Reportagens

Dezoito minutos

Floresta virtual com chuva, fogo, teatro, vídeo e música tenta ensinar às crianças conceitos como ciclo hidrológico e manejo sustentável. Mas o tempo é curto.

Lorenzo Aldé ·
19 de outubro de 2005 · 20 anos atrás

Desde o dia 12 de outubro, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro abriga, bem em frente à sua porção de Mata Atlântica, uma enorme tenda verde com motivos de camuflagem de exército. Dentro dela acontece o Cochicho da mata, uma “instalação temática” que promete às crianças uma floresta virtual muito mais divertida que a original.

Se diversão é sinônimo de ação, o sucesso está garantido. Árvores falam e cantam. Papagaios e araras explicam sua importância como dispersores de sementes. Madeireiros discutem a forma mais prudente de explorar a floresta. Macacos atacam de cantores de rap. Na selva cenográfica, efeitos especiais garantem chuva, raios, sol, vento, fogo e sons da natureza, no ritmo da proposta multimídia onde cabem música, esquetes teatrais e exibição de vídeos.

Tudo acontece em 18 minutos cravados. É o tempo agendado para que turmas de colégio, com até 20 alunos, passem pelo evento. Os guias que conduzem os visitantes de atração para atração têm que apertar o passo para não perder o script. Perguntas ou explicações adicionais? Não dá tempo. Crianças a partir de 4 anos se viram como podem diante de conceitos como evapotranspiração, ciclo hidrológico e manejo sustentável. Isso enquanto se distraem com o banho de chuva que encharca de verdade as capas cedidas pela organização, ou tentam entender alguma coisa do rápido rap dos macacos. Eu não entendi.

Há boas idéias, como usar atores “na casca” de árvores nativas (pau-brasil, jacarandá e jequitibá) apresentando-se às crianças e defender o corte seletivo da madeira. Os textos também têm lá suas sacadas e a produção musical soa bem. Sobram alguns escorregões, como não diferenciar Mata Atlântica de Amazônia e não dar explicação para o incêndio que surge do nada. Mas tanto erros quanto acertos se perdem na pressa. Na saída, cada aluno recebe uma cartilha Cochicho da mata, com belas fotos, mas linguagem de adultos.

O projeto foi concebido em 2002 pela produtora Do it!, de São Paulo, com suporte científico da Fundação Floresta Tropical, de Belém. Conseguiu patrocínio da fabricante de tratores Caterpillar para instalar a exposição no Sesc-Pompéia. De lá foi para um shopping em Piracicaba, e nos anos seguintes passou por Belém, Brasília, Curitiba e Campinas. Em 2005, ganhou a parceria da Companhia Vale do Rio Doce (também patrocinadora do site O Eco) e esteve em Belo Horizonte, antes de chegar ao Rio.

As exibições de 18 minutos rendem ao Cochicho da mata audiências de até mil pessoas por dia. O público total nestes quatro anos passa fácil dos 100 mil espectadores.

O evento fica no Rio até o dia 25 de outubro. Durante a semana, recebe escolas. Sábado e domingo, abre para o público geral, que precisa chegar cedo para pegar senhas. O evento é gratuito, mas a entrada no Jardim Botânico custa 4 reais por pessoa.

  • Lorenzo Aldé

    Jornalista, escritor, editor e educador, atua especialmente no terceiro setor, nas áreas de educação, comunicação, arte e cultura.

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