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A nova cara do Greenpeace

Novo diretor, o sul-africano Kumi Naidoo pode trazer à tona o lado social dos trabalhos da ONG. Meio ambiente e direitos humanos fazem parte da mesma moeda, diz.

Cristiane Prizibisczki ·
9 de março de 2010 · 12 anos atrás
Foto: Greenpeace/Masi Torres
 

Uma das maiores organizações não-governamentais do mundo, o Greenpeace pode, nos próximos anos, mostrar muito mais de sua face na luta pelos direitos humanos, além da conhecida trajetória ambiental. Isso é o que promete Kumi Naidoo, novo diretor-executivo da organização, seja por seu histórico de luta ou por seu discurso, onde o respeito pelos direitos do homem e meio ambiente são mais do que causa e consequência. Eles são parte de uma mesma moeda e devem ser resolvidos conjuntamente, mesmo quando se trata de uma organização essencialmente ambiental.

Quem é Kumi Naidoo

Desde muito jovem Kumi Naidoo esteve envolvido em causas políticas e sociais. Nascido na África do Sul em 1965, envolveu-se aos 15 anos na luta de libertação de seu país. Como resultado de suas atividades anti-apartheid, foi expulso da escola na adolescência e, em 1986 chegou a ser preso, acusado de violação das leis do estado e desobediência civil. Quando libertado, Kumi viveu na clandestinidade durante um ano até decidir viver no exílio na Inglaterra. Durante sua estadia no Reino Unido, estudou em Oxford e fez doutorado em sociologia política. Após a libertação de Nelson Mandela, em 1990, Kumi retornou à África para trabalhar pela legalização do Congresso Nacional Africano. Durante as eleições democráticas em 1994, ele foi o porta-voz oficial da Comissão Eleitoral Independente e dirigiu a formação de todos os agentes eleitorais no país. Em sua carreira como ativista, Kumi trabalhou pelos direitos da mulher e contra a pobreza e a violência. Ainda na década de 1990, entrou para o mundo das organizações não-governamentais e virou presidente da Coalizão de ONGs da África do Sul (Sangoco). De 1998 a 2008 foi secretário-geral e diretor executivo da Aliança Mundial para a Participação Cidadã, que é dedicada ao esforço da ação dos cidadãos e da sociedade civil em todo o mundo. Naidoo foi também presidente fundador do Chamado Global para Ação contra a Pobreza (GCAP, na sigla em inglês), aliança que reúne ativistas em mais de 100 países e faz pressão sobre governos em questões como comércio internacional, divida externa, mudanças climáticas e igualdade entre sexos. Até 2008 foi secretário- geral da Civicus, entidade que reúne centenas de instituições ao redor do mundo que lutam pelos direitos civis e o fortalecimento da representação política. Nos últimos anos atuou no Conselho do Greenpeace para a África e, em meados de 2009, fez greve de fome durante 21 dias em solidariedade ao povo do Zimbábue. A vinda de Naidoo para o Greenpeace foi comemorada. Sendo ativista social, político e ambiental vindo de um país em desenvolvimento, a expectativa é que o compromisso com a sustentabilidade se torne mais explícito.

Em encontro na manhã desta segunta-feira com representantes de um seleto grupo de empresas, em São Paulo, Naidoo falou de diálogo entre setores, do que podemos esperar para a nova Conferência do Clima da ONU, a COP-16, e das novas exigências globais frente à constatação de que o “business as usual” não resolverá os urgentes problemas na era do aquecimento global. Antes de deixar o Brasil, Naidoo tem encontro marcado com as candidatas Dilma Roussef e Marina Silva e com o governador de São Paulo, José Serra.

Confira trechos da fala de Naidoo durante sua apresentação e em entrevista a O Eco.

COP-16
“Nós ainda temos as mesmas expectativas [que o Greenpeace tinha para a COP-15, em Copenhague],as mesmas exigências. O trabalho não foi terminado em Copenhague e precisa ser feito o mais rápido possível e queremos que ele seja feito no México. Continuaremos a pressionar, começando de cima para baixo. Continuaremos a pressionar os países para que respeitem as reivindicações das Nações Unidas e também em termos de leis internas, políticas nacionais e locais. Faremos pressão para que os países que dizem entender a urgência disso [da necessidade de ações em relação ao aquecimento global] realmente façam alguma coisa em nível nacional.”

“É o momento de perguntar a nós mesmos o que o mercado e a sociedade civil podem fazer agora com o fracasso da COP. É importante não aceitarmos o ‘bussines as usual’”

Meio ambiente e direitos humanos
“O meio ambiente é parte fundamental dos direitos humanos. Tudo o que está acontecendo, a pobreza, o respeito às culturas, os direitos das pessoas, acontece num contexto ambiental. Então, a luta de combate à pobreza, a luta pelos direitos humanos, pelo meio ambiente, são dois lados de uma mesma moeda. Eu poderia dar muitos exemplos disso. Eu estive na Amazônia por causa das violações dos direitos humanos, como trabalho escravo na indústria do gado…O Greenpeace está fazendo esta conexão na Amazônia, dos direitos humanos com o meio ambiente e o desenvolvimento”.

Aquecimento global
“Este é o momento de agirmos. A ciência está falando que ‘nós temos um problema’. A tecnologia está dizendo ‘nós podemos resolver esse problema’ e os políticos estão dizendo ‘nós vamos resolver’. Mas nós não temos mais 50 anos, temos que pressionar nossos políticos para que ajam agora.”

Engajamento
“Pela primeira vez ONGs, políticos e empresas estão trabalhando verdadeiramente de perto e o encontro de hoje (dia 8) é um exemplo. Isso não significa que temos que fazer concessões ou deixar de pressionar. Nós damos bem-vindas ao movimento em prol do meio ambiente da Coca Cola, mas isso não significa que aceitamos tudo o que ela faz e que ela aceita tudo que nós fazemos. Esse é um desafio: temos que intensificar o confronto, mas por outro lado, intensificar o engajamento [na luta ambiental].”

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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