Reportagens

Arroz que tudo seca

Captação irregular de água dos rios para irrigar arrozais coloca em risco o abastecimento de 2 milhões de pessoas na região metropolitana de Porto Alegre.

Cristina Ávila ·
5 de janeiro de 2006 · 20 anos atrás

Dois milhões de habitantes da região metropolitana de Porto Alegre estão ameaçados de racionamento de água. O principal motivo é a captação excessiva pelos produtores de arroz, que constroem canais e barragens para desviar leitos de rios e irrigar as lavouras.

“A voracidade dos arrozeiros é impressionante”, desabafa o biólogo Jackson Muller, chefe da Divisão de Planejamento e Diagnóstico da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Em uma operação realizada na última semana de dezembro, ele autuou produtores com multas que chegaram a R$ 500 mil. “Há lavouras que invadem áreas de preservação permanente e se perdem no horizonte. A água é sugada por bombas, que deixam um rastro de óleo queimado escorrendo para dentro de arroios, banhados e rios”.

A situação é mais dramática na região do Gravataí, onde há 152 produtores com 20 mil hectares plantados. A bacia tem 2 mil km², onde vivem 1 milhão de pessoas. “O rio é cercado de lavouras, com 27 barragens. Um dos produtores abriu um canal de seis metros de profundidade para escoar a água. Não somos contra a produção, mas temos que ter em conta se a sociedade está disposta a pagar o custo ambiental para o plantio de uma safra de exportação. Em período de defeso as bombas chupam tudo, até as traíras. Como os peixes podem subir os rios para se reproduzirem?”, questiona o biólogo da Fepam.

Segundo Jackson Muller, entre 10% e 20% dos produtores não têm licença ambiental para o plantio. Mas mesmo aqueles que obtiveram autorização cometem irregularidades. “Fazem corte de mata ciliar, destroem banhados e ainda aplicam agrotóxicos. Encontramos barragens em cima de matas nativas. Eles colocaram abaixo árvores centenárias”, relata.

Na bacia do Sinos o problema também é grave. São 77 produtores com 7.500 hectares plantados ao longo dos 190 km do rio, que percorre 22 municípios com cerca de 1,5 milhão de habitantes. “O arroz é o mais sedento dos cereais. Para produzir um quilo são necessários 1.900 litros d’água”, ressalta Jackson Muller.

Máximas de 40°

O Rio Grande do Sul é responsável por quase a metade da produção nacional de arroz, com 1 milhão de hectares plantados. Nos anos 80 as lavouras se expandiram velozmente, graças sobretudo ao Provárzea, um programa de incentivo do governo federal. Para o plantio, foi drenada a maior parte dos banhados gaúchos, áreas úmidas que abrigam grande diversidade da flora e da fauna nativas.

O plantio é feito em novembro e a irrigação vai até fevereiro. A sede do arroz coincide com o período mais quente do ano. A Rede de Estações de Climatologia Urbana de São Leopoldo, cidade às margens do Sinos, prevê para a próxima semana temperaturas máximas de até 40 graus nas áreas mais quentes do estado, com agravamento da estiagem.

O Rio Grande do Sul está entrando no terceiro ano consecutivo de grave seca. No ano passado, o estado sofreu uma das mais fortes estiagens de sua história, quando 451 prefeituras declararam situação de emergência ou de calamidade pública. O momento mais crítico foi entre o final de fevereiro e o início de março.

Para evitar a repetição dos problemas de 2005, os comitês de bacia do Gravataí e do Sinos resolveram tomar medidas preventivas. Há cerca de 45 dias, foi firmado um acordo entre produtores e os comitês para regulagem do consumo. Desde então, são feitas medições diárias do nível dos rios e semanalmente há reuniões com os arrozeiros, para que eles se revezem na utilização das bombas de sucção, dando folga suficiente para que os rios recuperem o nível, garantindo o abastecimento das cidades.

Embora o diálogo seja um avanço, os problemas estão longe de ser resolvidos. O próprio consultor da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Ivo Lessa, reconhece: “O ganho ambiental se dá de uma geração para outra”. Ele afirma que a solução é a construção de açudes e a realização de pesquisas para o plantio de variedades de arroz que tenham menor necessidade de água.

Já o diretor de Recursos Hídricos da Secretaria de Meio Ambiente, Rogério Dewes, considera que os gaúchos precisam assimilar a “cultura da escassez”, com soluções que vão desde a tecnologia de plantio ao armazenamento da água das chuvas. “Não estamos preparados para a estiagem. No último verão, caminhões-pipa tiveram que levar água para colonos beberem nas áreas rurais. Ninguém tem cisternas para garantir seu próprio abastecimento. Temos que incorporar na sociedade gaúcha a cultura dos nordestinos para minimizar os problemas”.

* A jornalista Cristina Ávila é jornalista freelancer em Porto Alegre.

Leia também

Notícias
26 de fevereiro de 2026

Chuvas extremas atingem Minas em áreas já classificadas como de alto risco, segundo SGB

Mapas oficiais já apontavam milhares de áreas vulneráveis no estado, enquanto cortes na prevenção ampliaram os impactos das chuvas extremas

Reportagens
26 de fevereiro de 2026

Mesmo com seguidas tragédias, ocupação de encostas cresce no litoral de SP

Expansão urbana em encostas com alto risco de deslizamentos aumentou cerca de 50% em uma década, mostram dados do MapBiomas

Notícias
25 de fevereiro de 2026

Pesquisa revela a importância das cavernas para serviços essenciais à vida no planeta

Desde uma fonte de energia renovável até local para produção de alimentos, ambientes subterrâneos prestam serviços ecossistêmicos fundamentais para a saúde do planeta e nosso bem-estar

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.