Reportagens

Natureza e pessoas que mais dependem dela devem estar no centro das decisões da COP30

Fontes pedem participação e financiamento diretos para povos indígenas e tradicionais, além de atenção a biomas não florestais

Aldem Bourscheit ·
15 de outubro de 2025

A COP30 da Convenção do Clima, em Belém (PA) no próximo mês, é vista por representantes de ongs internacionais e pesquisadores como mais uma chance para que a natureza e as pessoas que dela dependem mais diretamente estejam nas mesas de decisões e no coração da agenda climática.  

“Os povos indígenas precisam falar por si mesmos nesses espaços”, defende Sinéia do Vale, co-presidente do Fórum Internacional dos Povos Indígenas sobre Mudanças Climáticas e coordenadora de Gestão Territorial, Ambiental e Mudança do Clima no Conselho Indígena de Roraima. 

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Ela avalia que a plataforma de povos indígenas e locais – criada no Acordo de Paris junto à Convenção do Clima – foi um avanço, mas que as contribuições desses povos contra o aquecimento planetário podem ser mais aproveitadas. “Estamos levando [à COP30] planos de gestão territorial e de enfrentamento à crise do clima”.

De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, até 3 mil dessas pessoas acamparão durante a conferência. Desses, por volta de mil estão credenciados para a Zona Azul – onde ocorrem as negociações oficiais – e os demais participarão de atividades em áreas da sociedade civil.

A mobilização reforça que a palavra de ordem é implantar medidas concretas e rápidas contra as alterações do clima, afirma Laura Arciniegas, associada para Diplomacia Climática no centro latino-americano Transforma, na Argentina. “Não precisamos de mais metas, precisamos passar à ação”. 

Para tanto, ela sugere um espaço formal na COP30 para que os países troquem experiências e políticas sobre como cumprirão os compromissos já assumidos para deter e reverter o desmatamento até o fim da década, resultando num plano claro de trabalho a ser aprovado no encontro.

Conforme Carolina Pasquali, diretora-executiva da Greenpeace Brasil, isso pode ser acomodado nos planos nacionais de enfrentamento da crise climática, desde que garantindo direitos de povos indígenas e tradicionais. “A meta está posta, o que falta é o caminho”, destaca. 

Já Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas da The Nature Conservancy (TNC) no Brasil, lembra que uma agenda conectando negociação, mobilização e ação não irá parar de pé sem acompanhamento direto e transparente da sociedade civil. “Sem monitorar, não vamos entender os avanços”.

Assessor do secretariado-geral das Nações Unidas para Ação Climática e Transição Justa, Selwin Hart sugere que medidas nacionais para cortar emissões se reflitam em efeitos práticos nos territórios. “O caminho é implantar onde dói e onde cura: territórios indígenas e áreas naturais estratégicas”.

Encontro de comunidades quilombolas no quilombo Sambaíba, em Caetité, na Bahia. Foto: André Koehne / Creative Commons

Ao mesmo tempo, a integração entre as três Convenções do Rio – Clima, Biodiversidade e Desertificação – é vista como fundamental para que a conservação e uso sustentável da natureza ganhe força na COP30. “Criamos processos separados que deveriam se conectar para facilitar a vida dos países”, reforça Arciniegas.  

Na prática, isso significa também destinar mais dinheiro com regras ambientais e acesso direto a povos indígenas e locais. Nessa seara, Beto Veríssimo, pesquisador da ong Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, lembra que desmate e ilícitos crescem pela falta de mecanismos que remunerem quem conserva. 

“No vazio de oportunidades econômicas, se instala o desmatamento e o crime”, ressalta, ao mesmo tempo em que pede maior proteção da Amazônia. “A floresta é uma infraestrutura climática fundamental, pelo estoque de carbono e pela captura via restauração”. 

Contudo, a natureza que sustenta o clima, a biodiversidade e populações humanas não cabe só nas florestas, está abrigada igualmente nos demais biomas e ambientes costeiro-marinhos em todo o planeta. 

“Precisamos reforçar a proteção e a restauração de todos os ecossistemas – não só florestas”, defende Afra Balazina, diretora de Mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica. “Manguezais são berçários de vida marinha e entregam ganhos climáticos e de biodiversidade ao mesmo tempo”, lembra. 

Todas as fontes foram ouvidas pela reportagem no encontro “O caminho para Belém: Contribuições da Sociedade Civil”, promovido por Instituto Clima e Sociedade, Greenpeace Brasil, Instituto Talanoa, Laclima, Plataforma Cipó, TNC Brasil, Observatório do Clima, Transforma e WWF-Brasil.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
13 de outubro de 2025

Na pré-COP30, Brasil promete apontar meios para reforçar finanças climáticas 

Entidades civis pedem às delegações internacionais para que o fim do uso de combustíveis fósseis esteja na agenda de Belém

Reportagens
8 de outubro de 2025

Parlamentares de sete países querem barrar novas explorações de petróleo na Amazônia

Movimento mira projetos como na foz do Rio Amazonas, que aumentarão a poluição climática e os riscos de acidentes

Reportagens
6 de outubro de 2025

Após Paris, Brasil acelera renováveis, mas desmatamento ainda é nó crítico

Balanço global revisa uma década desde o acordo climático, com avaliação de 21 países e recomendações práticas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.