Reportagens

Floresta à beira-mar

Na Restinga da Marambaia, a natureza conseguiu manter florestas à beira-mar e preservar espécies de plantas cada vez mais raras no litoral do Rio de Janeiro.

Carolina Elia ·
20 de janeiro de 2006 · 21 anos atrás


Quase que semanalmente, professores e principalmente universitários desembarcam na Ilha de Marambaia, cuidada pela Marinha, para estudar a vegetação desta parte do litoral fluminense composta de florestas firmes, alagadas, brejos, dunas e restingas. Ao todo são 11 tipos de formações vegetais onde se encontra desde as Ipomoea pes-capre,
aquelas florzinhas roxas que adoram se esticar em direção à arrebentação, até jequitibás. Os estudos são os mais variados e não se restringem à botânica. Pesquisa-se de morcegos aos nutrientes do solo, de ecologia a detalhes sobre uma única planta.


Mas a convivência de plantas tão diferentes não é sinal de uma alta biodiversidade à beira-mar. Por se tratar de um tipo de solo que oferece muita água, mas pouco oxigênio e nutrientes, este tipo de floresta é mais pobre em número de espécies do que outras. Em compensação, tem casos peculiares. Como um exemplar de Paullinia revoluta, uma espécie que hoje só é encontrada no Espírito Santo e na Bahia e que pesquisadores ainda não sabem explicar porque ela foi aparecer justamente na Marambaia. Há também um arbusto que tudo o que se descobriu é que ele pertence à família das Bignoniaceae e ao gênero Godmania. A sua espécie é um mistério, suas características não casam com as de plantas semelhantes guardadas nos herbários do Jardim Botânico e do Museu Nacional. Suspeita-se se tratar de uma espécie nova. “É muito comum encontrarmos na Marambaia plantas de difícil identificação. Algumas demoram até um ano para serem devidamente classificadas,” diz o ecólogo Luis Fernando Tavares de Menezes, professor da UFRRJ e autor de um
livro sobre a restinga.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!





“Essa é a vantagem de um trabalho multidisciplinar. Como ecólogo eu estudo o papel da planta neste lugar, mas é importante ter alguém na equipe dedicado a estudar as características das espécies para me garantir a identificação correta e completa”, diz Menezes. “É como se a gente fornecesse a ele a identidade, CPF e tipo sangüíneo da planta”, conta Hiram Baylão, 25 anos e estudante do curso de Engenharia Florestal. “Eu sempre quis trabalhar aqui na Marambaia e agarrei a primeira oportunidade. Isso aqui vale mais do que qualquer sala de aula”, compara.

Menezes concorda que a oportunidade de pesquisar na Restinga é valiosa. A língua de areia de quase 43 quilômetros de extensão que culmina numa ilha montanhosa está a 40 minutos de carro da universidade e os pesquisadores recebem alojamento, transporte e alimentação da Marinha, graças a um convênio entre as duas instituições.

“Se botar na ponta do lápis, a ajuda da Marinha equivale à verba dada a um projeto”, diz Menezes. O comandante do centro de adestramento naval na Ilha da Marambaia (Cadim), o Capitão de Mar-e Guerra Wilson Luiz de Lima Neves, não soube precisar quanto a Marinha gasta com o apoio logístico aos pesquisadores, mas respondeu: “A relação custo-benefício é tão favorável que passa a ser um investimento”. As vantagens seriam saber o que existe na restinga e receber ajuda para preservá-la.


Atualmente existem 26 alunos ligados ao Instituto de Biologia da UFRRJ envolvidos em trabalhos de pesquisa na Restinga. Quinze só do departamento de Botânica sob a coordenação de cinco professores. Além deles, pesquisadores do Jardim Botânico e do Museu Nacional também visitam a Marambaia constantemente para descobrir o que este acidente geográfico talhado pelo mar ao longo de milhões de anos protege a sete chaves do mercado imobiliário fluminense.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
30 de outubro de 2026

Brasil tem mais de 3,7 mil plantas ameaçadas de extinção

Lista atualizada pelo Ministério do Meio Ambiente alerta para aumento do grau de ameaça do pau-brasil e para possível extinção de duas plantas da Mata Atlântica →

Análises
30 de outubro de 2026

Proteger a biodiversidade exige conectar territórios

Brasil levou a COP 17 da Biodiversidade proposta que reforça necessidade de investir em corredores de biodiversidade e redes ecológicas que não se limitem às áreas protegidas →

Salada Verde
30 de outubro de 2026

MMA abre inscrições para sete vagas da sociedade civil na Comissão Nacional de Biodiversidade

Organizações ambientalistas podem se inscrever até 8 de novembro para participar da eleição de representantes no colegiado durante o biênio 2027–2028 →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.