Pelo menos 37 Unidades de Conservação no Brasil estão contaminadas biologicamente por algum tipo de espécie exótica “invasora”. Destas, 25 estão localizadas no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A árvore Pinus aparece como a espécie invasora mais comum em todas as áreas.
Os dados fazem parte do primeiro levantamento nacional de espécies exóticas invasoras, coordenado por Silvia Ziller, presidente do Instituto Horus e assessora técnica do TNC –The Nature Conservancy. Eles foram apresentados no seminário sobre Contaminação Biológica durante o IV Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, em Curitiba.
Segundo Ziller, o Pinus aparece em primeiro lugar das espécies invasoras devido à facilidade de germinação, principalmente nas áreas abertas (os campos) onde há abundância de luz. “São facilitadores para que esta espécie se propague e cause muitos danos às unidades de conservação”, explicou. A sombra produzida pelo Pinus, por exemplo, provoca uma escassez de alimentos para a fauna da região.
Outras invasoras comuns são as árvores frutíferas de nêsperas e uvas do Japão. Aparentemente inofensivas, elas começam a se proliferar no Parque Municipal das Cachoeiras, no Rio Grande do Sul, e no Parque Estadual da Vila Velha, no Paraná. Abundantes nos quintais das casas, elas têm suas sementes levadas pelo vento e germinam com facilidade. “Estas árvores expulsam as outras espécies nativas da região e acabam causando interrupção da cadeia ambiental”, afirmou Ziller.
No Rio Grande do Sul, a espécie invasora mais prejudicial às unidades de conservação é o capim annoni, uma gramínea originária da África do Sul, importada pelo fazendeiro Ernesto Annoni na década de 50. Por ser mais resistente ao clima frio, o capim foi plantado na região dos campos gaúchos como alternativa para alimentar o gado. Entretanto, o gado não conseguiu digerir o capim e hoje 10% do campo gaúcho está contaminado pela espécie. “Em 1979 a área do capim annoni era de 30 mil hectares. Hoje já atingiu um milhão de hectares”, disse Ziller.
A solução para descontaminar estas áreas passa por um processo de erradicação e controle biológico. O ideal, porém, é que os profissionais façam um diagnóstico simples nas unidades de conservação, reconheçam as espécies que não são nativas daquelas áreas e as retirem. “É um processo simples, que pode ser repassado aos moradores locais e até mesmo aos alunos das escolas próximas às regiões contaminadas”, ensina Ziller.
Apontada como uma das principais causas da extinção de espécies no mundo, a contaminação biológica também foi tema da conferência da pesquisadora Maj de Poorter, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia. Além das espécies invasoras, Poorter apontou como fonte de contaminação a visitação pública nas áreas de proteção, principalmente nos parques nacionais, pontos turísticos em muitos países.
Segundo Poorter, a contaminação pode ocorrer devido aos acessórios que os turistas carregam durante as viagens ou mesmo pelos carros que trafegam nas estradas. “Como o vento é um agente propagador de sementes, é preciso uma fiscalização eficaz nas estradas e acessos e uma abordagem mostrando os malefícios que uma espécie exótica invasora pode acarretar”, explicou Poorter.
Como exemplo, ela citou os procedimentos que são adotados na Nova Zelândia. “No aeroporto, quando alguém desembarca é preciso responder a um questionário e a bagagem passar por uma revista. A fiscalização é rigorosa. Há casos, dependendo da procedência, em que até os sapatos são esterilizados e é proibida a entrada de bijuterias feitas de sementes e frutos”, explicou. Segundo ela, somente com a implantação de procedimentos rigorosos é possível evitar a “desagradável” visita de espécies exóticas que podem causar danos irreparáveis quando estão fora dos seus ambientes naturais.
No Brasil, os estudos sobre Contaminação Biológica começaram a ser realizados há menos de dois anos. Por ser uma novidade na área de pesquisas, é necessário que os profissionais envolvidos com a área ambiental fiquem atentos e pesquisem sobre o assunto. Alguns órgãos internacionais disponibilizam as listas com as espécies invasoras mais comuns e algumas medidas de combate. As descobertas de novas espécies podem ser comunicadas ao Instituto Horus pelo e-mail invasoras@institutohorus.org.br.
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