Em março, duas ongs européias divulgaram um relatório com um número aparentemente assustador: 5,4 milhões de macacos são comidos anualmente pela população rural da Amazônia brasileira. A cifra não é exagerada, garantem especialistas. Mas também não representa a extinção a médio prazo dos primatas amazônicos. O principal problema causado pela caça aos macacos é a suspensão do papel ecológico que eles realizam.
O biólogo Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra – em cujos estudos se baseia boa parte do relatório das ongs Care for the Wild e a alemã Pro Wildlife – diz que o problema é sério, mas não há risco de que os macacos sumam da região. “Nascem muito mais de 5,4 milhões de macacos por ano lá”, diz ele. A caça, explica Peres, é um componente importante a dificultar a vida dos macacos, mas não é o único: corte seletivo e fragmentação de habitats são outros exemplos de problemas para os bichos da Amazônia. Mas a caça como é feita hoje é insustentável. “Basta ver onde há grande densidade populacional e você sabe onde tem macacos de grande porte e onde não tem”.
O que mais pesa com a perda dos primatas maiores, esclarece Peres, é que eles cumprem uma função importante na dinâmica da floresta como dispersores de sementes. Muitas das espécies que estão sumindo de alguns locais se alimentam de frutas cujas sementes são espalhadas pelo macaco e depois eliminadas com as fezes. “Não são muitas, mas são espécies fundamentais”, diz.
Num estudo inédito a ser publicado nas próximas semanas, Peres afirma que a extinção local de grandes espécies dispersoras de sementes (entre as quais estão não só primatas, mas também outros animais caçados, incluindo roedores como a capivara) pode afetar significativamente a flora local que depende de seus serviços. Espécies menores realizam a mesma função, mas interferem numa quantidade também menor de espécies vegetais. Algumas sementes só são espalhadas por animais grandes, cujo sumiço, no longo prazo, pode afetar a reprodução de determinadas plantas.
O professor de ecologia da UFRJ Fernando Fernandez também acredita que o principal problema da caça seja o desequilibrio da floresta por conta dos papéis que os bichos realizam. “A floresta sofre como um todo”, diz. A extinção de espécies, entretanto, não está em jogo. “Essas espécies de primata têm distribuição geográfica muito ampla para serem extintas globalmente por causa da caça”, explica Fernandez.
Pouca carne
Brasileiro radicado na Inglaterra, Peres estuda o assunto desde 1986. Ele acredita até que o número de 5,4 milhões esteja subestimado. Segundo ele, a cifra é baseada em todos os trabalhos feitos na Amazônia sobre o assunto até hoje. Mas ela não dá conta de todo mundo que usa primatas como fonte de proteínas na região. “Toda a população rural amazônica que ganha menos de meio salário mínimo se alimenta de caça. E ela também subsidia a alimentação de pessoas nas cidades menores”, diz o pesquisador.
O fato é que em qualquer lugar onde há caça, há diminuição – e extinção local – das espécies favoritas. Os mais gordinhos, de mais de três quilos, como o macaco barrigudo, o aranha e os bugios, são os mais procurados e por isso são raros nos lugares onde há mais gente. “Nem precisa muito. Duas famílias amazônicas podem causar um estrago”, conta o pesquisador.
Peres diz que existe o registro do colapso de determinadas espécies em algumas reservas extrativistas ou terras indígenas brasileiras. Cita como exemplo a terra indígena Andirá-Marau, no Pará. “Visitamos há alguns meses a reserva e ali não tem mais macaco de médio ou grande porte”, diz. O comércio da carne primata, no entanto, que era um dos pontos citados no relatório das ongs, não é tão freqüente. Peres estima que 99,6% da caça desses animais – diferente de outros mais “carnudos”, como a anta e a capivara – é para subsistência. É que os macacos são considerados imbiara (caça pequena). “Dependendo do tamanho, não vale nem a pena arcar com o custo da bala”, afirma.
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