro, “apesar de densamente urbanizado, o Rio de Janeiro guarda, ainda, como principal atrativo, a força de sua natureza”.

O passo a passo das mudanças sofridas pela Baía de Guanabara, que hoje abriga 14 municípios, é descrito em nove capítulos, sendo que os últimos quatro são dedicados exclusivamente às características de sua geografia e problemas. As soluções, no entanto, ficaram de fora. “Mesmo tendo dinheiro disponível e soluções técnicas ao alcance, nada é feito para mudar o cenário de degradação. Sofremos com a ineficiência da administração pública”, diz Eliane, que trabalhou na Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) durante 20 anos e participou do processo de negociação dos acordos de despoluição da Baía de Guanabara. “No livro, indico os aspectos a serem resolvidos. As soluções possíveis, essas todo mundo já conhecem”.

A proposta do livro é atiçar a curiosidade do leitor e fazê-lo observar com mais atenção o que representa a Baía de Guanabara, despertando para a riqueza desse ecossistema que ainda guarda beleza e tem uma capacidade de recuperação espantosa. Nas palavras da autora: “É lembrar que, ao longo de sua história de vida, a baía foi tentando adaptar-se aos fatos e a cada nova condição que lhe era imposta – esforça-se para sobreviver”. A história está toda no livro e o esforço testemunhado nas fotos de Custódio Coimbra, Elton Leme e Sidney Waissmann.

  • Juliana Tinoco

    Juliana Tinoco é jornalista multimídia especializada na cobertura de Meio Ambiente, Ciência e Direitos Humanos. Por quinze an...

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